Deslumbramento

September 27th, 2012 § 4 comments

Ele não sabe o que quer fazer da vida—já passou dos trinta e ainda não se decidiu. E—quer saber?—isso não importa porque o que realmente vale a pena é que se ele persistir em olhar o mundo através de olhos diferentes, haverá um momento em que a própria existência se reafirmará e tudo começará a fazer sentido.

Ou antes, ele sabe o que quer fazer da vida. Acontece que o que ele quer não é o que os outros querem, não é o que faz sentido para todos. O que os outros esperam não é o que deixa suas veias em brasa e seus olhos em fogo. Ele está confuso mas isso também é passageiro, como todas as outras coisas. Ele chegou até aqui e isso significa que ele nunca mais se quedará perdido—a sua própria ausência de concessões o tornou invulnerável para o canto da sereia que lhe tenta afastar de tudo o que há mais sagrado no mundo. Olhos de criança, olhos de vidente, ele olha para um mundo que não consegue lhe olhar nos olhos.

Isso foi o que ele tentou explicar para os outros, há muito tempo. Hoje, ele não tenta mais. Não porque desistiu, mas porque não vale a pena. Como alguém poderia entender o deslumbramento que há no puro ato de criação sem qualquer transigência exceto aquela que ele carrega consigo mesmo? Como seria vagamente possível que alguém percebesse que esse ato é nascido da necessidade e da dor, mas que a necessidade é tão doce quanto a liberdade e que a dor não é mais do que a vontade de expor ao universo a sua alma e perceber que ninguém conseguirá ver os mesmos caminhos que ele vê?

Mas, se ele não tenta mais isso não quer dizer que ele parou. Isso não seria possível. O seu próprio deslumbramento exige que ele codifique a si mesmo em uma exibição própria diante do olhar minucioso do mundo. Essa é a sua dor exposta novamente—e, se não pode ser lida, pode pelo menos ser intuída e essa intuição incomoda tanto que a única reposta aberta do mundo é devolver uma falta de decisão, multiplicada e suja por uma perene incompreensão.

Mas ele não se importa. Um jardim de caminhos bifurcados se abre diante dele, um livro de mudanças no qual ele pode escolher dentre todas as infinitas chances aquelas que se traduzem em um futuro desimpedido da banalidade das decisões do outros. Atrás de cada árvore, nesse jardim, se escondem deslumbramentos ainda maiores.

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