Luzes, tarde da noite

October 15th, 2012 § 2 comments

São Paulo é uma cidade que luta contra si mesma. Há uma permanente dualidade em suas ruas e avenidas que aflora sempre que se olha para ela de um ângulo diferente.

Talvez a maior expressão dessa dualidade esteja na sua beleza à noite. Ninguém jamais disse ter se apaixonado por São Paulo durante o dia—mas suas noites, suas noites são encantadores como as de qualquer cidade européia, cheias dessa antiguidade serena que toma conta da alma antes que se perceba.

Os dias em São Paulo são sempre iguais. O cinza onipresente de um céu enojado com seu próprio conteúdo delineia-se em camadas que se refletem nos prédios de vidro, banhando a cidade com um ar de morbidez. Olhos irritados pelo ar seco vêem a cidade indistinta por trás de lágrimas. Durante o dia, mesmo o verde lançado em grandes pinceladas pela cidade parece constrito—vistas à distância, essas fiadas formam ilhas sitiadas no meio das cores fuliginosas que afligem São Paulo.

Ainda assim, quando o crepúsculo começa a colorir o horizonte de vermelho, acompanhando a chegada das primeiras estrelas que, resistentes, desafiam o firmamento poluído, quando o sol desce enorme para o oeste, correndo em direção ao rubro que se revela por trás das silhuetas dos prédios e esses começam a trocar as luzes refletidas por sua própria iluminação—, a cidade se transforma.

São Paulo à noite é bela, única a cada novo cair do sol, cheia de flamejantes torres que pontuam o alto da cidade, repleta de prédios iluminados que montam padrões abstrados em suas ruas, cruzada por avenidas profusas de uma luminosidade amarelada onde mesmo os túneis parece conduzir a lugares secretos no labirintino corpo da cidade—locais, que se encontrados, produzem uma segunda cidade, uma São Paulo para as almas que a desejam, que a atravessam somente quando dormem quase todos que estão sob seus cuidados. A cidade se rende à sua própria luz, descortinando infinitas histórias em suas veias incandescentes.

E quando chega a madrugada, a cidade transcende. As avenidas se quedam silenciosas entre bolsões brilhantes de atividade e—como no mais claro dos dias—você pode olhar para o horizonte e ver a cidade se estender rumo a um infinito próprio, um infinito contido em fronteiras parcamente definidas.

Até que o sol começa a colorir o leste mais um vez com um novo rubor, mais suave, prenunciando um novo momento de transformação. Nesse últimos momentos, a cidade resplandence, frenética, como se quisesse se apegar aos seus últimos minutos de vida noturna.

Aqueles que se importam, se despedem dessa outra cidade nesse momento, esperando, como sempre, pela próxima noite.

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