Balanço cultural de setembro

October 17th, 2008 § 0 comments

Como o mês foi bem movimentado, acabou que não deu tempo de escrever sobre o que andei lendo e assistindo nos últimos tempos. O resultado de setembro foi:

  • 8 livros
  • 12 filmes
  • 12 episódios de séries

Nos livros, comecei o mês com Linked, do Albert-László Barabási. O livro é essencialmente uma narrativa da história em torno da pesquisa sobre redes e o que essa pesquisa significa para as várias áreas de conhecimento humano. Barabási é famoso pela sua participação em vários dos trabalhos seminais sobre o assunto e oferece uma visão simples e ao mesmo tempo ampla sobre o assunto em um livro que leigos podem aproveitar inteiramente. Aliás, é um excelente livro para ilustrar alguns aspectos da recente crise econômica para quem deseja entender um pouco mais sobre a fragilidade de redes.

Seguindo, foi a vez de The Last Colony, o terceiro volume na trilogia Old Man’s War de John Scalzi. Esse é o volume mais fraco da série, sem tanta caracterização e com uma linha narrativa um pouco convoluta mas ainda é divertido o suficiente para valer a pena completar a trilogia. Nesse livro, John Perry e sua agora esposa Jane Sagan voltam para liderar uma colônia nova a pedida da União Colonial e acabam se envolvendo em um conflito de proporções enormes que pode ameaçar a própria espécie humana.

Depois disso, foi vez de Infoquake, por David Louis Edelman. Esse é o primeiro volume em um trilogia chamada Jump 225 e é um começo bem promissor. Edelman cria um futuro onde humanos utilizam tecnologia rotineiramente para atualizar seus corpos e os programas para isso são comercializados em um ecossistema econômico dinâmico, extremamente volátil e perigoso. O livro acompanha a trajetória de um jovem empresário que deseja subir ao topo desse mundo e se envolve com uma nova tecnologia chamada MultiReal que promete revolucionar complemamente o mercado. Natch, o protagonista, é manipulador e inescrupuloso, e ainda assim, simpático, o que tornar a narrativa bem interessante.

O quarto livro do mês foi Brasyl, por Ian McDonald. McDonald passou três meses no Brasil pesquisando para o livro e a estória se passar em torno de três possíveis versões do Brasil: uma no século 18, seguindo um agente jesuíta nas selvas amazônicas; uma em 2006, seguindo uma produtora de reality shows no Rio de Janeiro; e uma em 2032, seguindo um jovem empresário em São Paulo. As três estórias se juntam em uma misteriosa tecnologia que permite a movimentação por entre os múltiplos possíveis mundos. McDonald fez o seu trabalho e mostra um razoável conhecimento geográfico do Brasil, conseguindo inserir isso na trama, mas, como qualquer autor estrangeiro tentando fazer a mesma coisa, falha miseravelmente em várias áreas culturais. O livro é ao mesmo tempo intrigante e frustante nesse aspecto. Vale a leitura, mas o leitor deve se preparar para várias concepções erradas sobre o Brasil.

Seguindo, reli Ender’s Game, o livro mais famoso de Orson Scott Card. Fazia tempo que eu não revia a estória de Andrew Wiggins e sua preparação para lutar contra os buggers, uma espécie alienígena que ameaça a Terra. O livro é considerado um dos maiores clássicos de SF tanto pela caracterização feita por Card quando pelas surpresas e a nova leitura foi tão interessante quanto as anteriores. A surpresa final da primeira leitura foi substituída pela compreensão das sutilezas que Card acrescenta à narrativa e isso prova a força original do livro. Vale a leitura repetida.

Depois disso, li o diminuto Whatever You Think, Think the Opposite, por Paul Arden. O livro se apresenta com uma série de conselhos para o sucesso mas acaba sendo um monte de clichés sobre como supostamente viver sua vida de maneira diferente e como oposto do usual é o ideal. Bobinho e nada inspiracional.

O penúltimo livro do mês foi The Lions of Al-Rassan, por Gavriel Guy Kay. O livro se passa no mesmo mundo de The Last Light of the Sun, que eu havia lido anteriormente e é igualmente evocativo e doce-amargo. Kay consegue mostrar um mundo inteiramente real e povoado por pessoas que você quase consegue acreditar terem existido como figuras históricas. Neste livro, a inspiração vem dos Mouros, no fim de sua época de dominiação árabe sobre a península ibérica, e a subseqüente Reconquista. A estória segue a vida de dois homens cujos destinos os colocam primeiro em favor um do outro e depois contra o outro a serviço de seus respectivos monarcas e povos. No meio disso, o destino das mulheres que amam, filhos e aliados tornam a estória inteiramente crível e marcante. Kay é certamente um dos melhores autores de ficção histórica atualmente e esse livro prova sua força mais uma vez.

Para fechar o mês, li The Difference Engine, uma colaboração entre William Gibson e Bruce Sterling que reconstrói a época vitoriana da Inglaterra em um mundo em que Babbage conseguiu desenvolver seu computador mecânica e a Revolução Digital aconteceu ao mesmo tempo que a Industrial. O livro é mais uma apanhado de estórias que se passam durante essa época, ilustrando diversos aspectos da sociedade, do que um todo coerente. Como muitos outros leitores, eu senti que esse aspecto tirou qualquer graça do que poderia ter sido um fascinante exemplo de steampunk.

Nos filmes, comecei o mês com American Gangster. Denzel Washington, como de costume, está soberbo em sua interpretação de Frank Lucas, um rei da heroína dos anos 70 em Manhattan, e Russell Crowe também não está tão ruim. Não chega aos pés de Dia de Treinamento, mas vale a pena.

Hellboy 2, o filme seguinte, decepcionou um pouco. Enquanto o primeiro era cheio de humor, bem acabado e com uma estória que fazia sentido em todos aspectos, o segundo pareceu uma desculpa para mostrar efeitos especiais. A estória é quase inexistente, a interpretação de alguns atores bem forçada e os efeitos visuais dão a sensação de que o filme se chama O Labirinto do Fauno. A única coisa razoável foi a representação dos “elfos” do filme.

The Happening foi mais uma prova de que M. Night Shyamalan deveria se dedicar a fabulas e esquecer filmes de suspense. Ele só consegue suspense corretamente quando tenta fazer outra coisa. O filme é grotesco na falta de mistério e nas tentativas patéticas de dar sustos no espectador.

O filme seguinte foi Shoot ‘Em Up que é uma comédia de ação com Clive Owen, que no filme é um pistoleiro que resgata um bebê de ser morto por “homens de preto” e tem que proteger o pimpolho com a ajuda de um prostituta e sua infalível mira. Cine pipoca de primeira qualidade para ser visto sem preocupação com a verosimilhança de qualquer coisa.

The Kingdom é um tentativa de mostrar que terrorismo gera terrorismo e que tudo pode ser visto de ângulos diferentes e explicado assim, mas também falha em porque tenta ser tudo ao mesmo tempo, um filme de ação com uma mensagem filosófica que acaba não dando em nada.

21, baseado na história do grupo de contadores de cartas do MIT é razoavelmente interessante, mas não chega a ser tão bom quanto as críticas levaram a crer. O tema é legal, mas acreditar que o tipo de ação representada no filme poderia enganar a segurança de um cassino por mais do vinte segundos é pedir demais. Tudo bem que o filme precisa de amenizar as coisas para a audiência, mas o resultado foi bem exagerado e tira um pouco da graça do filme.

O último destaque do mês foi Tin Man, uma deliciosa reinvenção de O Mágico de Oz com um tom de ficção cientifíca e steampunk. Os demais filmes, infelizmente, foram uma perda de tempo.

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