Joie de Vivre

June 4th, 2009 § 6 comments

Alguns anos atrás, trabalhei por alguns meses em uma empresa pequena–quatro funcionários na época–fazendo aplicações corporativas em PHP. Eu estava cansado de programar em ASP e queria espairecer um pouco em outras arenas.

Infelizmente, a alegria durou pouco. Por várias razões–falta de planejamento, dificuldade em conseguir recursos, falta de pessoal qualificado, etc–a empresa não vingou. Na época, meio do primeiro governo Lula, isso não era tão fora do comum mas faltou também uma pitada de sensatez de todo mundo para lidar com a situação. O meu tempo lá não foi de todo perdido. Rendeu boas estórias e duas amizades queridas que ainda preservo mesmo com a distância.

Por outro lado, foi a única vez em que pedi demissão em ira. Ira por planos que não chegavam a lugar nenhum. Ira por promessas não cumpridas. Ira por várias outras razões que na época pareciam bem válidas. Parti para outra, mas carregando aquele peso comigo de assunto não resolvido.

Demorou muito tempo para perceber que, na verdade, a minha ira não derivava dos problemas que eu percebia na empresa. Ao contrário, vinha de um sentimento de que faltava joie de vivre no ambiente de trabalho.

E joie de vivre –em uma tradução direta e meia-boca, alegria de viver–era algo que eu sentia mais falta no intercâmbio com meus pares de desenvolvimento do que em relação à própria empresa. Como em outras empresas que trabalhei desde então, a sensação de que os desenvolvedores ao meu lado não experimentavam isso era a parte mais terrível de qualquer situação. Eu, que sempre tive um pé no mundo livre, em projetos paralelos, conseguia derivar isso mesmo na ausência de outros fatores.

Não é de se estranhar, por exemplo, que o grande selling point do Rails tenha sido o fato de que ele devolvia ao programador a alegria de desenvolver. O Rails não se tornou um dos frameworks mais bem-sucedidos de todos os tempos por causa de suas proezas técnicas. Ruby mais Rails se tornaram um combinação imbatível em trazer joie de vivre aos desenvolvedores.

Não há nada que compre joie de vivre . É algo que só você pode conseguir e somente em certas circunstâncias. Não dá para construir nem criar, exceto por prover [condições apropriadas para que ele aconteça][1]. E como eu queria que outros pudessem experimentar isso também. Pena que quase nunca seja o caso nos ambientes que temos.

[1]: http://logbr.reflectivesurface.com/2009/04/22/a-pobreza-das-conexoes/

§ 6 Responses to Joie de Vivre"

  • PotHix says:

    Æ!!

    Realmente isso é muito bom cara!
    Quando se trabalha por que realmente se sente feliz trabalhando é outra história, e eu sempre estou em busca disso! Se estou trabalhando em um lugar onde o trabalho não está me satisfazendo eu simplesmente vou procurar outro onde esteja mais legal, onde trabalhar seja divertido e produtivo.

    Afinal…Programar não é apenas a minha profissão, é tambem o meu Hobbie! =)

    Há braços

  • Ronaldo says:

    Exato! Existem alguns colegas antigos meus que eu ainda vejo na mesma empresa e fico imaginando o que os leva a ficar lá quando há tantas oportunidades esperando.

  • TaQ says:

    O duro quando se fica tão “alegre” com as coisas que se perde um pouco a noção, tipo uma situação parecida em se divertir as pampas com um video-game e ficar viciado no bicho. Aí a gente fica alegre, mas meio “bobo-alegre”.
    Eu que o diga, que mesmo gostando as pampas do que faço, atingi um ponto de saturação. Nessa hora é bom meio que jogar as coisas pro alto e dar espaço para uma visão mais clara e, nesse ponto, sensata das coisas. Mas leva a pensar – se mesmo a gente que curte as coisas fica assim, imagina os que programam torcendo o nariz. :-p

  • Ronaldo says:

    Ah, com certeza. As coisas sempre tem que ter um balanço. Eu acho bem complicado quando o foco é tão forte em uma coisa que não deixa espaço para o resto da vida. Aí o joie de vivre perde até o sentido…

  • says:

    … eu espero sinceramente ser uma das duas! ;o)

  • Ronaldo says:

    Indeed you are, my friend. :)

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