2078

January 26th, 2010 § 7 comments § permalink

Hoje é 13 de junho de 2078. Quase esqueci do dia em particular, mas já se vão cem anos desde que meu avô paterno nasceu. Faz um certo tempo desde que ele morreu e ainda eu sinto muita saudade dele. Sempre vou sentir.

Meu avô paterno era um otimista tecnológico nato. Para alguém que considerava ficção científica seu gênero favorito de leitura isso não é de se espantar. Ele ainda viveu para ver muitos dos sonhos da ficção científica realizado e tenho certeza de que teria adorado as mudanças que ainda estão acontecendo.

Meu avô não era um cara que gostava de ficar contando histórias sobre o passado sentado com os netos. Ele gostava de contar histórias sobre o futuro, sobre o que já existia e sobre o que aquilo poderia virar. Eu me lembro de ficar horas sentado no chão da sala enquanto ele falava sobre autores e mais autores, séries e filmes de ficção e como aquilo que esperamos é ao mesmo tempo tão pouco e tão excessivo.

Um das coisas em que meu avô não acreditava era na Singularidade Tecnológica–o momento em que a tecnologia se expandiria além do que a humanidade como um todo fosse capaz de entender e manipular. Não porque era um homem religioso–ele era–mas porque acreditava que alguma coisa aconteceria antes que permitiria ao próprio homem o controle próprio da tecnologia em qualquer escala necessária. Em outras palavras, a tecnologia cresceria junto com a próprio humanidade. Até o momento, isso é o que parece estar acontecendo. Eu ainda não me decidi sobre a Singularidade, mas gosto da visão do meu avô.

Se ele estivesse aqui, ele provavelmente entenderia a maioria da tecnologia que é usada no dia-a-dia, mesmo que o uso pleno do que vem natualmente para nós lhe escapasse. Tecnologia, afinal de contas, é uma habilidade adquirida e cada geração enfrenta seus problemas de adaptação. Não duvido nada que um filho ou um neto poderão escrever a mesma coisa de mim um dia.

É claro que toda tecnologia tem seu preço e isso continua válido. Ainda estamos bem longe de uma solução para o clima, por exemplo, mesmo com toda a parafernália de seqüestro de carbono que já foi desenvolvida. As tempestades e disfunções climáticas ainda estão piorando e eu fico pensando nas obras de Kim Stanley Robinson e Peter Hamilton. De onde estamos hoje para a corrente do Golfo parar ou algo com as tempestades armada se tornarem reais não é uma distância muito grande. Acho que vamos conseguir escapar do pior, mas vai ser pouco.

Por outro lado, com ambientes consensuais de trabalho, dois grandes problemas já se foram e seus resultados já estão se fazendo notar. O trânsito agora existe quase que exclusivamente por conta de lazer e de mão de obra que precisa de local. Mas o efeito de bilhões de pessoas que não precisam mais ir para o trabalho todo o dia pode dobrar alguns balanços em nosso favor. Depois que provaram que P=NP, não foi muito difícil desenvolver um sistema automatizado emergente para cuidar de tudo. A mesma coisa para a quantidade enorme de prédios que existiam somente para servirem de um ponto comum de trabalho. Seria difícil para a maioria das pessoas nascidas há cem anos atrás imaginar isso, é claro.

Se meu avô estivesse aqui, talvez a mudança que mais lhe teria interessado seria convergência final de dispositivos. Ele não viveu para ver o fim do celular, televisão, rádio, computadores, notebooks, tablets, coisas que eram tão comuns quando ele estava no auge de sua carreira mas provavelmente teria se sentido relativamente confortável com um implante inscape e com os primeiros protótipos de HUDs. Tudo sobre o que um de seus autores favoritos, Charles Stross, falava e escrevia nos idos dos anos 20.

É, eu sinto falta de meu avô. Gostaria que ele estivesse aqui para compartilhar as próximas grandes mudanças. Mas não importa: eu sei que a imaginação foi suficiente. Espero que a minha seja também.

End of Year Blues

January 21st, 2010 § 2 comments § permalink

O céu está daquela cor outra vez. Cor de céu de fim de ano, um vermelho pálido como a cor das coisas que se vão. E não é de se admirar: dez anos já, dez anos desde o início de um milênio que prometia muito mas só trouxe mais do mesmo.

Você vê: neste ano, perdemos pouco mais perdemos o suficiente para enxergar que não há tanta coisa assim à nossa frente. Meu Deus, Brittany Murphy morreu domingo passado. Ela só tinha trinta dois anos–eu tenho trinta e um. E morreu também Michael Jackson. Eu não gostava de sua música. Eu tinha, sim, pena de sua conturbada e desperdiçada vida. Tão desperdiçada que seus olhos contavam, cantavam toda uma não-história para quem quisesse escutar. E nós o considerávamos imortal, mesmo assim.

Mas é fim de ano outra vez. Fim de um ano de muito pouco para lembrar além do massacrante mover dos nefastos mecanismos do dia-a-dia. Zeus do alto do Olimpo olhando para os pobres mortais, seus irmãos sorrindo diante do plano que traçaram para aqueles que nada conhecem. Maldito sejam os deuses.

E, sim, é fim de ano mais uma vez. Que finde em paz. Em jazz e em blues. Notas em uma guitarra fosca, quase desafinada. Blind Lemon Jefferson cantando “Backwater rising”, an end of year blues.

Where Am I?

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