Eu tenho um sonho…

June 25th, 2009 § 14 comments

Hoje foi um daqueles dias ótimos no trabalho. Apesar da chuva, o movimento não diminuiu e consegui vender nada mais, nada menos do que duzentos pratos de milho verde.

Eu gosto de dias de chuva, confesso. Por mais que seja inconveniente para o cliente–e sempre há a chance que eles desapareçam se as ruas ficarem alagadas e intransitáveis–eu sempre tive uma queda para a paisagem cinzenta e opaca dos dias frios e nublados dessa cidade.

E hoje, um dia que combinou chuva e boas vendas, merece uma comemoração extra.

Eu já estou nesse ponto há 20 anos. Não considero minha vida sofrida. Fico vendo aqueles executivos passarem apressados para cima e para baixo, homens e mulheres com aquele porte que indica poder, alheios ao mundo ao seu redor. Volta e meia, um deles sai mais tarde do trabalho, para aqui e comenta um pouco sobre o trabalho no escritório, sobre a pressão dos chefes, sobre as intrigas e políticas. Não quero isso para mim, é o que eu sempre penso.

Fiz faculdade também. Acabei nesse lugar por força do destino, mas não acho que tenha sido lesado pelos deuses ou algo assim. Consegui criar e sustentar uma família, meus filhos estão todos crescidos e bem. E eu, bem, eu continuo aqui. Nos momentos de pouco movimento, leio meus livros, me inteiro do mundo, converso com os clientes, fico sabendo de tudo: dores e amores, conquistas e perdas, beleza e feiúra expostas na cidade.

É impressionante como as coisas são. Um dias desses, um violonista famoso decidiu tocar aqui por perto. Um experimento. Seis peças de Bach por quarenta e cinco minutos. Perdi a conta de quantas pessoas passaram sem prestar atenção. Eu, embevecido, via o mundo andar ao redor, alheio ao som majestoso saindo daquelas cordas, e abanava minha cabeça. De que adianta essa vida toda corrida se você não tem tempo para parar por alguns minutos e contemplar o maior de todos os mestres?

Isso me lembra dos dias em que eu tenho alguns pesadelos estranhos. Há dias–raros, graças a Deus–em que eu acho que sou um programador em uma dessas firmas grandes, fábricas de software como meu filho costuma dizer quando conta do seu trabalho, e fico o dia todo em uma baia apertada, no meio do barulho, tentando fazer um trabalho que nunca acaba. Acordo suando frio.

Ainda bem que estou aqui, vendo a chuva cair, e me preparando para mais uma boa noite de sono. Amanhã tem mais. Se o sol sair, o dia pode ser melhor ainda para as vendas. Já tenho o livro preparado para os momentos preguiçosos. Só sinto falta mesmo da patroa. O resto está muito bem.


Agradecimentos ao TaQ e Manoel Netto pela inspiração.

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