Sobre jedis, ninjas e samurais

January 8th, 2011 § 14 comments

Geeks de todos os tipos adoram se colocarem como os equivalentes tecnológicos de alguma sociedade guerreira–real ou imaginada–que exiba uma quantidade excessiva de coolness no dia-a-dia. Eu não posso culpar ninguém que faz isso porque eu também já fiz a mesma coisa muitas vezes.

É claro, eu nunca gostei tanto de Star Wars. Sendo um fã de Star Trek, eu sempre considerei Star Wars como algo que você superava quando crescia–bom para crianças, mas não para muito além disso (por favor, sem ameaças de morte, estou brincando–bem, nem tanto assim). Star Wars é fantasia e Star Trek é ciência. Claro, os Jedi são muito mais legais e eu preferiria andar com um sabre de luz do que com um phaser mas me dê um torpedo quântico qualquer dia ao invés de qualquer arma do Império ou da República.

E há sempre os samurais–aquela velha escola, valorosa, sempre envolvida em negócios por conta de honra, muitas vezes sem qualquer esperança de sucesso. De Seven Samurai a The Last Samurai–e não dá para esquecer os livros do Eiji Yoshikawa–nós ocidentais sempre admiramos a forma como esses guerreiros japoneses se conduziam, considerando o seu Caminho do Guerreiro como algo a aspirar.

Finalmente, há também os ninjas ou shinobi. Não muito populares hoje em dia, mas houve um tempo em que eram a febre entre a população mais jovem. Como os samurais, a arte deles também era baseada em princípios de honra e dever–embora, no seu auge, eles fosse mais equivalentes a guerrilhas ou equipes Black Ops do que o modelo mais Special Forces dos samurais.

Mas uma coisa que todas ordens tem em comum é que elas eram bem monásticas, baseadas em códigos estritos sobre como proceder, treinamentos estritos ao longo dos anos e especialmente, disciplina–em muitos casos, com o peso da honra coibindo qualquer relação além da com os companheiros de armas.

Como geeks geralmente gostamos de nos comparar essas ordens porque elas são, bem, fascinantes, e sempre estavam fazendo coisas além no normal, com seus procedimentos arcanos para lidar com situações acima do que uma pessoa normal poderia encontrar.

Mas há algo que é sempre esquecido sobre essas ordens–como mencionado acima, elas eram primariamente e acima de tudo sobre disciplina; sobre um modo de vida ordenado que permitia com que a pessoa se concentrasse no que realmente importava. Tanto o treinamento histórico e real dos samurais e shinobi quanto o imaginado, inspirado pelos anteriores, dos Jedi exigia um compromisso com a disciplina que supera qualquer outra coisa que a pessoa precisaria fazer no curso de sua existência como membro dessas ordens. E, acima de tudo, requeria compromissos entre o possível e desejado e o necessário.

O que me traz ao meu ponto.

Nos últimos quatro ou cinco anos, eu fui parte de quase dez times diferentes. Já vi equipes sucederem a falharam, se recuperaram e continuarem, se unirem e se tornaram grandes, acabarem e seguir com suas vidas. Em resumo, fui parte de um número enorme de situações em que pude participar ou observar como times interagem e fazem as coisas acontecerem.

E em todos esses anos, uma das coisas mais importantes que separou os times ruins ou medianos dos grandes times foi a disciplina, que geralmente a parte mais desprezada nos exemplos que os fãs desses grupos tentam emular quando escolhem seus heróis.

É um tanto irônico que pessoas professem gostar tanto de metodologias ágeis porque estas criam ordem do caos através de times auto-gerenciáveis–times que não precisam de muita direção para fazer e acontecer, times que não precisam ser monitorados continuamente para garantir que estão indo na direção certa–esqueçam de que gerar ordem do caos exige disciplina.

A verdade é que agilidade em times só acontecem naqueles que são disciplinados e que entendem o que se ganha e o que se perde quando um projeto tem que ser cumprido. Sim, agilidade tem tudo a ver com encarar mudanças mas isso só significa que você tem que conseguir trabalhar muito bem com seus pares e com a organização como tudo–entendendo o que está mudando e quais são os meio-termos a serem alcançados–para realizar seus objetivos. Mudança sem contexto, sem disciplina, só gera caos. E isso é que muitos parecem esquecer quando se encantam com o Scrum e suas disciplinas irmãs.

Eu estava falando com um amigo outro dia e estávamos discutindo o fato de que muitos programadores usam a desculpa do ADD para procrastinarem ou para justificar distrações. Geeks, ele estava dizendo, são notórios pela sua baixa capacidade de atenção.

Eu acho–e disse para ele–que o contrário é o correto. Os verdadeiros geeks são disciplinados o suficiente para manter o seu foco e continuar no que estão fazendo a despeito das distrações. Você precisa ser muito focado se quer depurar aquele heisenbug que está mantendo você acordado nas últimas 40 horas, fazendo com que seu servidor capote a cada hora e meia. Você precisa de disciplina para continuar afundando na documentação, indo e voltando para encontrar aquela informação elusiva de permitirá que você otimize a sua rotina para que ela rode em massas de dados enormes. E você precisa de um senso forte de direção para participar de um time sem controle gerencial direto em um ambiente que está mudando continuamente.

Em resumo, disciplina é o que separa os diletantes dos artesãos. É que faz as coisas acontecerem e que realmente cria grandes times. Não quer dizer que você tenha que ser um mala sobre horários, procedimentos ou qualquer coisa assim. Não significa que você não possa se divertir ou que tenha que seguir passos ordenados toda vez que vai fazer alguma coisa. Mas significa que você tem que praticar e pensar e se focar até que isso se torna uma segunda natureza, até que você se torne um mestre no que está fazendo.

E isso é o que ninjas e samurais e Jedi fazem. Eles não param, não correm quando a proverbial situação fica preta. Eles–você sabe–simplesmente vão lá e fazem, e fazem bem.

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§ 14 Responses to Sobre jedis, ninjas e samurais"

  • Discurso muito bem elaborado. Você conseguiu, através de exemplos populares, descrever o seu ponto de vista referente à determinada situação do cotidiano do mundo do desenvolvimento de software. Parabéns!

  • diegorv says:

    Texto fantastico! Me fez pensar muito sobre o atual valor dado a disciplina atualmente! :)

    abraços!

  • Elderclei Reami says:

    Ótimo artigo, Ronaldo. Exigir disciplina é o que destaca os bons mestres do charlatanismo. É muito fácil dizer “Tudo bem, faça como queira” ou escrever procedimentos e apenas dizer “Siga-os, ou sofrerás as consequências”. Difícil é entender a responsabilidade do mestre e fazer com o aluno também a compreenda e absorva. Para ser Jedi ou Trekker, não basta o sabre de luz ou o phaser; assim como também, liberdade e liderança são conquistadas, não dadas.

  • Muito bom texto, aqui na agência temos uma teoria sobre programadores ninjas, quando o primeiro problema aparece eles jogam a bomba de fumaça e desaparecem sem deixar rastros.

    Grande Abraço

  • Ronaldo says:

    Bruno, Diego, obrigado!

    Elder, bão? Como vão as coisas? Sem dúvida quanto a liberdade e liderança. As pessoas tomam isso como sendo certo mas raramente praticam. É o conselho ao Homem-Aranha, toda hora citado e nunca seguido.

    Aguinelo, verdade, hehehe. Conheci vários assim.

  • Interessante essa correlação entre a área de desenvolvimento e a prática de disciplina, é interessante também notar que isso se estende pra várias outras áreas, uma delas que eu tenho trabalhado ultimamente é o corpo, comecei a me exercitar e estava bem magro, com cerca de dois meses me *alimentando bem* e praticando exercícios *diariamente* já obtive resultados espetaculares (7kg de músculo ganhos, 8kgs de gordura perdidos).

    Já na questão de desenvolvimento o time tem que estar focado e de uma maneira aberta para mudanças (o que pode vir a gerar a disciplina) uma questão que tive há algum tempo foi a qual um time precisava de um modelo de controle de versão que suportasse mais de uma versão sendo desenvolvida ao mesmo tempo, tive a idéia de mudar o time para o git e utilizar branches (utilizavam SVN) a maioria do time foi contra pois queria continuar utilizando SVN, mostrei as várias vantagens e consegui com que o chefe aprovasse esta mudança, implantei o sistema, passando algumas semanas com bugs e usuários que simplesmente olhavam pro lado quando acontecia um bug com o git desisti, disse que não ia mais trabalhar com o git e pedi que utilizassem o sistema que melhor funcionassem para eles, felizmente, ou não, pouco depois disso saí da empresa.

    Acho que me estendi um pouco mais do que deveria mas acho que a história serviu pra mostrar como exemplo do que pode acontecer quando não se tem entrosamento, disciplina e mente aberta na área de desenvolvimento. :)

    E você? Tem disciplina? Em quais áreas? No que isso já te ajudou?

  • Ronaldo says:

    Opa, Gobr! Bão?

    Comentário muito bom–especialmente na questão de peso, que, inclusive, é um ponto fraco para a maioria dos geeks–eu, incluso. Não ganho peso há vários anos, mas estou bem acima do que é o meu ideal e o sedentarismo está acabando com meus músculos. É uma área em que preciso exercer disciplina de maneira mais efetiva. :)

    Quanto a mim, eu sou um cara facilmente distraído. Eu escrevo e uma tendência do cérebro de escritores é divagar, devanear. Isso tende a me distrair até em algumas situações onde eu deveria estar bem atento porque alguma coisa me chamou a atenção para algo que eu poderia usar em um história ou porque me veio alguma solução de algum dilema.

    Sendo assim, hoje eu tendo a fazer as coisas em blocos, meio pomodoro-style mas sem o relógio.

    Para escrever, por exemplo, eu tenho um alvo diário de 300 palavras (uma página). Exceto em condições bem especiais, é algo que eu faço mesmo se estiver caindo de sono. Isso já me render milhares de palavras continuamente. Mesma coisa para pet projects. Tenho alguns objetivos diários: em alguns, um teste passando cada vez que eu me sentar. Em outros, uma funcionalidades e assim por diante. No trabalho, eu tento fazer as coisas em listas, ordenando por importância. E assim por diante–isso serve até para por o filho para dormir de noite.

    Como eu disse, não é sobre regras–é sobre esforço bem aplicado. :)

  • Fazia tempo que eu não passava por aqui :)

    No meu caso, o arquiinimigo da disciplina é exatamente o comodismo. Ler um texto como este em uma segunda-feira me faz pensar em mudanças do lado de cá durante a semana.

    Abraço!

  • Tássia says:

    Ronáldo, amei o post, e mais uma vez, você diz as palavras certas na hora certa. =*

  • Ronaldo says:

    Carlan, bem-vindo de volta. :) Fazia tempo que eu não escrevia também. Bom saber que ajudou. :)

    Tááássiaaa! Aí você me deixa encabulado. Você sabe que suas palavras contam muito. :)

  • Excelente texto Ronaldo!

    Disciplina é necessário sempre que você quer alcançar algo, o problema é que muitas vezes as pessoas nem sabem o que querem alcançar, e aí fica fácil falar que é culpa da ADD.

    Abraços!

  • Sérgio Lima says:

    Opa Ronaldo,

    “Mas significa que você tem que praticar e pensar e se focar até que isso se torna uma segunda natureza, até que você se torne um mestre no que está fazendo.”

    E isto não serve só para programadores, mas toda gente :-)

    Nada como ver o feed do Superfície Reflexiva voltar a ativa. Saudades da densidade dos seus textos!

    abs

  • […] Sobre jedis, ninjas e samurais – Ronaldo Melo Ferraz (Superfície Reflexiva); […]

  • Ronaldo says:

    Obrigado, Fabricio! Natureza humana sendo o que é, ADD é uma boa desculpa mesmo.

    Opa, Sérgio!

    Long time no see!

    Realmente se aplica a qualquer gente–é a mania do meu contexto eterno. :)

    Estou com outros posts na fila para liberar assim que me estabelecer em POA. Espero que goste também–você sempre me deixe encabulado depois dos textos, hehehe.

    Abraços!

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