Sobre jedis, ninjas e samurais

January 8th, 2011 § 14 comments § permalink

Geeks de todos os tipos adoram se colocarem como os equivalentes tecnológicos de alguma sociedade guerreira–real ou imaginada–que exiba uma quantidade excessiva de coolness no dia-a-dia. Eu não posso culpar ninguém que faz isso porque eu também já fiz a mesma coisa muitas vezes.

É claro, eu nunca gostei tanto de Star Wars. Sendo um fã de Star Trek, eu sempre considerei Star Wars como algo que você superava quando crescia–bom para crianças, mas não para muito além disso (por favor, sem ameaças de morte, estou brincando–bem, nem tanto assim). Star Wars é fantasia e Star Trek é ciência. Claro, os Jedi são muito mais legais e eu preferiria andar com um sabre de luz do que com um phaser mas me dê um torpedo quântico qualquer dia ao invés de qualquer arma do Império ou da República.

E há sempre os samurais–aquela velha escola, valorosa, sempre envolvida em negócios por conta de honra, muitas vezes sem qualquer esperança de sucesso. De Seven Samurai a The Last Samurai–e não dá para esquecer os livros do Eiji Yoshikawa–nós ocidentais sempre admiramos a forma como esses guerreiros japoneses se conduziam, considerando o seu Caminho do Guerreiro como algo a aspirar.

Finalmente, há também os ninjas ou shinobi. Não muito populares hoje em dia, mas houve um tempo em que eram a febre entre a população mais jovem. Como os samurais, a arte deles também era baseada em princípios de honra e dever–embora, no seu auge, eles fosse mais equivalentes a guerrilhas ou equipes Black Ops do que o modelo mais Special Forces dos samurais.

Mas uma coisa que todas ordens tem em comum é que elas eram bem monásticas, baseadas em códigos estritos sobre como proceder, treinamentos estritos ao longo dos anos e especialmente, disciplina–em muitos casos, com o peso da honra coibindo qualquer relação além da com os companheiros de armas.

Como geeks geralmente gostamos de nos comparar essas ordens porque elas são, bem, fascinantes, e sempre estavam fazendo coisas além no normal, com seus procedimentos arcanos para lidar com situações acima do que uma pessoa normal poderia encontrar.

Mas há algo que é sempre esquecido sobre essas ordens–como mencionado acima, elas eram primariamente e acima de tudo sobre disciplina; sobre um modo de vida ordenado que permitia com que a pessoa se concentrasse no que realmente importava. Tanto o treinamento histórico e real dos samurais e shinobi quanto o imaginado, inspirado pelos anteriores, dos Jedi exigia um compromisso com a disciplina que supera qualquer outra coisa que a pessoa precisaria fazer no curso de sua existência como membro dessas ordens. E, acima de tudo, requeria compromissos entre o possível e desejado e o necessário.

O que me traz ao meu ponto.

Nos últimos quatro ou cinco anos, eu fui parte de quase dez times diferentes. Já vi equipes sucederem a falharam, se recuperaram e continuarem, se unirem e se tornaram grandes, acabarem e seguir com suas vidas. Em resumo, fui parte de um número enorme de situações em que pude participar ou observar como times interagem e fazem as coisas acontecerem.

E em todos esses anos, uma das coisas mais importantes que separou os times ruins ou medianos dos grandes times foi a disciplina, que geralmente a parte mais desprezada nos exemplos que os fãs desses grupos tentam emular quando escolhem seus heróis.

É um tanto irônico que pessoas professem gostar tanto de metodologias ágeis porque estas criam ordem do caos através de times auto-gerenciáveis–times que não precisam de muita direção para fazer e acontecer, times que não precisam ser monitorados continuamente para garantir que estão indo na direção certa–esqueçam de que gerar ordem do caos exige disciplina.

A verdade é que agilidade em times só acontecem naqueles que são disciplinados e que entendem o que se ganha e o que se perde quando um projeto tem que ser cumprido. Sim, agilidade tem tudo a ver com encarar mudanças mas isso só significa que você tem que conseguir trabalhar muito bem com seus pares e com a organização como tudo–entendendo o que está mudando e quais são os meio-termos a serem alcançados–para realizar seus objetivos. Mudança sem contexto, sem disciplina, só gera caos. E isso é que muitos parecem esquecer quando se encantam com o Scrum e suas disciplinas irmãs.

Eu estava falando com um amigo outro dia e estávamos discutindo o fato de que muitos programadores usam a desculpa do ADD para procrastinarem ou para justificar distrações. Geeks, ele estava dizendo, são notórios pela sua baixa capacidade de atenção.

Eu acho–e disse para ele–que o contrário é o correto. Os verdadeiros geeks são disciplinados o suficiente para manter o seu foco e continuar no que estão fazendo a despeito das distrações. Você precisa ser muito focado se quer depurar aquele heisenbug que está mantendo você acordado nas últimas 40 horas, fazendo com que seu servidor capote a cada hora e meia. Você precisa de disciplina para continuar afundando na documentação, indo e voltando para encontrar aquela informação elusiva de permitirá que você otimize a sua rotina para que ela rode em massas de dados enormes. E você precisa de um senso forte de direção para participar de um time sem controle gerencial direto em um ambiente que está mudando continuamente.

Em resumo, disciplina é o que separa os diletantes dos artesãos. É que faz as coisas acontecerem e que realmente cria grandes times. Não quer dizer que você tenha que ser um mala sobre horários, procedimentos ou qualquer coisa assim. Não significa que você não possa se divertir ou que tenha que seguir passos ordenados toda vez que vai fazer alguma coisa. Mas significa que você tem que praticar e pensar e se focar até que isso se torna uma segunda natureza, até que você se torne um mestre no que está fazendo.

E isso é o que ninjas e samurais e Jedi fazem. Eles não param, não correm quando a proverbial situação fica preta. Eles–você sabe–simplesmente vão lá e fazem, e fazem bem.

Fazendo aquilo com o Groupon

January 2nd, 2011 § 6 comments § permalink

Há uma grande discussão acontecendo agora sobre o modelo de negócios do Groupon. Depois que a empresa recusou a oferta de aquisição do Google, a pergunta que todo mundo está se fazendo é se os donos o Groupon são insanos ou brilhantes, tão confiantes no seu modelo de negócios e na habilidade do mesmo de ir além de qualquer oferta que o Google possa fazer–e isso depois da oferta ter sido dobrada duas vezes.

John Battelle é um dos que pensam que o Groupon fez a escolha certa. Ele escreve:

Good sources have told me that Groupon is growing at 50 percent a month, with a revenue run rate of nearly $2 billion a year (based on last month’s revenues). By next month, that run rate may well hit $2.7 billion. The month after that, should the growth continue, the run rate would clear $4 billion.

Battelle atribui isso a uma combinação de fatores: relacionamentos, localização e timing–veja o artigo para uma explicação maisprofundo do que torna o Groupon quase que irresistível para pequenos negócios. E como ele nota em seu artigo, a run-rate demonstrada até agora pelo Groupon é o triplo do que o próprio Google experimentou em seus anos iniciais.

Eu estava conversando com um amigo outro dia sobre compras coletivas e ele disse que o maior problema que afetaria e eventualmente mataria o modelo de negócios dessas empresas seria o churn, isto é, o fato de que muitas dessas ofertas estão criando problemas para os pequenos negócios usando a plataforma. De fato, há dezenas de histórias sobre pessoas sendo maltratadas porque chegaram com um cupom do Groupon ou equivalente local e o negócio em questão já estava irritado por estar perdendo dinheiro com esses clientes. Eu escutei várias dessas histórias em primeira mão e em muitos casos, os donos tinham calculado incorretamente o que podiam ou deveria oferecer e ficaram descontendes com a experiência com um todo, consequentemente se tornando menos e menos interessados em trabalhar novamente com compra coletiva.

Eu acredito que o churn que estamos vendo é somente uma conseqüência da forma como novos mercados funcionam. Se o Battelle está correto–e eu acredito que sim–o churn se tornará cada vez menor à medida que os negócios encontrem seus sweet spots no ecossistema. Eu não vejo porque, por exemplo, o Groupon não possa oferecer uma ferramenta que permita que os negócios entrem com alguns parâmetros e depois deduza o preço relativamente ideal para uma certa oferta. De fato, isso nunca vai ser exatamente precisa mas dará aos negócios usando a plataforma uma maneira de evitar os problemas mais extremos.

Em última instância, porém, eu acredito que o Groupon será bem sucedido porque está mudando a forma como as pessoas se relacionam com os negócios locais. Recentemente, falando com dois outros amigos, eles me contaram como os clones locais estão tendo um impacto em seus padrões de compra.

Um deles, divorciado, nos seus quarenta, disse que não janta fora mais a menos que tenha um cupom. Esses cupons o estão ajudando a aumentar o price point dos seus gastos e, consequentemente, melhorar os locais que ele pode freqüentar. Com a ajuda dos cupons, ele está indo para locais mais caros mais vezes por semana. Essa é uma mudança grande que está beneficiando o meu amigo e os pontos que ele gosta. Como os negócios estão se tornando mais cuidados e aumentando os gastos colaterais, como bebidas e outros–algo perfeitamente aceitável–isso faz com que o resultado seja proveitoso para todos envolvidos.

O outro amigo, com seus trinta anos, disse que que compras coletivas estavam na verdade ajudando que ele transasse mais. Ele é solteiro e está usando uma variedade de cupons–restaurantes, spas, roupas, pequenos itens–para impressionar e interessar mulheres. Ele ainda está usando uma quantidade considerável de dinheiro mas o Groupon e seus similares estão fazendo com que ele gaste esse dinheiro de forma mais eficiente em direção ao seu objetivo–que, sejamos sinceros, incluem no momento transar tantas vezes quanto possível no menor período de tempo. E é quase auto-evidente pela forma que mercados funcionam que qualquer coisa que ajude pessoas a conseguirem mais sexo–ou encontram qualquer medida de satisfação sexual–está em condições muito melhores de ser bem sucedido.

E aqui você tem o resumo final: pessoas estão fazendo mais sexo com o Groupon. E isso torna a sua posição mais forte ainda. Battelle está correto–do ponto de vista dos pequenos negócios–e meu amigo também está correto–do ponto de visto do consumido.

E dos dois modos, o Groupon vence.

A pobreza das conexões

April 22nd, 2009 § 17 comments § permalink

Quando eu li Peopleware pela primeira vez, um dos tópicos que mais me chamou a atenção foi o conceito de flow. Esse conceito, advindo em grande parte do trabalho do psicólogo húngaro Mihály Csíkszentmihályi, descreve o estado em que uma pessoa está inteiramente comprometida com a realidade da execução de uma tarefa, seja qual ela for. Flow, em outras palavras, é a imersão completa em uma atividade ao ponto em que a pessoa chega a perder a consciência de que está fazendo algo até que o trabalho esteja completo–ou o estado seja interrompido.

No contexto de Peopleware–e, de fato, do campo da computação/programação em si–flow é algo bem conhecido. Programadores rotineiramente experimentam isso como parte do seu dia-a-dia. Existem argumentos de que não há como existir trabalho produtivo sem flow e livros inteiros dedicados ao tópico de redução de interrupções no ambiente de trabalho para aumentar o tempo em que programadores passam nesse estado. Obviamente, o trabalho de Csíkszentmihályi se aplica a qualquer campo em que criatividade e expressividade sejam parte da equação e existe literatura correspondente para tal.

Eu estava conversando com um gerente recém-promovido cujas preocupações são aumentar a produtividade de sua desmotivada equipe. Uma das atividades que sugeri a ele–retirada diretamente de Peopleware e cujo objetivo é sensibilizar a direção de uma empresa para a necessidade de flow–foi medir o quanto de trabalho um de seus programadores conseguia realizar em um dia e o quanto de interrupções ele sofria. O resulto foi revelador: trinta minutos de trabalho útil para mais de seis horas de interrupções (entre as quais, a importante atividade de atender a porta da empresa, perto da qual o programador em questão está sentado).

E claro, uma das propostas da empresa para aumentar a produtividade dos funcionários é remover o acesso a instant messaging e redes sociais. Como é comum nesses casos, o escape que o funcionário possui da, de outra forma, entediante realidade de seu trabalho, é fomentar suas conexões. Obviamente, como Peopleware discute muito bem, a remoção de tais privilégios terá um único efeito: aumentar o turn-over experimentado pela empresa.

O que me leva a pensar na ironia de uma questão fundamental que aflige a raça humana. Eu não quero filosofar banalidade aqui, mas uma das perguntas fundamentais que permeiam a nossa vida–junto com as tradicionais “quem sou?”, “de onde vim?” e “para onde vou?”–é como escapar da mediocridade que insiste em se insinuar por tudo o que fazemos.

Confrontados com seus dez ou quinze anos de carreira ou com o gênio unidirecional de Albert Einstein e Garry Kasparov, ou, pior ainda, com as realizações de polímatas como Leonardo Da Vinci e John von Neumann, são poucos os que admitem (publicamente, pelo menos) o pavor da mediocridade que assombra os horizontes futuros de suas vidas.

Novamente, a ironia disso tudo está nas substituições precárias que fazemos. Algumas vezes acertamos, mas como o motivo permanece incorreto, a continuidade do que acreditamos ser mediocridade é garantida.

Conversando com um amigo recentemente, falávamos sobre as aulas de Arte (com A maiúsculo) que ele recebe de um conceituado artista brasileiro. Em nossa conversa, a tema central era o real significado de criar Arte e se qualquer pessoa pode atingir esse ideal. Existem milhares de guitarras abandonadas em quartos escuros, esperando a mão que poderá transformá-las em algo transcendente–não para outros, já que é impossível realmente conhecermos o Outrem–mas pela beleza do próprio eu, trazendo à tona o real significado da Arte. Tudo o que se requer dessa mão é dedicação, transformando o tempo que de outra forma seria perdido; um entendimento, enfim, de quais são os demônios a serem combatidos. São os demônios, não a mediocridade, que deveriam nos assombrar.

O que nos leva de volta ao flow e as parcas e infundadas tentativas de produzi-lo através da remoção de artefatos que em outras circunstâncias seriam vistos como incentivos. Mas, o são realmente?

Eu não consigo deixar de pensar em como a manutenção de conexões extrínsecas é um pobre substituto para o tipo de reflexão e prática associados com Arte e Realização (aqui, no sentido filosófico/matemático de atualizar, tornar real, reificar).

Malcolm Gladwell, em seu mais recente trabalho, popularizou a conhecida regra das dez mil horas como sendo o tempo necessário para que alguém se torne proficiente em uma atividade. Gladwell foi criticado pela simplificação, mas quando a asserção é vista no contexto do trabalho de Csíkszentmihályi, ela começa a fazer mais sentido. Flow requer investimento de tempo, e se flow é um pressuposto para trabalho produtivo e permanente, se segue que a manutenção de conexões efêmeras é algo que está na contramão da realização.

Presença, um tópico permanente nas múltiplas ferramentas de conexão das quais a vida moderna parece depender, tem implicações sutis para o flow. Conectividade, vista sobre esse prisma, é uma forma de pobreza porque gera um fluxo constante de interrupções que eliminam completamente a possibilidade da realização de algo de valor concreto. O conectado, em troca da efêmera e duvidosa sensação de intimidade e pretensa consciência do seu ambiente, perde a capacidade de cultivar jardins privados e afastados da Web cujo valor remete ao discutido acima sobre Arte.

Celulares que vibram a cada segundo indicando uma nova mensagem de uma rede social composta essencialmente por estranhos de contato passageiro, o ícone de uma ferramenta de acesso ao Twitter que pisca incessantemente lembrando que alguém acabou de dizer alguma coisa absolutamente sem valor imediato (e muito provavelmente sem valor futuro também), a lista de atualizações de um Orkut ou Facebook desfiando minúcias irrelevantes da vida de outras, vão se compondo, dedos se coçando, porque eu preciso de mais e mais pontos de contato, opondo-se ao virtuosismo representado pelo flow.

Eu não quero somente uma faceta da vida. Eu não quero a mediocridade destilada em pequenas quantidades. Eu quero o imediatismo de uma derrota brilhante no xadrez sofrida para um amigo com o qual compartilho dezenas de horas de conversas entre jogos, estratégia definida em anos e não somente as trocas rápidas e fugidias dentro de uma aplicação Facebook. Eu quero as discussões intensas sobre linguagens de programação esotéricas cunhadas em um des/entendimento mútuo e não somente opiniões (mal) explicadas em cento e quarenta caracteres ou menos. Eu quero o entendimento da transcendência que você vê no jazz e eu vejo no blues, refinada por notas dedilhadas aqui e ali, pelo retorno de uma sessão tocante entre mestres de outrora e do presente, e não por um endereço Web, uma experiência por proxy.

E, acima de tudo, eu quero o tempo necessário para os demônios que me assombram.

Dinheiro livre

September 23rd, 2008 § 2 comments § permalink

Douglas Rushkoff tem um belíssimo artigo hoje no Boing Boing sobre o passado e o possível futuro do dinheiro e capitalismo que vale a leitura para qualquer um acompanhando as movimentações recentes sobre a crise mercadológica em progresso nos EUA.

É bem interessante que Rushkoff, que claramente acredita em um futuro de pós-escassez determinado por um mercado descentralizado (open source como ele mesmo coloca), apresenta opções diretas que estão acontecendo e que valem a pena ser investigadas.

O que me deixa bem curioso é ver como várias pessoas estão apontando para o fim do mercado como nós o conhecemos. É claro que, historicamente, mesmo se isso for verdade, o processo demora um tempo longo o suficiente para que só provavelmente os netos de nossos netos tomem consciência de que realmente houve como a “Grande Transição Mercadológica do Século 21″. Mesmo em tempos atuais, com todo o acesso histórico real-time é impossível prever qualquer coisa além de algumas poucas horas.

Ainda assim, o interessante é usar esse tipo de oportunidade como uma forma de educar a comunidade em geral sobre outras configurações válidas para cenários que geralmente são considerados fixos quando são, na verdade, sujeitos a um grande grau de maleabilidade.

Há um certo karma envolvido em viver em tempos interessantes. O que espero é que o preço a pagar seja tolerável dessa vez.

Guerras paralelas no ciberespaço

August 10th, 2008 § 1 comment § permalink

Na esteira da guerra entre Rússia/Geórgia, um lado aparece com pouco ou nenhum destaque nos jornais internacionais: a guerra paralela pelo controle do ciberespaço entre os países.

No momento, a infra-estrutura de Internet da Geórgia está sobpesado ataque pela RBN, com essencialmente todos os roteadores de entrada/saída do país sob controle externo. Para mais informações sobre a RBN, veja a Wikipedia.

Para quem leu Spook Country recentemente, os ecos são–no mínimo–prescientes.

Deve-se notar que, pelas informações técnicas divulgadas, os ataques ainda são relativamente mínimos, mais no nível de controle de propaganda do que de qualquer outra coisa. Obviamente, como qualquer outro tipo de técnica de guerra, não deve demorar muito até que esse tipo de coisa não seja só comum como também de uma sofisticação enorme. E, é claro, esse tipo de ataque não será restrito a organizações de poderio militar mas disponível a qualquer um com banda e habilidade suficiente para encontrar vulnerabilidades em instalações de outros.

Isso é o real século 21.

Meio termo

April 9th, 2008 § 3 comments § permalink

Ser proponente de código livre não é:

  • Usar código livre. Isso qualquer um faz, principalmente quem quer “economizar” um graninha e contar vantagem ao dizer que apoia a comunidade livre.
  • Extrair alguma coisa e dizer que você fez porque era livre. É muito fácil pegar o trabalho dos outros e empacotar em um formato um pouco diferente–botar uma embalagem diferente–e dizer que você fez aquilo. Difícil mesmo é contribuir com algo de substancial.
  • Modificar e liberar dizendo que você inventou. Esse é um dos piores e menos éticos. Código livre não excluir o direito de quem criou aquele trecho de código ou aquela ferramenta. Pegar algo que alguém teve o trabalho de fazer, modificar um pouco e dizer que é seu é uma das piores coisas que se pode fazer em termos de código livre. Há um círculo do inferno reservado para quem remove o crédito anterior e faz um trabalho passar por seu. Você pode até ter modificado substancialmente–esse é o espírito–mas ignorar o fato de que outros também trabalharam é desprezível.
  • Deixar de devolver algo. Passar a vida inteira ganhando sobre o código livre e não devolver suas alterações é outra atitude que possui um círculo reservado no inferno.

Eu não me importo com quem só usa proprietário. Mas quem fica do meio do caminho não merece consideração. E tudo bem, podem me chamar de radical agora.

O novo usuário médio

April 8th, 2008 § 0 comments § permalink

Hoje estávamos contabilizando idades na equipe–um exercício pueril–e me dei conta de que estou na situação em a quase totalidade da mesma está abaixo de mim em idade. É engraçado, porque foi a primeira vez em que me dei conta da inversão. O que não quer dizer absolutamente nada, é claro, mas encaixou com uma conversa que tive mais tarde com o Lemos sobre a nova geração que já está crescendo com a Internet e as profundas mudanças sociais que isto já está trazendo.

Como eu nasci em uma geração que não tem esse perfil, eu tento me manter longe de choques futuros desenvolvendo para o segmento. Até o momento eu tenho tido um sucesso razoável em permanecer dentro da fração da população que está ativamente envolvida com esse futuro em particular–se não necessariamente criando na maior parte do tempo, mas pelo menos participando.

Mas, o interessante dessa conversa posterior foi perceber que estamos a pouco tempo de um enorme momento de transição. A maioria das pessoas que se relaciona com Internet em uma base regular e que esteve no início do uso no Brasil, por exemplo, traça suas raízes com a Web nos anos de 93 a 98. Já se vão, portanto, 10 a 15 anos de evolução. Considerando que o Brasil possui um lag óbvio e olhando para a própria história da Internet como um todo, temos um recuo de 20 a 25 anos. Isso é, essencialmente, um geração.

Em outras palavras, há um geração que já está inserida completamente dentro de um contexto de Internet. Esse momento já chegou. É claro que como existem outros fatores que impactam na adoção e popularização das ferramentas (preços, banda, limitações tecnológicas, etc), o potencial que deveria estar nas mãos dessa geração não está completamente realizado. Mas é curioso pensar que os filhos dessa próxima geração nascerão em um contexto ainda mais fundamentalmente diverso do que estamos experimentando hoje.

O que me lembra do conceito de usuário médio, que ainda serve como referencial de criação. Esse usuário já anda precisando de uma revisão–um upgrade se você quiser–em capacidades e aspirações. O maior desafio de qualquer nova aplicação hoje é condensar e catalisar essas necessidades.

Isso leva à quase cômica idéia de a velha guarda já está experimentando sinais de fadiga (nada mais do que choque futuro). Quando alguém diz que não tem a menor utilidade para lifestreaming, eu só consigo ver os reflexos dessa substituição. Eu vejo a minha relação com o Twitter nesse termos. Há uma classe inteira de usos/funcionalidades que passam completamente batidos a menos que se considere essa mudança.

Tanto melhor. I, for one, welcome our new information overlords.

Seriestreaming

March 30th, 2008 § 1 comment § permalink

Estava assistindo um pouco de TV hoje e vi um trecho de um episódio de CSI onde o Twitter é usado para colher informações sobre o suspeito de um crime. É claro, a representação é exagerada, com mais funções do que o aplicativo suporta, mas a introdução constante de ferramentas modernas em séries é bem interessante.

O mais interessante do episódio, entretanto, não foi o uso do Twitter, mas a leve indicação de uma consciência sobre o fato de que lifestreaming está se tornando uma coisa cada vez mais presente entre os usuários da Internet. Não é referenciado pelo nome é claro, mas a presença imersiva online está bem explícita na conversa dos personagens.

Também interessante é o que um dos personagens fala: “They don’t expect privacy, they value openness”. Essa é uma das maiores mudanças que está acontecendo em relação ao uso de Internet atual e algo que vai ser fundamental para a compreensão do uso futuro da mesma pela geração atual que está sendo criada sob seu manto.

Eu me confesso impressionado por ver duas coisas fundamentais serem expressadas com tal casualidade em um programa. Pode ser uma completa coincidência, mas não deixa de ser algo bem curioso.

Sobrecarga de informação

March 18th, 2008 § 0 comments § permalink

O pessoal do ReadWriteWeb tem outro artigo bom hoje sobre lifestreaming e excesso de informações. Como eu tinha mencionado no meu comentário anterior sobre o tópico, o dilúvio de informações resultante de múltiplos serviços vezes múltiplos usuários é um dos principais problemas desse tipo de aplicação, por mais interessante que seja acompanhar o que está acontecendo em tempo semi-real.

O artigo propõe três soluções que estão interconectadas e que realmente poderiam resolver um pouco da carga. A primeira e mais óbvia solução–filtros–é uma necessidade básica e já implementada por algumas aplicações de lifestreaming. Mas filtros comuns dificilmente serão suficientes para lidar com a pouca especificidade das informações resultantes das colagens de serviços.

O que é realmente necessário é algum tipo de filtro adaptativo que saiba coletar informações baseadas nos itens primários que o artigo sugere. Por exemplo, um filtro comum poderia excluir qualquer coisa que venha do Twitter, mas um filtro adaptativo faria a mesma coisa exceto se o que é mencionado no Twitter tem alguma relevância para outro conteúdo subscrito. Da mesma forma, responder ao Twitter seria informação acumulada que poderia contribuir para um filtro geral que se tornaria cada vez mais eficiente.

O mecanismo de memes usado em planetas é bem interessante no sentido de identificar idéias gerais que são de provável interesse mas é bem limitado quando você está se restringindo a coisas que já está lendo e/ou acompanhando. Mesmo assim, é bem possível expandir o conceito em cima de algo que poderia acompanhar a sobrevivência de um item de interesse ao longo de uma timeline.

Eu, por exemplo, gosto muito de citar fonte em textos que escrevo. Um mecanismo de filtros capaz de acumular informações relacionadas sobre um tópico que eu já tenha marcado para referência futura com base em informações vindas das lifestreams que estou acompanhando seria muito útil.

No geral, o que estamos precisando é colocar um pouco mais de inteligências nessas aplicações. Mesmo os Facebooks e FriendFeeds da vida ainda estão basicamente limitados a inputs explícitos que não acrescentam muito valor à informação que está sendo coletada. Sem uma forma de mapear isso em uma matriz de interesses, esses serviços continuaram a ser bem limitados, por mais potencialmente interessante que sejam.

Lifestreaming

March 15th, 2008 § 0 comments § permalink

Com o aumento do número de serviços sociais na Web, um novo problema está surgindo: conseguir acompanhar os amigos e conhecidos nesses serviços. Se o objetivo primário é obviamente relacionar-se, uma maneira de ficar atento ao que está acontecendo nas esferas dos seus Indivíduos de Interesse, para parafrasear Iain M. Banks, é vital.

De dois anos para cá–embora o conceito seja um pouco mais antigo–muita gente está experimentando (1, 2, 3, 4) como lifestreams, agregações completas do material que é produzido nos vários serviços usados e disponibilizado via RSS.

O formato parece que está para estourar e vai ser interessante ver os usos que serão feitos sobre o mesmo. Para quem quer experimentar, há uma enorme seleção de serviços disponíveis, cada um com suas vantagens e desvantagens. Só a existência de tantas opções já demonstra que o conceito está se tornando mainstream e que é bem possível que em um ano seja uma das formas primárias de relacionamentos sociais online.

Aliás, isso é particularmente interessante porque quebra um pouco a questão de jardins fechados e expande sobre a idéia tradicional de blogs e planets.

Mais interessante ainda vão ser os cruzamentos possíveis sobre a informação gerada. Alguma aplicação possível de filtros bayesianos para correlacionar assuntos de interesse ao longo de topo espectro de lifestreams acompanhadas daria algo no sentido de capturar memes e reduzir a fricção causada pelo dilúvio de informações produzidas.

De qualquer forma, é um campo para se acompanhar de perto.

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