Nowhere Man

April 9th, 2011 § 3 comments

Hoje é dia quinze, né? Pelo menos eu acho que é. Acho que esqueci de como o tempo passa aqui na rua.

Sabe, não é como se os dias fossem iguais uns aos outros, do jeito que é pra todo mundo. Sabe quando o cara trabalha de segunda a sexta, todo dia do mesmo jeito, chega no trabalho de manhã cedo, rezando pro chefe não perceber que ele chegou atrasado, come no almoço c’os compadres no mesmo horário, naqueles botequinhos legais na esquina da firma, vai embora na mesma hora, pra pegar o trem lotado, fazer baldeação na Luz, chegar em Tucuruvi com muito esforço?

Sábado e domingo, bem, sábado e domingo são mais ou menos a mesma coisa, eu acho. Sábado é churrasco c’os amigos ou passeio no shopping. Domingo, casa da sogra, ou casa da mãe. Pelo menos é o que acho que as pessoas fazem normalmente. Tem o Jão aí que diz que é assim, ele vai pra casa da irmã todo fim de semana e é isso o que ele diz que acontece. Eu nunca fui lá, claro, mas é isso que o Jão diz que acontece.

Aqui na rua, o tempo não passa direito. Todo dia é tão diferente, todo dia é tão cheio de coisa pra fazer, diferente, que você nem repara direito. De dia, de noite, parece tudo a mesma coisa. Muda um pouco, eu acho. Muda a hora que a polícia passa aqui, muda um pouco o tanto de gente que passa por tal e tal lugar, mas nem tanto assim, sabe. Você acaba dormindo onde consegue achar um lugar pra dormir, mas isso é até tranqüilo porque sempre dá pra achar um lugar escondidinho onde ninguém pertuba você.

Você se acostuma, sabe. Vira parte da paisagem, eu acho. Tem hora qu’eu olho no olho de alguém e a pessoa meio que dá aquele pulo como se um poste de repente tivesse criado vida e falado com ela. Mas eu não ligo, não. Depois de tanto tempo, até isso pára de importar. Você vira mesmo parte da cidade, um lugar nenhum, uma pessoa nenhuma. Dá pra viver.

§ 3 Responses to Nowhere Man"

  • Cleydson says:

    Ótimo texto, como sempre.
    Incrível, não tive como não comentar, pois, eu estava a poucos dias pensando sobre este assunto e cheguei a comentar com um amigo. Tenho mania de me colocar no lugar das pessoas(muitos fazem isso) e tenho reparado muito nos moradores de rua. Mas não é fácil sintetizar os devaneios. Você fez isso de maneira primorosa. Mas não entenda devaneios de maneira pejorativa, por favor.
    Parabéns e obrigado pelos posts.

  • Luiz Alan says:

    Seu texto simplesmente é íncrivel, traduziu de forma simples a rotina, a vida dessas pessoas. Lembro de uma ocasião que ocorria tempos atras, de quando eu ia trabalhar todo dia cedo e com aquela disposição que só a manhã oferece {irônia mode on}, e no meio do caminho do trajeto do onibus, tinha um senhor que era morador de rua, e toda vez que eu passava por lá ele estava tomando o seu café, passando manteiga no pão de forma vagarosa e tranquila. Isso lógico que chamava a minha atenção, e de certa forma me comovia, mas no fim do dia eu nunca deiaxava de reclamar do meu trabalho ou de como odeio acordar cedo … é … é isso …

  • Ronaldo says:

    Obrigado! Esse texto em particular é baseado em uma foto de um amigo. Eu fiz uma série sobre essas fotos e eventualmente elas aparecerão por aqui.

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