De Amapá a Porto Alegre

October 26th, 2012 § 1 comment

Nos primeiros dias em que cheguei em Porto Alegre, eu estava fazendo amplo uso dos serviços de táxi da cidade para me locomover–comparados com São Paulo, as tarifas são muito decentes e eu aproveitei para conhecer mais a cidade. Conseqüentemente, acabei conversando com uma boa quantidade de taxistas e conhecendo muitas histórias de vida no mínimo curiosas.

Uma delas, que me deixou particularmente impressionado, foi a de um porto-alegrense que agora está de volta à cidade depois de mais de três décadas fora.

Nascido e criado em Porto Alegre, esse taxista–cujo nome infelizmente nem lembrei de pegar, envolvido na conversa–deixou a cidade exatamente no ano em que eu nasci, partindo para o norte do Brasil em busca de fazer dinheiro para estabelecer uma vida.

Acabou parando no Amapá, no garimpo, onde ficou por mais de dez anos. Como toda corrida em Porto Alegre é relativamente curta, dado o tamanho da cidade, ele só teve tempo de traçar linhas rápidas sobre seus tempos lá, que não foram muito bons pelo que pude sentir em sua voz. Muito sofrimento, muita luta para conseguir um punhado de dinheiro para poder voltar. A impressão foi que ele quase ficou preso lá, tendo sorte em conseguir sair antes que fosse tarde demais. Quando os filho nasceram, ele decidiu que não queria criá-los no norte, juntou o que tinha e foi para a Bahia, tentar a vida em uma cidade pequena.

– Depois de dez anos — ele disse — eu ainda não tinha pego malária nenhuma vez. Achei que era a mão de Deus me dizendo para sair.

Depois de uma curta temporada na Bahia, menos do que um ano, voltou para Porto Alegre. Os filhos já estavam ficando grandes e ele queria ficar perto da família. E queria também realizar um sonho antigo: fazer faculdade e virar professor.

Quando chegou a época do filho mais velho fazer vestibular, ele foi fazer também. Apoio moral de um lado, desafio do outro–o filho teve que correr atrás do coroa para conseguir entrar também. Ele queria Pedagogia para si mesmo; deixou ao filho a decisão de escolher seu próprio caminho que, no final das contas, acabou sendo o quente mercado de computação.

Passou e conseguiu uma bolsa para os estudos.

– Não dá não — continuou. — Com o preço das faculdades atualmente, e a vida de taxista, só uma bolsa para dar conta mesmo.

Infelizmente, Pedagogia não formou turma para a bolsa naquele ano. Tentou Letras, mas não formou turma também. Sem desistir, foi para Educação Física. Ele gargalha:

– Os guris acham graça do coroa correndo com eles no pátio, mas eu não dou mole não. Consigo acompanhar sem problemas.

Agora já está no segundo ano. Mais um e ele começa a lecionar. Não sabe ainda o que vai fazer com o táxi–talvez alugar–mas já sabe com o que vai trabalhar.

– Crianças especiais. Comecei um trabalho esse ano e pretendo continuar. Aliás, logo depois de formar já tenho uma pós-graduação engatilhada no assunto. Meu tema vai ser como inserir crianças especiais em um contexto normal. Nada mal, não é?

Nada mal mesmo para um ex-garimpeiro que vem perseguindo seu sonho há mais tempo do que eu estou vivo. E eu fico pensando em todas as coisas que eu ainda não fiz, em todos os sonhos que deixei pelo meio do caminho. Sempre há tempo.

§ One Response to De Amapá a Porto Alegre

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

What's this?

You are currently reading De Amapá a Porto Alegre at Superfície Reflexiva.

meta