Windows (many lives)

June 7th, 2012 § 4 comments § permalink

Eu sempre tive essa fascinação com prédios velhos, cujas cores apagadas pelo tempo e descaso escondem histórias. No cair da noite, quando o mundo parece desbotado por um breve período de tempo, quando a própria realidade oscila entre o possível e o estático, esses velhos edíficios parecem conter todas as verdades.

Eu passo e olho para um casal já no fim da meia-idade, falando baixo enquanto cumprimentam o porteiro, subindo os degraus rumo ao saguão e aos elevadores. Naquele breve momento, eu queria ser o mundo, escutar todas as pequenas histórias, todas as conquistas insignificantes, todas as derrotas que só fazem sentido para duas pessoas—todos esses pedaços desgarrados de incontáveis instantes.

Ah, eu sei. Entenda, eu tenho inveja da onisciência divina. Eu me sento aqui e olho para o mundo e eu não queria somente viver a minha própria vida. Eu não queria somente experimentar a minha própria dor porque, sabendo somente dela, não sou capaz de entendê-la.

O que dizem os oráculos? Eu não sei, mas cada janela é um derramar de narrativas, todas com seus próprios significados, uma tessitura impenetrável da qual somos capazes de ver somente uma ou outra linha quando ela nos toca depois de incontáveis batidas das asas de uma borboleta.

Eu queria ser o mundo.

Where am I?

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