Balanço cultural de agosto

September 10th, 2008 § 8 comments

Agosto deu para ler um pouco mais e também para assistir mais filmes. No balanço, o resultado do mês foi:

  • 9 filmes
  • 7 livros
  • 2 contos e/ou noveletas

Comecei o mês lendo The Elegant Universe, por Brian Greene. Li uma edição um pouco mais antiga, mas ainda extremamente interessante como uma visão histórica do surgimento da teoria das cordas, começando com o surgimento da física moderna e terminando com as questões que atormentam os físicos teóricos atualmente. Para quem não tem conhecimento (ou tem pouco conhecimento) do que está acontecendo na física moderna, o livro é uma preciosidade. E mesmo para quem já tem um conhecimento razoável, a apresentação bem compreensiva que o autor faz do assunto releva novas facetas e novos assuntos para posterior leitura. Estou agora para ver o filme baseado do livro, que pelo que ouvi falar parece ser igualmente interessante e mais atualizado.

O segundo livro que li foi o controverso The God Delusion, de Richard Dawkins. Dawkins é famoso no meio científico por sua defesa fanática do evolucionismo e de sua repugnância a qualquer forma de religião. O livro, obviamente, é uma apresentação do pensamento de Dawkins sobre sua idéia da religião como forma de ilusão–ou delírio–considerando a possível improbabilidade da existência de Deus. Eu não vou entrar em detalhes sobre cada aspecto do livro–a controvérsia foi grande tanto a favor como contrário. Embora eu seja suspeito para falar, o livro me pareceu honesto o suficiente dentro da perspectiva do autor embora alguns problemas sejam evidentes: Dawkins não cita e não responde a qualquer dos pontos de vista alternativos mais modernos (por exemplo, ele se fixa em Aquinas quando a maioria dos teólogos modernos já responde melhor aos argumentos deste último); Dawkins falha também em levar em conta o nominalismo; e finalmente algumas generalizações são abrangentes demais para servirem como básica lógica.

O terceiro livro foi Rollback, de Robert J. Sawyer. O livro conta a estória de um casal já na sua oitava década de vida que se vê em uma situação inusitada: a esposa, Sarah, foi responsável, 40 anos antes, por decodificar a primeira transmissão alienígena recebida pelo SETI. Quando uma nova transmissão chega, um magnata oferece um tratamento revolucionário de rejuvenação para que Sarah possa decodificar e responder à nova mensagem. Ela concorda, com a condição de que seu marido receba o mesmo tratamento que custa alguns bilhões de dólares por pessoa. O tratamento funciona, mas somente para o marido e Sarah e Don, o marido, se vêem as voltas com o mistério da mensagem e com o novo relacionamento ditado pelas circunstâncias. Como nos outros livros de Saywer que li, é impossível não se sentir tocado pelos eventos que os personagens vivem e pelos temas que o autor desenvolve tão bem.

Depois foi a vez de Lazy of Mazes, de Karl Schroeder. O livro se passa no mesmo universo de Ventus, embora não seja uma prequel é uma space opera futurística/pós-Singularidade no melhor estilo possível. Como nos demais livros de Schroeder, a trama é complexa o suficiente para impossibilitar uma descrição simplificada, mas essencialmente é a estória de amigos que perdem tudo o que tem e precisam embarcar em uma jornada para tentar recuperar o que perderam, se envolvendo com um mundo muito maior do que imaginavam existir. Misture isso com um cenário trans-humanista e você tem possibilidades além do que se vê no dia-a-dia da ficção científica.

Na sequência, li The Ghost Brigades, de John Scalzi. Esse é o segundo livro da trilogia começada com Old Man’s War e continua com a tradição de uma boa space opera com a exceção de que as cenas de ação me parecerem um pouco forçadas e repetitivas. Scalzi cresceu como autor, colocando mais profundidade em seus personagens e a estória continua divertida e compulsivamente legível. De fato, tirando o pequeno problema com as cenas de ação, gostei tanto do livro quanto do primeiro.

O livro seguinte foi outro por John Scalzi, The Android’s Dream. O livro é a estória de uma crise diplomática galáctica entre a Terra e um de seus aliados e os participantes, muito a contragosto, nas confusões que se sucedem a partir daí. Para um livro que começa com uma longa piada sobre peido, o resto consegue ultrapassar a ironia inicial e se firmar com uma divertida comédia de ficção científica. Mais uma vez, tirando a fraqueza das cenas de ação, que me pareceram ainda mais forçadas que nos outros livros de Scalzi, a prosa é rápida e divertida. Vale a pena a leitura.

Fechei o mês nos livros com Matter, de Iain M. Banks. Esse é o oitavo livro de Banks em sua série The Culture. Como os demais livros da série–que podem ser lidos independentemente–a estória é absolutamente fascinante e a única coisa a reclamar é que o livro acaba. Banks conseguiu criar o que provavelmente é o universo mais fascinante da ficção científica e cada livro revela uma faceta nova, irônica, elegante e surpreendente do universo. Eu nunca escrevi muito sobre aqui, porque acho extremamente difícil capturar o brilhantismo de Banks na série mas recomendo incondicionalmente a leitura. O trabalho de Banks já foi descrito como intoxicante e a série é isso e mais um pouco.

Nos contos, duas belas estórias em Pol Pot’s Beautiful Daughter e Pi in the Sky (link no comentário).

Nos filmes, comecei com 1408, suspense baseado no trabalho de Stephen King sobre um quarto de hotel realmente mal-assombrado que elimina todas suas vítimas. Nunca li o conto que deu origem ao filme, mas como sempre a adaptação não chega a assustar ou a convencer.

The Mummy 3, repete o sucesso dos anteriores na bilheteria mas não a graça do primeiro filme. Dá para rir um pouco com as aventuras e desventuras de Brendan Fraser na pele do atrapalhado Rick O’Connel mas a substituição de Rachel Weisz, a face sem emoções de Jet Li e a estória não tão empogante deixam um filme que diverte um pouco mas não chega a convencer.

Surf’s Up, por outro lado, é absolutamente hilário e tocante, narrando a estória de um pingüim surfista em um estilo semi-documentário que lembra o melhor de Shrek e Monstros S/A. A estória é usual mas o modo como ela é contada e a excelente animação e diálogo tornam o filme memorável.

Depois disso assisti Blade Runner, the Final Cut que não difere tanto dos anteriores exceto pelo que o diretor agora considera a estória correta. Valeu mais por rever um enorme clássico do que por acrescentar alguma coisa de novo.

Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull conseguiu manter o mesmo ritmo dos demais filmes anteriores a tal ponto que não parece haver uma distância de 20 anos entre o mesmo e o filme anterior. Mudando um pouco da linha história ficcional para ficção científica, releva um lado novo de Jones e abre espaço para possíveis continuações com o queridinho de Hollywood Shia LaBeouf.

Finalmente, Wanted é uma divertida adaptação pipoca da graphic novel de mesmo nome. Eu confesso que adoro estórias sobre assassinos e o filme não desaponta nesse fator. A criação da Fraternidade é mais um motivo interessante na literatura/visual do gênero e vale a pena só por isso.

Os demais filmes, como sempre, não merecem nem a citação. Próximo mês, mais livros.

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§ 8 Responses to Balanço cultural de agosto"

  • Walter Cruz says:

    Lá vou eu falar sobre o Dawkins, não resisti :)

    Ao ver os vídeos de Dawkins no youtube, a expressão que me vem a mente é ‘cara de bunda inquisidora’. Interessantemente (ugh, que palavra), ele defende seu ateísmo de uma forma cuja melhor definição, pelo que vi, só pode ser chamada re religiosa. E tem um quê dele dizer/sentir: ‘ser ateu é esperto, ser qualquer outra coisa é burrice’ que me incomoda, e é algo que não vejo entre praticantes sérios de qlqr religião.

    Nos vídeos tem alguns momentos interessantes, ele sendo expulso de uma daquelas mega-igrejas dos EUA por um pastor meio famoso lá (não lembro quem), mas tão pedante quanto ele.. Enfim é isso :) Abração!

  • Ronaldo says:

    O vídeo eu ainda não vi, mas ele acaba citando várias vezes no livro. Acho que foi essa cena, inclusive, que ele referenciou sobre um dos momentos em que as coisas não foram muito bem.

    Realmente, o Dawkins está em uma cruzada de evangelização do ateísmo. A parte da honestidade é que ele pelo menos parece ter consciência disso embora ele, correspondentemente, ignore o fato de que existem certas visão não-radicais que podem ser mais efetivas do que a mensagem dele. Especialmente a parte de tentar remapear o termo “bright” para ser sinônimo de ateísmo (que ele meio aprova, meio desaprova no livro para escapar de um possível fallout no futuro) é bem tosca já que assume que o resto da humanidade é necessariamente idiota.

    Para mim valeu a pena ler para ver o que o lance todo era, mas concordo, depois de ter lido, com vários dos problemas apontados pelos críticos. Mas, enfim, é sempre o caso com religião. Ninguém vai necessariamente convencer ninguém. :-)

  • TaQ says:

    Eu acho o Dawkins um porre.

  • Ronaldo says:

    Hehehehe, eu tinha a impressão que ele era adorado. Pelo visto o cara conseguiu ofender até os céticos. :)

  • Thiago Silva says:

    Ta aí um livro que não me chamou atenção (Dawkins). Em relação à estas questões religiosas, algo que achei interessante considerar, nos últimos tempos, é a própria natureza dos campos da matemática ou da física.

    Da forma como compreendo, os intrumentos da física não permitem fazer afirmações sobre a realidade mas apenas considerar a observação de fenômenos sob determinadas circunstâncias (ou algo nesse sentido). Mesmo que teorias pareçam “chegar perto da realidade”, aparentemente o sabonete só fica mais escorregadio e as imagens só ficam mais borradas ao seguirmos estas abordagens de investigação.

    Até mesmo a soberana matemática parece não ser tão soberana assim e, sob certo ponto de vista, talvez não esteja tão longe da física (e, dessa forma, não tão longe das crenças explícitas) ao considerarmos seus axiomas como um ato de fé. Se estas coisas conferem, não seria o próprio trabalho científico um ato de fé, não tão diferente do trabalho religioso?

    PS: Eu não li o livro. Acho que me deixaria de mau humor.

    []’s
    Thiago

  • Antonio Carlos says:

    Ola Ronaldo , Parabens pelo seu blog, mais gostaria de saber como vc consegue ler 9 livros em um mes ?? ( risos )

    Abraços

  • Ronaldo says:

    Considerando a minha bagagem filosófica, era um livro que eu tinha que ler. :-) Foi bem dentro da linha que eu estava esperando, então não chegou a incomodar mais do que vê-lo usar uma ou outra coisa já respondida e que o público em geral não pegaria. Obviamente, o propósito do Dawkins é justamente esse: os críticos podem malhar, mas o público não vê e isso é suficiente. Eu acho que você realmente ficaria mal humorado.

    Sobre a questão axiomática, concordo plenamente. Cheguei a escrever sobre isso um tempo atrás. É claro que muita gente consideraria isso sacrilégio científico, com perdão da ironia, mas eu não vejo, nem no dicionário, muita diferença.

  • Ronaldo says:

    Obrigado! :)

    Sobre ler mais, já falei um pouco sobre isso e já me entrevistaram em outro blog. Seguem os links:

    http://logbr.reflectivesurface.com/2007/02/03/lendo-mais/
    http://www.valongueiro.blog.br/index.php/ler-velocidade-qualidade/

    Espero que ajude. :)

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