Fome

August 28th, 2012 § 1 comment § permalink

Você sai. Não por escolha. Mas sai.

E você chora, e come, e arrota, e se move, e cai, e olha, e caga, e dorme, e sente fome, e peida, e sorri, e toca, e pega, e rola, e se firma sobre seus pés, e balbucia, e gargalha, e continua indo porque você não entende.

Você simplesmente não decide.

E você vê, e joga, e faz amigos, e fala, e come, e pede. E você caminha, e corre, e demanda, e cai, e chora, e sonha, e você abre a sua boca porque alguém mandou que você abrisse, e remédios são péssimos, mas você faz porque você não consegue fazer por si próprio e, na maioria das vezes, você simplesmente tem que tolerar o que lhe mandam fazer.

Você simplesmente não decide.

E você aprende—que o mundo é maior do que você imaginou e que há mais para saber do que você simplesmente tem condições de descobrir. E você corre porque o vento na sua face e a chuva em sua pele são as melhores coisas do mundo inteiro. E você chora porque subiu em um muro que você não achou que era tão alto quanto realmente era e caiu. E você sorri mais uma vez, porque ela sorriu de volta para você e isso lhe fez se sentir de uma maneira que você não entende de verdade mas que parece ter algo de certo mesmo assim. E você deixa comida em seu prato porque está satisfeito o bastante e, pela primeira vez que você entende isso, você chora, porque alguém disse que isso era algo que você não deveria fazer. E você gargalha, porque algumas vezes, você e somente você, pode decidir qual sobremesa você vai ter.

Você simplesmente decide.

E você aprende—dessa vez, que o mundo não é tão grande quanto você imaginava e que todo o conhecimento que você precisa, você já tem; ninguém mais precisa lhe ensinar nada. E você luta e se arranha porque parecia ser importante naquele momento mas vocês trocam um aperto de mão depois porque isso importa mais ainda e vocês serão amigos por tudo o que há de vir. E você olha para ela e evita seus olhos porque, por alguma razão que não entende, você não se sente mais confortável perto dela; e você chora, mas escondido dos outros porque chorar não é algo que você faz, e você se gaba, e você grita, e você toca a si mesmo e, surpreso, descobre que o seu corpo pode fazer coisas que você jamais imaginou possíveis. E você ri em voz alta olhando pela janela de um avião porque o sol se pondo nas nuvens é algo que você jamais vai esquecer e ter escolhido estar ali, naquele momento, foi a melhor coisa que você já fez.

Você simplesmente decide.

E você aprende—dessa vez, que, sim, o mundo é grande, e que a vida não é tão fácil quanto você imaginava e que também ela não é justa. E você corre, descendo pela estrada a cento e quarenta quilômetros por hora no topo de sua moto porque isso é liberdade como ninguém jamais experimentou; e você se descobre de repente com alguém gritando com você porque você esqueceu algo que achou que não era importante mas que, você descobre depois, teria poupado bastante dinheiro para alguém, em algum lugar. E você tenta por si próprio, porque, no final das contas, fazer isso não parece ser tão difícil e você tem sucesso e cresce e deixa tudo para trás porque, no final das contas, a única coisa que realmente importava era você mesmo. E você gargalha com ela pelo puro prazer dessa coisa magnífica que vocês fizeram juntos e, subitamente, você percebe que a imortalidade tem gosto de talco.

Você simplesmente decide.

E você aprende—dessa vez, que o mundo pode ser grande mas que o que realmente importa são as partes dele que você aprendeu a conhecer e amar, e que, por mais longe que você esteja de casa, sempre haverá algo a que se apegar e lembrar. E você chora porque acha que não pode continuar sozinho mas você continua porque isso é o que você decidiu. E você ri novamente porque raios podem cair—e realmente caem—duas vezes no mesmo lugar. E você pula e sente o vento passando forte ao seu redor e o mundo nunca pareceu tão grande e cheio de vida. E você capota e não sai ileso mas as cicatrizes fazem você entender que o finito é tão importante quanto tudo mais, e você continua indo porque, no fim, essa é a vida que você queria e que fez para si mesmo. Você não aceitaria outra coisa.

Você simplesmente decide.

E você aprende—dessa vez, que o mundo não era tão importante assim e que a maior coisa que já andou sobre sua superfície foi sua própria forma orgulhosa e você não se enfurece porque você já fez sua paz consigo mesmo. E você olha para trás e sorri para tudo que foi e beija as mãos frias dela e chora por um momento porque você queria ir primeiro—mas, ao mesmo tempo, você percebe que se alguém tinha que sofrer um pouco mais, melhor que fosse você. E você olha para a frente, sorrindo pelo que deixa no mundo. E você continua indo, até que seu corpo não consegue mais ir.

E você sai. Não por escolha. Mas sai.

Where am I?

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