Hoje foi um daqueles dias ótimos no trabalho. Apesar da chuva, o movimento não diminuiu e consegui vender nada mais, nada menos do que duzentos pratos de milho verde.
Eu gosto de dias de chuva, confesso. Por mais que seja inconveniente para o cliente–e sempre há a chance que eles desapareçam se as ruas ficarem alagadas e intransitáveis–eu sempre tive uma queda para a paisagem cinzenta e opaca dos dias frios e nublados dessa cidade.
E hoje, um dia que combinou chuva e boas vendas, merece uma comemoração extra.
Eu já estou nesse ponto há 20 anos. Não considero minha vida sofrida. Fico vendo aqueles executivos passarem apressados para cima e para baixo, homens e mulheres com aquele porte que indica poder, alheios ao mundo ao seu redor. Volta e meia, um deles sai mais tarde do trabalho, para aqui e comenta um pouco sobre o trabalho no escritório, sobre a pressão dos chefes, sobre as intrigas e políticas. Não quero isso para mim, é o que eu sempre penso.
Fiz faculdade também. Acabei nesse lugar por força do destino, mas não acho que tenha sido lesado pelos deuses ou algo assim. Consegui criar e sustentar uma família, meus filhos estão todos crescidos e bem. E eu, bem, eu continuo aqui. Nos momentos de pouco movimento, leio meus livros, me inteiro do mundo, converso com os clientes, fico sabendo de tudo: dores e amores, conquistas e perdas, beleza e feiúra expostas na cidade.
É impressionante como as coisas são. Um dias desses, um violonista famoso decidiu tocar aqui por perto. Um experimento. Seis peças de Bach por quarenta e cinco minutos. Perdi a conta de quantas pessoas passaram sem prestar atenção. Eu, embevecido, via o mundo andar ao redor, alheio ao som majestoso saindo daquelas cordas, e abanava minha cabeça. De que adianta essa vida toda corrida se você não tem tempo para parar por alguns minutos e contemplar o maior de todos os mestres?
Isso me lembra dos dias em que eu tenho alguns pesadelos estranhos. Há dias–raros, graças a Deus–em que eu acho que sou um programador em uma dessas firmas grandes, fábricas de software como meu filho costuma dizer quando conta do seu trabalho, e fico o dia todo em uma baia apertada, no meio do barulho, tentando fazer um trabalho que nunca acaba. Acordo suando frio.
Ainda bem que estou aqui, vendo a chuva cair, e me preparando para mais uma boa noite de sono. Amanhã tem mais. Se o sol sair, o dia pode ser melhor ainda para as vendas. Já tenho o livro preparado para os momentos preguiçosos. Só sinto falta mesmo da patroa. O resto está muito bem.
Agradecimentos ao TaQ e Manoel Netto pela inspiração.

olá, paz e bem!
inspirado post, caro Ronaldo. curti muito o estilo do SR.
ao contemplar as coisas mais simples e belas nos deparamos e percebemos a grandeza e a complexidade da experiência humana. coisas de um grande Pai!
também curto meus momentos… e ainda tenho alguns desafios a superar. ainda falta a facu mesmo com meus 40…
pessoas como você nos fazem seguir sempre em frente!
[]s livres,
Leo
Se tivesse escrito mais um parágrafo, eu ia chorar. Se escrevesse mais dois, eu ia largar tudo e vender sanduíche na praia
Obrigado pelo post.
Muito foda
Se eu puder inspirar outros contos como esse, basta me falar. Não sei bem se milho, mas livros você venderia bastante.
Abraço
Oi gatinho!
É mesmo uma pena que a vida seja tão complexa!
De fato, tudo é efêmero demais. Quão maravilhosa seria uma realidade onde todos pudessem ir ao encalço de seus próprios sonhos, sem que isso comprometesse o desfrutar das coisas que fazem verdadeira diferença!
De qualquer forma, vc sempre terá sua “patroa”, que todos os dias ansiosamente te espera … rsrsrs!
Parabéns pelo post!
Mil Beijos.
Sensacional! Belo texto!
Caramba velho, o que aconteceu!? Fiquei de boca aberta ao terminar de ler esse post!
Obrigado!!!
Emocionante, como o Elcio disse, se você escrevesse mais 1 paragrafo, eu choraria. De que adianta trabalhar, trabalhar e trabalhar? O por do sol está logo alí… e mal temos tempo de observa-lo.
Obrigado pelo post
Há dias em que eu paro 15min para refletir depois de uma boa leitura. Obrigado
Vira e mexe me pego pensando nisso. De que vale tudo que temos naturalmente se não prestamos atenção? De que vale o trabalho se ele finda-se em si mesmo?
Muito, muito bom o texto! Parabéns!
Ps.: Já pode começar a escrever livros que eu compro
Entendi perfeitamente a mensagem, sei bem como é…
[]s
Eu estava falando no Twitter que ia tentar vender cocos, mas aqui no interior acho que milho rende mais.
Muito bom!
Show de Bola esse texto. Velho você escreveu o sentimento que está em mim. Estou querendo muito ir vender prato de milho.
Está na hora já de lançar um livro em chefia.
Sacanagem! … Me deu vontade de vender milho … =/