A falsa dicotomia: generalista versus especialista

October 22nd, 2008 § 8 comments

Um papo semi-presente na área de TI é a velha dúvida: generalista ou especialista? Como em essencialmente qualquer carreira em que a dicotomia é possível, há sempre uma grande questão em torno do que decidir quando se pensa em um plano para o futuro.

De um lado, especialistas justificam sua escolha em termos de melhores salários, pouco rotatividade, maior reconhecimento. Do outro lado, os generalistas justificam com maior estabilidade, menos rotina, maior amplitude de oportunidade. Sempre há uma certa tensão entre as duas versões do profissional de TI e como qualquer dicotomia, geralmente a verdade é uma coisa inteiramente diferente.

No tempo que eu tenho de carreira, o que eu observo é que a dicotomia é inteiramente falsa. Se existe o bom profissional, não há como o mesmo ser especialista ou generalista. Em um área como a nossa, onde a velocidade de transformação é enorme, medida em meses e semanas ao invés de décadas e anos, qualquer coisa que não seja a fusão dos dois conceitos é simplesmente impensável.

Ironicamente, algumas das raízes dessa separação refletem, ou talvez até tenham sua origem, na antiga disputa entre consultores e empreendedores–centrada, por sua vez, na igualmente inválida dicotomia entre engenheiros e artesãos. Como a maioria das comparações feitas para explicar o desenvolvimento de software, as analogias passam longe de explicar a realidade.

Recentemente, a popularização de frameworks e linguagens fora do mainstream como Rails/Ruby e Django/Python permitiu uma rara observação de como qualquer separação explícita geralmente é de aplicação limitada.

Um caso usual é tomar um profissional que trabalha com uma dessas tecnologias, que está tentando sair do comum em seu trabalho, seja como forma de criar uma nova carreira ou mudar sua empresa para obter uma carreira mais interessante, e por via dessa necessidade forja uma aliança entre áreas díspares como gerência, design, usabilidade, programação e outras (às vezes acumulando todas essas funções sobre si mesmo) e usar isso como exemplo de que o generalizado é melhor do que o especializado.

O mesmo erro é tomar uma disciplina como medicina e usar para ilustrar a outra proposição. Enquanto o exemplo do parágrafo anterior é um erro ao assumir que o mesmo é um exemplo de arte, o segundo é um erro em assumir que “engenharia” é uma metáfora inteiramente válida para o desenvolvimento de software.

A realidade é que, como em qualquer área, o nosso grau de proficiência é inteiramente dependente do âmbito do que estamos fazendo no momento e das circunstâncias transitórias em que esse trabalho se exprime. A especialização, nesse sentido, vem mais como força da acumulação de experiência do que de uma escolha explícita.

Um desenvolvedor é um engenheiro? Sim. É um artista? Também. Por extensão, a mesma pergunta pode ser feita para a dicotomia inicial. É um generalista? Sim. É um especialista? Também.

Isso é o que Dave Thomas fala quando explica sobre o Dreyfus model. Você vai de um lado do espectro ao outro e às vezes está em vários pontos em várias áreas. Quando isso é considerado, a dicotomia cai imediatamente por terra.

Em última instância, como a maioria das preocupações similares, o único resultado da eterna discussão é o gasto de tempo e calorias que poderiam ser postos para melhor uso em projetos mais interessantes. Na próxima vez que alguém quiser discutir isso com você, dê de ombros e ignore. Você não estará perdendo nada de valor para sua carreira futura.

Atualização: A propósito, acabaram de chamar a minha atenção que o Carlos Brando e o Fábio Akita fazem essencialmente o mesmo ponto no Rails Podcast Brasil #34. Desnecessário dizer, concordo.

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§ 8 Responses to A falsa dicotomia: generalista versus especialista"

  • Excelente texto! Tenho que lhe dar os parabéns pois seus textos têm só melhorado!

  • Pedro Paulo says:

    Hm, enrolou, enrolou e no fim não disse muita coisa.

  • Jonas Galvez says:

    Trocando por miúdos: não dá mais pra fazer carreira em linguagem X, mas também não dá pra se manter em muitos empregos sendo apenas um Jack of All Trades meia boca. Os engenheiros de software de hoje têm que ter uma multi-especialidade dinâmica, onde cultivam o domínio sobre várias áreas quando integram uma moderada agenda de pesquisas e dias especiais só para experimentos nas horas de trabalho

    Mas esperar também que o engenheiro dê tudo de si para a empresa e seja um pesquisador em suas horas vagas é exigir demais. As empresas de sucesso têm que saber promover e recompensar esse tipo de atividade, o que já acontece muito por aí.

  • Clovis says:

    Acho que o caminho é conhecer várias coisas e se especializar em uma que voce realmente goste e que provavelmente vai garantir seu salário.

  • Cansei de discussões inúteis que não levam a nada. Isso me fez visitar menos alguns fóruns que freqüentava diariamente (acho que é o problema da popularidade).
    Numa entrevista do Eric Evans ao SW Enginner Radio ele diz sobre DDD, que as pessoas se preocupam mais em discutir se um objeto será Entity ou VO, em vez de entender realmente DDD.

  • Ronaldo says:

    Rafael, opa, obrigado! Apesar de que rola um rumor que estou ficando muito ácido para o meu passado. Tenho que maneirar. :)

    Opa, Pedro! Obrigado pelo comentário. Gostaria que você elaborasse mais o mesmo. Sempre é bom aprender com os erros. :)

    Opa, Galvez sumido!

    Exatamente. O que eu acho desperdício de tempo na discussão é que se fala muito mas qualquer bom profissional faz isso naturalmente. O problema velho é olhar para os profissionais ruins e usar como espelho para a discussão.

    Sobre a questão da empresa, sim, concordo. Aí é uma questão de escolha mesmo. Se a pessoa fica presa em um local que exige mas não compensa, a opção é sempre pular fora. Com o tempo, não acontece mais.

    Opa, Clóvis: é uma opção. O problema é se a coisa que você gosta passar, como eventualmente quase tudo passa. Aí você corre o risco de ficar preso em manutenção e isso é horrível–pelo menos na minha opinião. :)

    Leonardo, tudo bom? Com certeza. Você falando do Evans, lembra que talvez o maior problema seja esse. Nego não lê, não pensa e vai falando o que acha sem dar espaço para discussão. Resultado, GIGO. :)

  • PotHix says:

    Æ!!

    Pelo visto você viu a palestra do Carlos brando no Rails Summit…E eu nem te vi por lá….¬¬

    Realmente isso é um assunto “polêmico”, que se resume em pouca coisa:

    Seja os 2!

    =)

    Há braços

  • Ronaldo says:

    Na verdade, não. Eu estava vendo a do Dr. Nic nesse momento. Foi realmente coincidência :) Acho que várias pessoas estava pensando na mesma coisa, provavelmente por inspiração do Chad Fowler.

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