The Wizard Knight

June 1st, 2009 § 0 comments

Como um leitor antigo de fantasia, o nome de Gene Wolfe sempre figurou na lista dos autores que eu queria ler quando mais jovem. Wolfe, hoje com setenta e oito anos, é considerado um dos melhores autores de fantasia de todos os tempos–inclusive por outros autores do gênero–e existe uma certa ironia do fato de que, até esse ano, eu ainda não conseguira ler nenhuma de suas obras. Eu me lembro de ter visto várias vezes um ou outro livro de suas multi-voluminosas e épicas obras na biblioteca pública que eu costumava usar mas, por uma razão ou outra, suas obras foram ficando para leituras mais tardias.

Fast-forward para duas décadas no futuro e, navegando pela Internet, encontro menções a uma obra mais recente de Wolfe, a duologia chamada The Wizard Knight. O que mais me chamou a atenção nos livros, além do fato de que eram mais rápidos e que eu poderia usá-los para começar a conhecer um pouco de Wolfe, foi a recomendação de Neil Gaiman na capa, que considerava a série “importante e maravilhosa”. Novamente, por ironias do momento, acabei não levando nenhum dos livros. Volta e meia eu via um dos volumes em uma livraria, mas deixava passar. Até, que em uma viagem recente aos EUA, passeando pela Borders, topei com os dois livros de uma só vez e comprei.

Dizer que o estilo de Wolfe é estranho é uma declaração que não expressa o quão diferente é o modo como ele escreve. Obviamente, sendo esses os primeiros livros de Wolfe que eu leio, não sei a que ponto o estilo se estende aos outros livros, mas, pelas resenhas que li, é algo mais ou menos constante em sua obra.

Em The Wizard Knight, Wolfe conta a estória de Able of High Heart, originalmente um adolescente americano que, ao escolher um caminho errado por uma floresta, é transportado a um reino mágico e transformado quase que instantaneamente em um homem adulto de proporções épicas. Able–que é o nome dado a ele por aqueles que o transformaram–torna-se um Cavaleiro e recebe a missão de trazer balanço ao mundo em que ele se vê lançado. Esse mundo, composto de sete camadas, cada uma deles visível da inferior como se fosse o seu próprio firmamento e tendo os habitantes da camada superior como deuses, é uma versão convoluta e espetacular de Faerie recriada por Wolfe para servir seus propósitos. Dragões, aelfs, reis, rainhas, cavaleiros, deuses e deusas, feiticeiros e magos, ogros e gigantes aparecem em igual medida na estória. No meio disso, se encontra também a estória de amor de Able por Disiri, uma rainha Aelf que ajudou em sua transformação por motivos que são vagamente vistos ao longo dos livros.

Contada largamente em primeira pessoa por Able, na forma de cartas, a narrativa é completamente duvidosa e inconstante. Able, que embora tornado adulto, é no fundo um adolescente, conta sua estória da maneira como ela lhe vêm na cabeça, misturando locais, tempos e fatos. Embora a narrativa seja na maioria do seu ponto de vista, algumas vezes Able narra fatos a que não teve acesso a não ser por terceiros e as pessoas e visões da estória se tornam ainda mais estranhas. Em alguns pontos, a própria construção das frases apresenta falhas como se Able estivesse tentando encontrar as palavras apropriadas e se distraísse, criando um efeito vívido e impressionante de estranheza. Mais curiosas ainda são as menções que ele faz de eventos que aconteceram ou vão acontecer, para simplesmente abadoná-los na narrativa–algumas vezes não sendo mais mencionados ou resolvidos em qualquer ponto do livro.

Essa forma de narrativa não tira, de forma alguma, o brilho de estilo de Wolfe. Pelo contrário, por ser tão diferente da norma, dá ao leitor uma sensação de frescor e vivacidade pouco encontradas em outras obras do gênero. Able, embora um narrador pouco confiável, traduz ao mesmo tempo a segurança de um cavaleiro experimentado e a incerteza adolescente de alguém que sabe que foi tirado de seu mundo e é um joguete de forcas maiores que sua própria compreensão. O resultado dessa mistura improvável é uma estória nostálgica e belíssima.

Agora que conheço Wolfe de fato, seus livros estão seguramente na minha fila de aquisições futuras. Recomendo para qualquer amante de fantasia pouco usual e que se desvia dos clichès gastos e sem brilho da maioria de fantasia atuais.

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