Longos prazos no desenvolvimento humano

February 25th, 2009 § 2 comments

Meu primeiro contato com a fundação The Long Now foi através de um sub-projeto da mesma: o Long Bets, que procura gerar discussões públicas e responsáveis sobre tendências e previsões relacionadas à sociedade humana como um todo.

No começo de 2002, Dave Winer, um dos pioneiros da então incipiente “blogosfera”–e cujo blog eu lia na época–fez uma das primeiras apostas registradas no site. A aposta foi entre ele e o CEO do New York Times e essencialmente era sobre a relevância dos blogs em resultados de busca para cinco anos no futuro. Winer acreditava que em 2007, para as principais histórias do ano, blogs seria responsáveis pelos resultados mais importantes. Winer ganhou a aposta, a propósito.

Acabei ficando curioso com a idéia que teria motivas as longas apostas e descobri que eram somente parte de um projeto maior de consciência a longo prazo sobre assuntos humanos por uma fundação criada especificamente para esse propósito.

Os criadores da Fundação The Long Now sentem que o passo da civilização humana está chegando em um ponto intolerável onde o tempo de atenção médio da espécie é patologicamente prejudicial à sobrevivência da mesma e estão criando projetos que vão tentar incentivar o pensamento em prazos que compreendem não somente anos, mas em alguns casos olham milênios à frente.

Um desses projetos, por exemplo, é o 10,000 Year Clock. Esse projeto visa construir um relógio capaz de durar 10 mil anos, que é justamente o tempo em que a humanidade existe com uma espécie tecnologicamente estável. Para apoiar nesse processo, uma das idéias interessantes é usar uma base milenar na nomenclatura dos anos. Como pode ser visto nos sites da Fundação, os anos são registrados com um zero a mais, 2009 sendo 02009 no caso. O relógio a ser construído duraria até o ano 12000, marcando os 10 mil anos do protótipo inicial.

Outros projetos compreendendo o mesmo timeframe estão sendo elaborados, com o propósito de preservar a herança lingüística e o conhecimento que está sendo acumulado atualmente e que corre o risco de ser perder por existir em formatos proprietários e pouco duráveis.

Estou começando agora a ler Anathem, do Neal Stephenson, que também é inspirado pelas idéias da Fundação e está sendo bem interessante ver como Stephenson conduz essa idéia de pensamento a longo prazo dentro da obra–algo que ele já faz por extensão em outros de seus trabalhos mas que fica mais evidente em Anathem.

Trabalhando em uma profissão em que as coisas são medidas em um ritmo dezenas de vezes maior do que da maioria das outras áreas, não fica difícil perceber a atração que isso possui para a discussão tecnológica–não por que há uma necessidade de reduzir o ritmo, mas sim pela idéia de remover o imediatismo e pensar em como o acúmulo de decisões corretas é necessárias para um uso são dos recursos planetários que temos e uma eventual saída do planeta.

Se vamos evitar os cenários apocalípticos e destrutivos que permeiam nossos sonhos ficcionais, precisamos de uma visão que olhe para um momento em que não seremos os mesmos em nossa relação com o universo mas que nos permita permanecer essenciais ao que somos. Essa é uma das promessas dos projetos Long Now e algo que acredito valer o esforço.

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§ 2 Responses to Longos prazos no desenvolvimento humano"

  • Rodrigo says:

    “Se vamos evitar os cenários apocalípticos e destrutivos que permeiam nossos sonhos ficcionais, precisamos de uma visão que olhe para um momento em que não seremos os mesmos em nossa relação com o universo mas que nos permita permanecer essenciais ao que somos.”

    concordo, pena que o ser humano seja cego :/

  • deborah says:

    Se vamos evitar os cenários apocalípticos e destrutivos que permeiam nossos sonhos ficcionais, precisamos de uma visão que olhe para um momento em que não seremos os mesmos em nossa relação com o universo mas que nos permita permanecer essenciais ao que somos.”

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