Programming Talk

June 29th, 2009 § 4 comments § permalink

Sabe a diferença semântica entre class << self e métodos de classe no Ruby? Já programou meta-decorators em Python? Quer implementar OMeta em sua linguagem favorita? Já programou em Nu ou Newspeak? Já está na curva descendente de uso de meta-programação em sua linguagem diária?

Se respondeu sim a alguma dessas questões ou simplesmente gosta de discutir linguagens de programação de maneira mais profunda, junte-se a nós no grupo programming-talk.

Aceitamos newbies de qualquer natureza–já que todos somos iniciantes em alguma coisa–mas não para fazer perguntas idiotas sobre como usar a feature XYZ em seu trabalho diário. Por causa disso, o grupo é invite-only.

Se tem interesse, acesse o grupo e peça um convite. Justifique sua entrada, a propósito (ou a entrada será automaticamente negada). :)

Dois começos

June 28th, 2009 § 4 comments § permalink

I

Em retrospecto, eu posso dizer sem qualquer sombra de dúvida que a culpa cai toda sobre os ombros deste que lhes escreve. Vocês sabem muito bem o que costumam dizer os sábios sobre a mal-fadada curiosidade e gatos proverbiais. Mesmo assim, não consigo excluir da minha mente a idéia–cínica, e alguns diriam até ingrata–de que ela sabia exatamente o que estava por acontecer e me deixou no igualmente proverbial escuro. Exceto por minha morte, é claro. Essa–eu não só tenho certeza como evidências concretas–foi única e exclusivamente culpa minha.

Mas, eu me adianto. É comum, quando eu escrevo, digo de passagem. Se quero contar a estória direito–e imagino que sim, já que estou me dando esse trabalho–preciso retornar há alguns meses atrás quando a confusão começou. E por confusão, estou caracterizando o tipo de caos e tumulto que eventualmente levam ao fim de uma civilização, algo que, no meu caso, é quase que inteiramente a realidade.

Eu estava em Wintrya naquela época, uma cidade suja, mal-cheirosa, habitada por multidões de seres incultos e ignorantes, dominada por uma casta corrupta e extremamente suscetível a suborno e, para completar, tão ao sul do Círculo das Terras quando eu poderia estar. Em suma, o local perfeito para o que eu tinha em mente: recomeçar minha carreira. O único problema então era que eu estava, sem sucesso algum, devo dizer, chegando perto desse objetivo. Na verdade, eu poderia dizer que estava começando a ver algum futuro pela frente mas estaria mentido.

Pensando bem, talvez eu precisa começar um pouco antes ainda. Histórias começam no preciso instante em que os eventos se aceleram rumo ao inevitável, no certo instante em que o protagonista–e eu hesito em me denominar assim–comete o erro impensado de acreditar que é mais especial do que o resto do seu mundo.

No meu caso, acordei em uma manhã tipicamente enevoada e comum em minha bela cidade ao norte do Círculo das Terras e decidi, assim mesmo, que estava na hora de mudar de carreira. Quinze anos como assassino profissional era algo do qual eu podia me orgulhar mas chega um ponto em que tudo começa a ficar rotineiro de mais, sem graça, sem interesse. Minha carreira estava estabelecida, sim. Eu tinha respeito, era anônima e possuía dinheiro suficiente para durar um bom tempo. Mas, no final das contas, há um número limitado de estratégias que dão certo e mesmo para o mais profissional dos assassinos chega um momento que o tanto de sangue e tripas já vista supera a vontade representada por cintilantes moedas de ouro. Em suma, a coisa toda perdera o interesse para mim.

II

Em retrospecto, eu diria que a culpa foi toda minha. Você sabe o que dizem sobre curiosidade e o gatos. Por outro lado, não consigo me furtar à sensação de que ela sabia o que estava por vir e me deixou no escuro. Exceto pela minha morte, é claro. Essa, eu tenho certeza, foi inteiramente um problema meu.

Mas, eu me adianto. Se eu quero contar a história direito, preciso retornar para alguns meses atrás, quando a confusão–e por confusão eu quero dizer, aquelas capazes de destruir uma civilização inteira–começou.

Eu estava em Wintrya naquela época, tão ao sul do Círculo das Terras quanto eu poderia estar, refazendo minha vida. Sem muito sucesso, mas começando a ver algum futuro pela frente. Mas talvez eu precise começar um pouco antes ainda.

Uma manhã eu acordei e decidi que estava na hora de mudar de carreira. Quinze anos como um assassino profissional era algo do qual eu tinha um certo orgulho mas chega um ponto em que os serviços começam a se tornar rotineiros e a coisa toda não tem tanta graça mais. Minha carreira estava bem estabelecida: eu era respeitado, anônimo e com dinheiro suficiente para durar um tempo considerável. Mas, nada era tão interessante mais.

Balanço cultural de maio

June 26th, 2009 § 0 comments § permalink

Junho quase terminando e só agora deu tempo de fazer o balanço cultural de maio. O mês foi ainda mais corrido do que maio, mas deu tempo de ler um pouco mais às custas de algumas noites mal dormidas. O resultado do mês foi o seguinte:

  • 5 livros
  • 2 filmes

Começando o mês, li Leading Geeks, do Paul Glen. Para quem está começando a carreira gerencial, o livro é absolutamente imprescindível. Paul Glen é um geek escrevendo para geeks. Seu livro não é interessante somente para gerentes mas também para aqueles que tem gerentes na área pelo fato de focar não só nos detalhes do dia-a-dia gerencial mas também em procurar entender como funciona a mente geek. Dividido em dois temas, o contexto da liderança e o conteúdo da liderança, Leading Geeks fornece um bom framework para equipes que precisam trabalhar melhor em áreas de conhecimento e tecnologia.

Os dois próximos livros foram The Knight e The Wizard, os componentes da duologia The Wizard Knight de Gene Wolfe. Não preciso me estender aqui porque já fiz uma resenha bem detalhada do livro anteriormente. Basta dizer que recomendo muito, especialmente para quem gosta de literatura fantástica de natureza mais inusitada.

Seguindo o mês, li The Buried Pyramid, por Jane Lindskold. Esse é o primeiro livro da autora que eu leio e confesso que não gostei muito. O livro começa interessante, com uma estória envolvendo um faráo desaparecido nas areias do tempo e um soldado tornado arqueólogo que quer ser o primeiro a descobrir onde jaz o túmulo do mesmo. Em paralelo, um grupo misterioso pretende impedir a descoberta. Poderia ter sido um livro interessante mas descamba para uma enorme seqüência sem sentido no terço final culminando em um final deus ex machina que, embora responda as questões levantadas tira qualquer possibilidade de sentido do livro. Infelizmente, passo os próximos livros da autora a menos que alguém tenha uma recomendação muito boa.

Terminei o mês lendo Eternity’s End, por Jeffrey A. Carver. O livro, uma space opera, conta a estória de um rigger chamado Renwald Legroeder que se vê envolvido em uma conspiração para esconder o mistério que cerca uma nave espacial fantasmagórica perdida durante uma viagem espacial. Os riggers são pessoas com a habilidade de conduzir naves espaciais em segurança através de uma dimensão espaço-temporal chamada de Flux que permite viagens em velocidades acima da luz. Legroeder, que foi aprisionado por piratas durante uma viagem, tem que se aliar a uma advogada e uma raça alienígena quando é preso por ter supostamente ajudado a captura de sua nave. Em uma corrida para provar sua inocência e descobrir o mistério do Holandês Voador espacial, Legroeder precisa ir além de seus conhecimentos e formação para achar a verdade. O livro é interessante e embora não tenha tanta força literária, consegue sustentar bem a leitura até um final convincente.

Nos filmes, comecei o mês com Body of Lies, um thriller de espionagem com Leonardo DiCaprio e Russell Crowe, envolvendo conspirações e a caçada a um terrorista na Síria. Chega a ser interessante em alguns pontos, mas falha pelo final meia-boca.

Logo também no início do mês, fui ver a nova versão de Star Trek. Com fã absoluto de todas as manifestações da série, não preciso dizer que o filme marcou o fim de sete anos ansiosa de espera por algum material novo na franquia. Obviamente, como se tratava de um reboot da série, fiquei bem preocupado com a possibilidade de que o resultado final fosse completamente avesso ao que Star Trek representa.

Felizmente, embora o filme tenha suas falhas, para mim representou um boa retorno de Star Trek às telas–e pelo sucesso, possivelmente à televisão também. O filme já sofreu análises extensivas por partes dos milhões de fãs e não vou me estender nos detalhes do cânon. O filme é de ação, sim, algo que a série precisava, e, sim, peca em não forçar tanto os temas que tornaram a série icônica. Mas é um bom começo para uma exploração futura e revista desses temas. Não acho que essa bola vá cair com a competência que todos produtores sempre tiveram. Não é a Star Trek que nos acostumamos a ver em alguns aspectos e é em outros aspectos igualmente válidos. Vi três vezes o filme e vou comprar quando sair. Mas, fazer o quê, sou fã. :)

No próximo mês, mais livros e filmes.

Eu tenho um sonho…

June 25th, 2009 § 14 comments § permalink

Hoje foi um daqueles dias ótimos no trabalho. Apesar da chuva, o movimento não diminuiu e consegui vender nada mais, nada menos do que duzentos pratos de milho verde.

Eu gosto de dias de chuva, confesso. Por mais que seja inconveniente para o cliente–e sempre há a chance que eles desapareçam se as ruas ficarem alagadas e intransitáveis–eu sempre tive uma queda para a paisagem cinzenta e opaca dos dias frios e nublados dessa cidade.

E hoje, um dia que combinou chuva e boas vendas, merece uma comemoração extra.

Eu já estou nesse ponto há 20 anos. Não considero minha vida sofrida. Fico vendo aqueles executivos passarem apressados para cima e para baixo, homens e mulheres com aquele porte que indica poder, alheios ao mundo ao seu redor. Volta e meia, um deles sai mais tarde do trabalho, para aqui e comenta um pouco sobre o trabalho no escritório, sobre a pressão dos chefes, sobre as intrigas e políticas. Não quero isso para mim, é o que eu sempre penso.

Fiz faculdade também. Acabei nesse lugar por força do destino, mas não acho que tenha sido lesado pelos deuses ou algo assim. Consegui criar e sustentar uma família, meus filhos estão todos crescidos e bem. E eu, bem, eu continuo aqui. Nos momentos de pouco movimento, leio meus livros, me inteiro do mundo, converso com os clientes, fico sabendo de tudo: dores e amores, conquistas e perdas, beleza e feiúra expostas na cidade.

É impressionante como as coisas são. Um dias desses, um violonista famoso decidiu tocar aqui por perto. Um experimento. Seis peças de Bach por quarenta e cinco minutos. Perdi a conta de quantas pessoas passaram sem prestar atenção. Eu, embevecido, via o mundo andar ao redor, alheio ao som majestoso saindo daquelas cordas, e abanava minha cabeça. De que adianta essa vida toda corrida se você não tem tempo para parar por alguns minutos e contemplar o maior de todos os mestres?

Isso me lembra dos dias em que eu tenho alguns pesadelos estranhos. Há dias–raros, graças a Deus–em que eu acho que sou um programador em uma dessas firmas grandes, fábricas de software como meu filho costuma dizer quando conta do seu trabalho, e fico o dia todo em uma baia apertada, no meio do barulho, tentando fazer um trabalho que nunca acaba. Acordo suando frio.

Ainda bem que estou aqui, vendo a chuva cair, e me preparando para mais uma boa noite de sono. Amanhã tem mais. Se o sol sair, o dia pode ser melhor ainda para as vendas. Já tenho o livro preparado para os momentos preguiçosos. Só sinto falta mesmo da patroa. O resto está muito bem.


Agradecimentos ao TaQ e Manoel Netto pela inspiração.

Postando no WordPress via E71

June 13th, 2009 § 3 comments § permalink

Uma das coisas complicadas em dispositivos móveis é escrever em um blog usando os mesmos. Sempre procurei e nunca fiquei satisfeito até encontrar uma combinação quase que imbatível no E71 mais WordMobi, uma aplicação para o WordPress na plataforma S60.

Usando a característica de texto preditivo do E71 e a facilidade de edição que o WordMobi oferece, é possível compor textos quase com a mesma flexibilidade de escrever em um computador. É possível até mesmo subir imagens e vídeos.

Obviamente, nem tudo é perfeito já que falta ao E71 um navegador que permita copiar e colar links e textos de uma maneira mais geral–um fator extremamente limitante na plataforma já há um bom tempo. Mas, para as necessidades casuais, já resolve bastante.

Um detalhe tecnológico legal é que o WordMobi é escrito em Python para o S60. Dá seus problemas de quando em quando mas mostra que já é possível fazer muita coisa com o Python em celulares.

Reduzindo nomes no Git e SSH

June 4th, 2009 § 2 comments § permalink

Para quem está cansado de digitar longos nomes de repositórios no Git, o Git possui uma modo de criar alias para URLs de maneira bem simples.

Vamos usar o GitHub como exemplo, embora a técnica seja, obviamente, válida para qualquer tipo de repositório e protocolo:

O comando, que deve ser aplicado globalmente, isto é, à sua configuração geral do Git, tem a seguinte forma (substitua, no comando abaixo, rferraz pelo seu nome do usuário do GitHub):

git config --global url."git@github.com:rferraz/".insteadOf "github:"

Com o comando acima, é possível usar o seguinte comando ao clonar um repositório:

git clone github:eleusis-server.git

O comando será automaticamente expandido para:

git clone git@github.com:rferraz/eleusis-server.git

Para reduzir ainda mais, no caso de repositório cujo protocolo é SSH, pode-se editar o arquivo ~/.ssh/config para adicionar um alias para o próprio servidor em questão. No caso do Git Hub, o trecho de arquivo seria:

Host github
        Hostname github.com
        User git

Com essa configuração, o comando original de alias poderia ser reduzido para:

git config --global url."github:rferraz/".insteadOf "github:"

E o resultado é o mesmo.

Fica a dica para quem sempre está brincando com vários repositórios, especialmente quando os nomes são longos.

Joie de Vivre

June 4th, 2009 § 6 comments § permalink

Alguns anos atrás, trabalhei por alguns meses em uma empresa pequena–quatro funcionários na época–fazendo aplicações corporativas em PHP. Eu estava cansado de programar em ASP e queria espairecer um pouco em outras arenas.

Infelizmente, a alegria durou pouco. Por várias razões–falta de planejamento, dificuldade em conseguir recursos, falta de pessoal qualificado, etc–a empresa não vingou. Na época, meio do primeiro governo Lula, isso não era tão fora do comum mas faltou também uma pitada de sensatez de todo mundo para lidar com a situação. O meu tempo lá não foi de todo perdido. Rendeu boas estórias e duas amizades queridas que ainda preservo mesmo com a distância.

Por outro lado, foi a única vez em que pedi demissão em ira. Ira por planos que não chegavam a lugar nenhum. Ira por promessas não cumpridas. Ira por várias outras razões que na época pareciam bem válidas. Parti para outra, mas carregando aquele peso comigo de assunto não resolvido.

Demorou muito tempo para perceber que, na verdade, a minha ira não derivava dos problemas que eu percebia na empresa. Ao contrário, vinha de um sentimento de que faltava joie de vivre no ambiente de trabalho.

E joie de vivre –em uma tradução direta e meia-boca, alegria de viver–era algo que eu sentia mais falta no intercâmbio com meus pares de desenvolvimento do que em relação à própria empresa. Como em outras empresas que trabalhei desde então, a sensação de que os desenvolvedores ao meu lado não experimentavam isso era a parte mais terrível de qualquer situação. Eu, que sempre tive um pé no mundo livre, em projetos paralelos, conseguia derivar isso mesmo na ausência de outros fatores.

Não é de se estranhar, por exemplo, que o grande selling point do Rails tenha sido o fato de que ele devolvia ao programador a alegria de desenvolver. O Rails não se tornou um dos frameworks mais bem-sucedidos de todos os tempos por causa de suas proezas técnicas. Ruby mais Rails se tornaram um combinação imbatível em trazer joie de vivre aos desenvolvedores.

Não há nada que compre joie de vivre . É algo que só você pode conseguir e somente em certas circunstâncias. Não dá para construir nem criar, exceto por prover [condições apropriadas para que ele aconteça][1]. E como eu queria que outros pudessem experimentar isso também. Pena que quase nunca seja o caso nos ambientes que temos.

[1]: http://logbr.reflectivesurface.com/2009/04/22/a-pobreza-das-conexoes/

Balanço cultural de abril

June 2nd, 2009 § 7 comments § permalink

Abril foi um mês de mudanças e correrias e, de acordo com meus registros dos últimos três anos, o mês em que menos consegui ler. Em compensação, vi mais filmes do que o normal. O resultado pífio ficou no seguinte:

  • 1 livro
  • 16 filmes

O único livro que li no mês foi Flashforward, do sempre interessante Robert J. Saywer. O livro é de 1999 e conta sobre eventos passados em 2009, o que, ironicamente, o torna ao mesmo tempo datado e atual. Datado porque alguns eventos, é claro, não se passaram como o livro mostra. E atual por causa da coincidência de alguns temas que estavam na mídia justamente no tempo que Saywer os descreve nos livros.

O livro conta a estória de um evento acontecido em 2009 quando o LHC é ligado em uma tentativa de provar a existência do bóson de Higgs. Ao invés da prova, a tentativa faz com que todos habitantes do planeta experimente durante dois minutos e alguns segundos as suas vidas de cerca de vinte um anos no futuro. O resultado–além da imediata perda de vidas e semi-colapso econômico–é um mundo inteiramente mudado pelas visões que alguns acreditam imutáveis e outros não. Sawyer lida com maestria com essas questões, inclusive tecendo um pequeno mistério detetivesco de um homem que descobre ter sido assassinado no futuro e que quer prevenir o acontecimento. Muito bom e leitura recomendada. O livro está agora sendo desenvolvimento em uma série para a TV pela ABC.

Nos filmes, o mês foi bem interessante.

Comecei vendo Watchmen. Ainda não li a série em quadrinhos que deu origem ao filme, mas gostei muito da representação visual criada para o mesmo em relação ao que já folheei. Watchmen é uma versão gráfica de temas que são constantes na literatura de ficção científica, e tem o mérito de trazer isso para as massas. Se conseguiu ou não, é uma discussão para outra hora.

Segui o mês vendo Pulp Fiction, que era um que me faltava dos clássicos do gênero. Como eu provavelmente sou a última pessoa no planeta a ver o filme, não preciso também comentar muito sobre o mesmo. Basta dizer que achei bem melhor que a obra posterior de Tarantino. Em Pulp Fiction, o exagero a que ele recorre normalmente parece bem mais refinado e elaborado do que em seus outros filmes. O que é uma pena.

Na seqüência, vi o esquecível Max Payne. Péssima direção, péssima atuação e só terminei de ver porque sou teimoso. Pareceu uma tentativa bem descarada de copiar o clima e surrealidade de Constantine perdendo todo o background desde último no processo.

Continuando, foi a vez de Vicky Cristina Barcelona. Minha experiência com Woody Allen é sempre meio confusa. Alguns de seus filmes me impressionaram muito pela sensibilidade e profundidade enquanto outros me deixaram com a sensação de que ele estava simplesmente vomitando idéias sem conseguir uma boa união entre as mesmas. Vicky Cristina Barcelona está no meio do caminho com isso. Tem uma riqueza de situações, uma atuação conjunta muito boa dos atores principais e uma veia mórbida que me atraiu. O final é desencontrado mas acaba não falhando. No geral, foi melhor do que minha experiência usual com os filmes do diretor.

Milk, o filme seguinte, me impressionou muito. Eu sempre gostei da atuação de Sean Penn e acho que ele mereceu o Oscar que ganhou nesse filme. O assunto continua sendo delicado mesmo na época atual e a direção conseguiu passar a ambigüidade na história de Harvey Milk com tranqüilidade. Tendo saído de duas visitas recentes a São Francisco, ver a cidade e seu desenvolvimento no filme foi um bom complemento para os passeios que fiz.

Os dois filmes seguintes, Yes Man e Bedtime Stories foram suficientemente divertidos para merecer uma menção aqui mas pouco mais do que isso. Jim Carrey já cansou com suas carretas e o filme só se salva por conta da adorável Zooey Deschanel e Adam Sandler entrou em uma fase exagerada que não adiciona nada a seus filmes.

Slumdog Millionaire é interessante e bem trabalhado mas sem surpresas. Eu gosto do trabalho de Danny Boyle e esse filme tem o seu toque específico mas muitas das seqüências parecem ser feitas para criar pena no espectador sem acrescentar muito à estória. Funciona em um certo nível mas deixa uma sensação um pouco desagradável ao fim do filme

Bolt, o filme que vi em seguida, é mais uma divertida e bem-feita animação com bons personagens e uma estória engraçada e bem trabalhada. Gostei especialmente da gata Mittens, mas Travolta se sai muito bem também dando voz ao personagem título. Não chega é claro, aos pés de um The Incredibles, mas vale o tempo gasto.

Transporter 3, infelizmente, não se salva nem com a sempre divertida atuação de Jason Statham. O filme repete a fórmula dos anteriores, mas exagera justamente no que não deveria e no que deixou o primeiro filme tão interessante (para valores de interessante centrados em diversão inútil mas inteira e completamente aceitável para mim) e transforma o filme inteiro em uma sucessão de buracos de roteiro que não podem ser corrigidos nem por boas cenas de ação.

Na seqüência, City of Ember é um pequeno conto de ficção científica sobre uma cidade salva de destruição do mundo cuja intenção era durar apenas duzentos anos mas, quando o conhecimento sobre suas origens e futuro é perdido, se vê as beiras de destruição. Quando os adultos da cidade falham em enxergar o perigo e, ao contrário, se refugiam no passado, um par de adolescentes toma a questão em suas mãos. O filme tem uma fotografia bem agradável e adequado e consegue contar uma boa estória. Vale como um filme sem grandes exageros e que por isso mesmo conta uma boa estória.

Continuando, Frost/Nixon é intenso, muito bem elaborado e conta a impressionante história das entrevistas que Frost fez com Nixon. O misto de tentativa de redenção e admissão de erros torna o enredo bem interessante e as atuação são muito boas. Vale cada minuto.

Burn After Reading é uma comédia surreal e engraçada que deu uma par de horas de diversão. Vantage Point, X-Files 2 e Bangkok Dangerous não merecem mais do que uma breve menção. Dá para assistir mas eu teria lido outro livro com o tempo perdido com eles.

Maio vem em breve com mais livros e menos filmes.

The Wizard Knight

June 1st, 2009 § 0 comments § permalink

Como um leitor antigo de fantasia, o nome de Gene Wolfe sempre figurou na lista dos autores que eu queria ler quando mais jovem. Wolfe, hoje com setenta e oito anos, é considerado um dos melhores autores de fantasia de todos os tempos–inclusive por outros autores do gênero–e existe uma certa ironia do fato de que, até esse ano, eu ainda não conseguira ler nenhuma de suas obras. Eu me lembro de ter visto várias vezes um ou outro livro de suas multi-voluminosas e épicas obras na biblioteca pública que eu costumava usar mas, por uma razão ou outra, suas obras foram ficando para leituras mais tardias.

Fast-forward para duas décadas no futuro e, navegando pela Internet, encontro menções a uma obra mais recente de Wolfe, a duologia chamada The Wizard Knight. O que mais me chamou a atenção nos livros, além do fato de que eram mais rápidos e que eu poderia usá-los para começar a conhecer um pouco de Wolfe, foi a recomendação de Neil Gaiman na capa, que considerava a série “importante e maravilhosa”. Novamente, por ironias do momento, acabei não levando nenhum dos livros. Volta e meia eu via um dos volumes em uma livraria, mas deixava passar. Até, que em uma viagem recente aos EUA, passeando pela Borders, topei com os dois livros de uma só vez e comprei.

Dizer que o estilo de Wolfe é estranho é uma declaração que não expressa o quão diferente é o modo como ele escreve. Obviamente, sendo esses os primeiros livros de Wolfe que eu leio, não sei a que ponto o estilo se estende aos outros livros, mas, pelas resenhas que li, é algo mais ou menos constante em sua obra.

Em The Wizard Knight, Wolfe conta a estória de Able of High Heart, originalmente um adolescente americano que, ao escolher um caminho errado por uma floresta, é transportado a um reino mágico e transformado quase que instantaneamente em um homem adulto de proporções épicas. Able–que é o nome dado a ele por aqueles que o transformaram–torna-se um Cavaleiro e recebe a missão de trazer balanço ao mundo em que ele se vê lançado. Esse mundo, composto de sete camadas, cada uma deles visível da inferior como se fosse o seu próprio firmamento e tendo os habitantes da camada superior como deuses, é uma versão convoluta e espetacular de Faerie recriada por Wolfe para servir seus propósitos. Dragões, aelfs, reis, rainhas, cavaleiros, deuses e deusas, feiticeiros e magos, ogros e gigantes aparecem em igual medida na estória. No meio disso, se encontra também a estória de amor de Able por Disiri, uma rainha Aelf que ajudou em sua transformação por motivos que são vagamente vistos ao longo dos livros.

Contada largamente em primeira pessoa por Able, na forma de cartas, a narrativa é completamente duvidosa e inconstante. Able, que embora tornado adulto, é no fundo um adolescente, conta sua estória da maneira como ela lhe vêm na cabeça, misturando locais, tempos e fatos. Embora a narrativa seja na maioria do seu ponto de vista, algumas vezes Able narra fatos a que não teve acesso a não ser por terceiros e as pessoas e visões da estória se tornam ainda mais estranhas. Em alguns pontos, a própria construção das frases apresenta falhas como se Able estivesse tentando encontrar as palavras apropriadas e se distraísse, criando um efeito vívido e impressionante de estranheza. Mais curiosas ainda são as menções que ele faz de eventos que aconteceram ou vão acontecer, para simplesmente abadoná-los na narrativa–algumas vezes não sendo mais mencionados ou resolvidos em qualquer ponto do livro.

Essa forma de narrativa não tira, de forma alguma, o brilho de estilo de Wolfe. Pelo contrário, por ser tão diferente da norma, dá ao leitor uma sensação de frescor e vivacidade pouco encontradas em outras obras do gênero. Able, embora um narrador pouco confiável, traduz ao mesmo tempo a segurança de um cavaleiro experimentado e a incerteza adolescente de alguém que sabe que foi tirado de seu mundo e é um joguete de forcas maiores que sua própria compreensão. O resultado dessa mistura improvável é uma estória nostálgica e belíssima.

Agora que conheço Wolfe de fato, seus livros estão seguramente na minha fila de aquisições futuras. Recomendo para qualquer amante de fantasia pouco usual e que se desvia dos clichès gastos e sem brilho da maioria de fantasia atuais.

Where am I?

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