Conectando catástrofes econômicas

September 28th, 2008 § 0 comments § permalink

No começo do mês, eu li Linked, que é uma narrativa da história do estudo de redes e seu impacto sobre os vários campos de conhecimento humano.

Uma das partes mais interessantes do livro é a discussão sobre a fragilidade inerente de redes. Essencialmente, a mesma coisa que as torna fortes as torna vulneráveis a certos tipos de situações e ataques. Um dos vários exemplos citados dessa particularidade é o sistema monetário, com sua propensão a falha (semi-)catastróficas que começam com pequenos eventos.

Lendo sobre a crise financeira americana, seu histórico, e os passos que estão sendo tomados para tentar resolvê-la, é impossível não lembrar dos exemplos de Barabási no livro. O que realmente dá medo é perceber que quando Barabási escreveu o livro, ele estava olhando para trás e vendo crises bem menores em um mercado que possuía um pouco menos de dependências do que o mercado atual. Cinco anos mais de política econômica progressivamente suicida de um governo anêmico só serviram para reforçar o que já estava acontecendo e tornar a situação ainda mais volátil.

O impressionante é perceber que nenhum tipo de conversa pública que se tem sobre o assunto leva em conta esses novos aspectos que estão sendo relevados sobre teorias mais modernas. É impressionante perceber a falta de atenção que os poderes que são possuem no quesito de se manterem coerentes com os avanços tecnológicos que afetam o social. Conversamente, nesse aspecto, redes alternativas podem oferecer soluções interessantes para o problema. O problema todo vai ser passar pelo problema e sair ileso do outro lado.

A experiência NetMovies

September 24th, 2008 § 101 comments § permalink

Hoje congelei minha assinatura do NetMovies depois de quase três meses de uso. O serviço é tolerável, mas não estava valendo tanto a pena nem no modo mais básico.

No interesse da clareza, devo dizer que recebi um código de acesso para experimentar o serviço por dois meses gratuitamente como parte de uma iniciativa dirigida a blogueiros. Entretanto, por causa da minha mudança para São Paulo e subseqüente peregrinação pelo mundo dos flats até encontrar um local definitivo, acabei não usando o código. Portanto, paguei os três meses nos quais utilizei o serviço.

A NetMovies, salvo engano, é o único é um serviço brasileiro que aluga filmes por assinatura, permitindo que a pessoa faça a decisão de quando quer assistir o filme e quando quer devolver. Esse é um ponto extremamente positivo para o serviço, principalmente no mundo moderno das locadoras que dificilmente deixam que você fique com o mesmo filme por mais do que um ou dois dias–em alguns casos, não importando nem a quantidade de filmes que você leva. O serviço é modelado na NetFlix, obviamente, e chega perto do que o serviço americano fornece mas ainda falta muita coisa para chegar a um serviço completo.

Um segundo ponto positivo é a disponibilidade de títulos mais antigos, raros de se encontrar em locadoras de bairro. Isso, aliado a uma boa disponibilidade de séries de televisão, tornam o serviço bem atrativo a cinéfilos de carteirinha, que gostam de variar o que vêem.

Finalmente, um outro ponto positivo é a cobertura, que bate qualquer outro serviço parecido na área. Além de estar disponível em várias cidades, a cobertura dentro das próprias cidades é bem significativa.

Dito, isso, vários motivos me levaram a abandonar a NetMovies e voltar para a locadora do quarteirão ao lado.

O primeiro é que por sorte ou coincidência, eu sempre morei em locais onde a locadora era bem servida. Tanto em Belo Horizonte como aqui em São Paulo, a locadora mais perto de casa mantém um estoque consideravelmente maior do que as concorrentes, o que torna a decisão mais fácil. Apesar do que a NetMovies anuncia, o processo de selecionar e receber o próximo filme não é tão ágil quando parece. Como o próximo filme pode chegar em qualquer horário do dia e você precisa pedir a troca até quatro horas da tarde para que ele chegue no próximo dia disponível, o mais comum é que dois dias sejam perdidos mesmo se você viu o filme do mesmo dia.

Para dar um desconto, esse é um balanço delicado entre quem vê mais filmes e quem não precisa de tantos. Mas é algo que acaba frustrando quem acredita que o serviço pode realmente fornecer vinte dois filmes em um mês no plano básico. Pode até funcionar, mas isso geralmente implica pedir o próximo filme antes que você tenha visto o anterior.

O segundo ponto que me incomodou foi a falta de disponibilidade de filmes mais recentes. Qualquer filme lançado nos últimos três meses aparentemente possui tão poucas cópias que está sempre na espera longa. Eventualmente o filme aparece, mas demora tanto que a sensação de satisfação é diminuída consideravelmente.

Isso leva ao terceiro ponto que é a impossibilidade de visualizar a sua posição na fila de espera. O máximo que aparece é se a espera é curta, média ou longa. Os termos não são qualificados e é impossível saber quando você vai receber o filme. O ideal seria mostrar o seu posicionamento na fila e garantir que você nunca suba posições. Não sei como o algoritmo funciona–pode ser que isso já aconteça–mas a visualização seria fundamental para dar a sensação de avanço.

O quarto ponto foi a questão de mudanças abruptas nos filmes enviados. Algumas vezes, dois filmes com disponibilidade imediata estavam em uma certa ordem mas a mesma não foi cumprida. Isso entra no ponto anterior de falta de visualização adequada da fila: o provável é que para o primeiro filme eu estava em segundo lugar ou coisa assim e sem ver essa posição a impressão é que houve uma mudança.

Um quinto ponto é a inexistência de pró-rata na mudança de planos. Se você pede uma mudança, ela é efetuada imediatamente com cobrança completa do novo valor sem considerar o dia do mês em que se está. Isso é algo ridiculamente simples de resolver mas que desanima qualquer pessoa querendo experimentar um plano maior.

Finalmente, o site não funciona bem no Safari. Funciona, mas com alguns acidentes de percurso que dão a impressão de que algo está errado na manipulação Ajax, o que, conseqüentemente, gera uma experiência ruim de navegação.

No geral, a NetMovies é um serviço que eu gostaria de manter assinado. Mas a quantidade de problemas supera a quantidade de vantagens e prefiro esperar por eventuais mudanças. Na esperança que ocorram, eu congelei a minha assinatura. Espero ter oportunidade de revivê-la em algum ponto.

Dinheiro livre

September 23rd, 2008 § 2 comments § permalink

Douglas Rushkoff tem um belíssimo artigo hoje no Boing Boing sobre o passado e o possível futuro do dinheiro e capitalismo que vale a leitura para qualquer um acompanhando as movimentações recentes sobre a crise mercadológica em progresso nos EUA.

É bem interessante que Rushkoff, que claramente acredita em um futuro de pós-escassez determinado por um mercado descentralizado (open source como ele mesmo coloca), apresenta opções diretas que estão acontecendo e que valem a pena ser investigadas.

O que me deixa bem curioso é ver como várias pessoas estão apontando para o fim do mercado como nós o conhecemos. É claro que, historicamente, mesmo se isso for verdade, o processo demora um tempo longo o suficiente para que só provavelmente os netos de nossos netos tomem consciência de que realmente houve como a “Grande Transição Mercadológica do Século 21”. Mesmo em tempos atuais, com todo o acesso histórico real-time é impossível prever qualquer coisa além de algumas poucas horas.

Ainda assim, o interessante é usar esse tipo de oportunidade como uma forma de educar a comunidade em geral sobre outras configurações válidas para cenários que geralmente são considerados fixos quando são, na verdade, sujeitos a um grande grau de maleabilidade.

Há um certo karma envolvido em viver em tempos interessantes. O que espero é que o preço a pagar seja tolerável dessa vez.

Balanço cultural de agosto

September 10th, 2008 § 8 comments § permalink

Agosto deu para ler um pouco mais e também para assistir mais filmes. No balanço, o resultado do mês foi:

  • 9 filmes
  • 7 livros
  • 2 contos e/ou noveletas

Comecei o mês lendo The Elegant Universe, por Brian Greene. Li uma edição um pouco mais antiga, mas ainda extremamente interessante como uma visão histórica do surgimento da teoria das cordas, começando com o surgimento da física moderna e terminando com as questões que atormentam os físicos teóricos atualmente. Para quem não tem conhecimento (ou tem pouco conhecimento) do que está acontecendo na física moderna, o livro é uma preciosidade. E mesmo para quem já tem um conhecimento razoável, a apresentação bem compreensiva que o autor faz do assunto releva novas facetas e novos assuntos para posterior leitura. Estou agora para ver o filme baseado do livro, que pelo que ouvi falar parece ser igualmente interessante e mais atualizado.

O segundo livro que li foi o controverso The God Delusion, de Richard Dawkins. Dawkins é famoso no meio científico por sua defesa fanática do evolucionismo e de sua repugnância a qualquer forma de religião. O livro, obviamente, é uma apresentação do pensamento de Dawkins sobre sua idéia da religião como forma de ilusão–ou delírio–considerando a possível improbabilidade da existência de Deus. Eu não vou entrar em detalhes sobre cada aspecto do livro–a controvérsia foi grande tanto a favor como contrário. Embora eu seja suspeito para falar, o livro me pareceu honesto o suficiente dentro da perspectiva do autor embora alguns problemas sejam evidentes: Dawkins não cita e não responde a qualquer dos pontos de vista alternativos mais modernos (por exemplo, ele se fixa em Aquinas quando a maioria dos teólogos modernos já responde melhor aos argumentos deste último); Dawkins falha também em levar em conta o nominalismo; e finalmente algumas generalizações são abrangentes demais para servirem como básica lógica.

O terceiro livro foi Rollback, de Robert J. Sawyer. O livro conta a estória de um casal já na sua oitava década de vida que se vê em uma situação inusitada: a esposa, Sarah, foi responsável, 40 anos antes, por decodificar a primeira transmissão alienígena recebida pelo SETI. Quando uma nova transmissão chega, um magnata oferece um tratamento revolucionário de rejuvenação para que Sarah possa decodificar e responder à nova mensagem. Ela concorda, com a condição de que seu marido receba o mesmo tratamento que custa alguns bilhões de dólares por pessoa. O tratamento funciona, mas somente para o marido e Sarah e Don, o marido, se vêem as voltas com o mistério da mensagem e com o novo relacionamento ditado pelas circunstâncias. Como nos outros livros de Saywer que li, é impossível não se sentir tocado pelos eventos que os personagens vivem e pelos temas que o autor desenvolve tão bem.

Depois foi a vez de Lazy of Mazes, de Karl Schroeder. O livro se passa no mesmo universo de Ventus, embora não seja uma prequel é uma space opera futurística/pós-Singularidade no melhor estilo possível. Como nos demais livros de Schroeder, a trama é complexa o suficiente para impossibilitar uma descrição simplificada, mas essencialmente é a estória de amigos que perdem tudo o que tem e precisam embarcar em uma jornada para tentar recuperar o que perderam, se envolvendo com um mundo muito maior do que imaginavam existir. Misture isso com um cenário trans-humanista e você tem possibilidades além do que se vê no dia-a-dia da ficção científica.

Na sequência, li The Ghost Brigades, de John Scalzi. Esse é o segundo livro da trilogia começada com Old Man’s War e continua com a tradição de uma boa space opera com a exceção de que as cenas de ação me parecerem um pouco forçadas e repetitivas. Scalzi cresceu como autor, colocando mais profundidade em seus personagens e a estória continua divertida e compulsivamente legível. De fato, tirando o pequeno problema com as cenas de ação, gostei tanto do livro quanto do primeiro.

O livro seguinte foi outro por John Scalzi, The Android’s Dream. O livro é a estória de uma crise diplomática galáctica entre a Terra e um de seus aliados e os participantes, muito a contragosto, nas confusões que se sucedem a partir daí. Para um livro que começa com uma longa piada sobre peido, o resto consegue ultrapassar a ironia inicial e se firmar com uma divertida comédia de ficção científica. Mais uma vez, tirando a fraqueza das cenas de ação, que me pareceram ainda mais forçadas que nos outros livros de Scalzi, a prosa é rápida e divertida. Vale a pena a leitura.

Fechei o mês nos livros com Matter, de Iain M. Banks. Esse é o oitavo livro de Banks em sua série The Culture. Como os demais livros da série–que podem ser lidos independentemente–a estória é absolutamente fascinante e a única coisa a reclamar é que o livro acaba. Banks conseguiu criar o que provavelmente é o universo mais fascinante da ficção científica e cada livro revela uma faceta nova, irônica, elegante e surpreendente do universo. Eu nunca escrevi muito sobre aqui, porque acho extremamente difícil capturar o brilhantismo de Banks na série mas recomendo incondicionalmente a leitura. O trabalho de Banks já foi descrito como intoxicante e a série é isso e mais um pouco.

Nos contos, duas belas estórias em Pol Pot’s Beautiful Daughter e Pi in the Sky (link no comentário).

Nos filmes, comecei com 1408, suspense baseado no trabalho de Stephen King sobre um quarto de hotel realmente mal-assombrado que elimina todas suas vítimas. Nunca li o conto que deu origem ao filme, mas como sempre a adaptação não chega a assustar ou a convencer.

The Mummy 3, repete o sucesso dos anteriores na bilheteria mas não a graça do primeiro filme. Dá para rir um pouco com as aventuras e desventuras de Brendan Fraser na pele do atrapalhado Rick O’Connel mas a substituição de Rachel Weisz, a face sem emoções de Jet Li e a estória não tão empogante deixam um filme que diverte um pouco mas não chega a convencer.

Surf’s Up, por outro lado, é absolutamente hilário e tocante, narrando a estória de um pingüim surfista em um estilo semi-documentário que lembra o melhor de Shrek e Monstros S/A. A estória é usual mas o modo como ela é contada e a excelente animação e diálogo tornam o filme memorável.

Depois disso assisti Blade Runner, the Final Cut que não difere tanto dos anteriores exceto pelo que o diretor agora considera a estória correta. Valeu mais por rever um enorme clássico do que por acrescentar alguma coisa de novo.

Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull conseguiu manter o mesmo ritmo dos demais filmes anteriores a tal ponto que não parece haver uma distância de 20 anos entre o mesmo e o filme anterior. Mudando um pouco da linha história ficcional para ficção científica, releva um lado novo de Jones e abre espaço para possíveis continuações com o queridinho de Hollywood Shia LaBeouf.

Finalmente, Wanted é uma divertida adaptação pipoca da graphic novel de mesmo nome. Eu confesso que adoro estórias sobre assassinos e o filme não desaponta nesse fator. A criação da Fraternidade é mais um motivo interessante na literatura/visual do gênero e vale a pena só por isso.

Os demais filmes, como sempre, não merecem nem a citação. Próximo mês, mais livros.

Google Chrome

September 1st, 2008 § 2 comments § permalink

Uma das grandes novidades do dia é o novo navegador anunciado pelo Google: o Chrome. Embora os detalhes sejam relativamente poucos no momento, o que foi anunciado é significativo em termos de otimização da experiência de navegação–tanto no sentido de otimizar as páginas em si e o que as mesmas usam como de melhorar os pequenos detalhes do dia-a-dia de navegação por qualquer usuário comum.

Sem surpresa, o navegador é baseado no WebKit. Embora o Google tenha um acordo com o Firefox pela primeira página, a opção pelo WebKit faz mais sentido em termos de controle geral do que o Google quer fazer com o navegador. Mesmo com a reescrita promovida sob o Mozilla, o WebKit ainda passa o Gecko em vários critérios de integração e performance–e, como vem se observando nos últimos tempos, tem se tornada a escolha como renderizador de virtualmente todos novos projetos multi-plataforma de navegadores.

Vai ser interessante ver o caminho que os dois navegadores e também o Safari tomarão daqui em diante. O IE8 também está chegando, mas a menos que a Microsoft force uma migração mais deliberada, o risco é que o IE6 ainda continue a dominar por um bom tempo. De qualquer forma, mais oportunidades dentro dos padrões Web são uma boa coisa para todos usuários. Que venha o Chrome.

Where am I?

You are currently viewing the archives for September, 2008 at Superfície Reflexiva.