A pobreza das conexões

April 22nd, 2009 § 17

Quando eu li Peopleware pela primeira vez, um dos tópicos que mais me chamou a atenção foi o conceito de flow. Esse conceito, advindo em grande parte do trabalho do psicólogo húngaro Mihály Csíkszentmihályi, descreve o estado em que uma pessoa está inteiramente comprometida com a realidade da execução de uma tarefa, seja qual ela for. Flow, em outras palavras, é a imersão completa em uma atividade ao ponto em que a pessoa chega a perder a consciência de que está fazendo algo até que o trabalho esteja completa–ou o estado seja interrompido.

No contexto de Peopleware–e, de fato, do campo da computação/programação em si–flow é algo bem conhecido. Programadores rotineiramente experimentam isso como parte do seu dia-a-dia. Existem argumentos de que não há como existir trabalho produtivo sem flow e livros inteiros dedicados ao tópico de redução de interrupções no ambiente de trabalho para aumentar o tempo em que programadores passam nesse estado. Obviamente, o trabalho de Csíkszentmihályi se aplica a qualquer campo em que criatividade e expressividade sejam parte da equação e existe literatura correspondente para tal.

Eu estava conversando com um gerente recém-promovido cujas preocupações são aumentar a produtividade de sua desmotivada equipe. Uma das atividades que sugeri a ele–retirada diretamente de Peopleware e cujo objetivo é sensibilizar a direção de uma empresa para a necessidade de flow–foi medir o quanto de trabalho um de seus programadores conseguia realizar em um dia e o quanto de interrupções ele sofria. O resulto foi revelador: trinta minutos de trabalho útil para mais de seis horas de interrupções (entre as quais, a importante atividade de atender a porta da empresa, perto da qual o programador em questão está sentado).

E claro, uma das propostas da empresa para aumentar a produtividade dos funcionários é remover o acesso a instant messaging e redes sociais. Como é comum nesses casos, o escape que o funcionário possui da, de outra forma, entediante realidade de seu trabalho, é fomentar suas conexões. Obviamente, como Peopleware discute muito bem, a remoção de tais privilégios terá um único efeito: aumentar o turn-over experimentado pela empresa.

O que me leva a pensar na ironia de uma questão fundamental que aflige a raça humana. Eu não quero filosofar banalidade aqui, mas uma das perguntas fundamentais que permeiam a nossa vida–junto com as tradicionais “quem sou?”, “de onde vim?” e “para onde vou?”–é como escapar da mediocridade que insiste em se insinuar por tudo o que fazemos.

Confrontados com seus dez ou quinze anos de carreira ou com o gênio unidirecional de Albert Einstein e Garry Kasparov, ou, pior ainda, com as realizações de polímatas como Leonardo Da Vinci e John von Neumann, são poucos os que admitem (publicamente, pelo menos) o pavor da mediocridade que assombra os horizontes futuros de suas vidas.

Novamente, a ironia disso tudo está nas substituições precárias que fazemos. Algumas vezes acertamos, mas como o motivo permanece incorreto, a continuidade do que acreditamos ser mediocridade é garantida.

Conversando com um amigo recentemente, falávamos sobre as aulas de Arte (com A maiúsculo) que ele recebe de um conceituado artista brasileiro. Em nossa conversa, a tema central era o real significado de criar Arte e se qualquer pessoa pode atingir esse ideal. Existem milhares de guitarras abandonadas em quartos escuros, esperando a mão que poderá transformá-las em algo transcendente–não para outros, já que é impossível realmente conhecermos o Outrem–mas pela beleza do próprio eu, trazendo à tona o real significado da Arte. Tudo o que se requer dessa mão é dedicação, transformando o tempo que de outra forma seria perdido; um entendimento, enfim, de quais são os demônios a serem combatidos. São os demônios, não a mediocridade, que deveriam nos assombrar.

O que nos leva de volta ao flow e as parcas e infundadas tentativas de produzi-lo através da remoção de artefatos que em outras circunstâncias seriam vistos como incentivos. Mas, o são realmente?

Eu não consigo deixar de pensar em como a manutenção de conexões extrínsecas é um pobre substituto para o tipo de reflexão e prática associados com Arte e Realização (aqui, no sentido filosófico/matemático de atualizar, tornar real, reificar).

Malcolm Gladwell, em seu mais recente trabalho, popularizou a conhecida regra das dez mil horas como sendo o tempo necessário para que alguém se torne proficiente em uma atividade. Gladwell foi criticado pela simplificação, mas quando a asserção é vista no contexto do trabalho de Csíkszentmihályi, ela começa a fazer mais sentido. Flow requer investimento de tempo, e se flow é um pressuposto para trabalho produtivo e permanente, se segue que a manutenção de conexões efêmeras é algo que está na contramão da realização.

Presença, um tópico permanente nas múltiplas ferramentas de conexão das quais a vida moderna parece depender, tem implicações sutis para o flow. Conectividade, vista sobre esse prisma, é uma forma de pobreza porque gera um fluxo constante de interrupções que eliminam completamente a possibilidade da realização de algo de valor concreto. O conectado, em troca da efêmera e duvidosa sensação de intimidade e pretensa consciência do seu ambiente, perde a capacidade de cultivar jardins privados e afastados da Web cujo valor remete ao discutido acima sobre Arte.

Celulares que vibram a cada segundo indicando uma nova mensagem de uma rede social composta essencialmente por estranhos de contato passageiro, o ícone de uma ferramenta de acesso ao Twitter que pisca incessantemente lembrando que alguém acabou de dizer alguma coisa absolutamente sem valor imediato (e muito provavelmente sem valor futuro também), a lista de atualizações de um Orkut ou Facebook desfiando minúcias irrelevantes da vida de outras, vão se compondo, dedos se coçando, porque eu preciso de mais e mais pontos de contato, opondo-se ao virtuosismo representado pelo flow.

Eu não quero somente uma faceta da vida. Eu não quero a mediocridade destilada em pequenas quantidades. Eu quero o imediatismo de uma derrota brilhante no xadrez sofrida para um amigo com o qual compartilho dezenas de horas de conversas entre jogos, estratégia definida em anos e não somente as trocas rápidas e fugidias dentro de uma aplicação Facebook. Eu quero as discussões intensas sobre linguagens de programação esotéricas cunhadas em um des/entendimento mútuo e não somente opiniões (mal) explicadas em cento e quarenta caracteres ou menos. Eu quero o entendimento da transcendência que você vê no jazz e eu vejo no blues, refinada por notas dedilhadas aqui e ali, pelo retorno de uma sessão tocante entre mestres de outrora e do presente, e não por um endereço Web, uma experiência por proxy.

E, acima de tudo, eu quero o tempo necessário para os demônios que me assombram.

Dinheiro livre

September 23rd, 2008 § 2

Douglas Rushkoff tem um belíssimo artigo hoje no Boing Boing sobre o passado e o possível futuro do dinheiro e capitalismo que vale a leitura para qualquer um acompanhando as movimentações recentes sobre a crise mercadológica em progresso nos EUA.

É bem interessante que Rushkoff, que claramente acredita em um futuro de pós-escassez determinado por um mercado descentralizado (open source como ele mesmo coloca), apresenta opções diretas que estão acontecendo e que valem a pena ser investigadas.

O que me deixa bem curioso é ver como várias pessoas estão apontando para o fim do mercado como nós o conhecemos. É claro que, historicamente, mesmo se isso for verdade, o processo demora um tempo longo o suficiente para que só provavelmente os netos de nossos netos tomem consciência de que realmente houve como a “Grande Transição Mercadológica do Século 21″. Mesmo em tempos atuais, com todo o acesso histórico real-time é impossível prever qualquer coisa além de algumas poucas horas.

Ainda assim, o interessante é usar esse tipo de oportunidade como uma forma de educar a comunidade em geral sobre outras configurações válidas para cenários que geralmente são considerados fixos quando são, na verdade, sujeitos a um grande grau de maleabilidade.

Há um certo karma envolvido em viver em tempos interessantes. O que espero é que o preço a pagar seja tolerável dessa vez.

Guerras paralelas no ciberespaço

August 10th, 2008 § 1

Na esteira da guerra entre Rússia/Geórgia, um lado aparece com pouco ou nenhum destaque nos jornais internacionais: a guerra paralela pelo controle do ciberespaço entre os países.

No momento, a infra-estrutura de Internet da Geórgia está sobpesado ataque pela RBN, com essencialmente todos os roteadores de entrada/saída do país sob controle externo. Para mais informações sobre a RBN, veja a Wikipedia.

Para quem leu Spook Country recentemente, os ecos são–no mínimo–prescientes.

Deve-se notar que, pelas informações técnicas divulgadas, os ataques ainda são relativamente mínimos, mais no nível de controle de propaganda do que de qualquer outra coisa. Obviamente, como qualquer outro tipo de técnica de guerra, não deve demorar muito até que esse tipo de coisa não seja só comum como também de uma sofisticação enorme. E, é claro, esse tipo de ataque não será restrito a organizações de poderio militar mas disponível a qualquer um com banda e habilidade suficiente para encontrar vulnerabilidades em instalações de outros.

Isso é o real século 21.

Meio termo

April 9th, 2008 § 3

Ser proponente de código livre não é:

  • Usar código livre. Isso qualquer um faz, principalmente quem quer “economizar” um graninha e contar vantagem ao dizer que apoia a comunidade livre.
  • Extrair alguma coisa e dizer que você fez porque era livre. É muito fácil pegar o trabalho dos outros e empacotar em um formato um pouco diferente–botar uma embalagem diferente–e dizer que você fez aquilo. Difícil mesmo é contribuir com algo de substancial.
  • Modificar e liberar dizendo que você inventou. Esse é um dos piores e menos éticos. Código livre não excluir o direito de quem criou aquele trecho de código ou aquela ferramenta. Pegar algo que alguém teve o trabalho de fazer, modificar um pouco e dizer que é seu é uma das piores coisas que se pode fazer em termos de código livre. Há um círculo do inferno reservado para quem remove o crédito anterior e faz um trabalho passar por seu. Você pode até ter modificado substancialmente–esse é o espírito–mas ignorar o fato de que outros também trabalharam é desprezível.
  • Deixar de devolver algo. Passar a vida inteira ganhando sobre o código livre e não devolver suas alterações é outra atitude que possui um círculo reservado no inferno.

Eu não me importo com quem só usa proprietário. Mas quem fica do meio do caminho não merece consideração. E tudo bem, podem me chamar de radical agora.

O novo usuário médio

April 8th, 2008 § 0

Hoje estávamos contabilizando idades na equipe–um exercício pueril–e me dei conta de que estou na situação em a quase totalidade da mesma está abaixo de mim em idade. É engraçado, porque foi a primeira vez em que me dei conta da inversão. O que não quer dizer absolutamente nada, é claro, mas encaixou com uma conversa que tive mais tarde com o Lemos sobre a nova geração que já está crescendo com a Internet e as profundas mudanças sociais que isto já está trazendo.

Como eu nasci em uma geração que não tem esse perfil, eu tento me manter longe de choques futuros desenvolvendo para o segmento. Até o momento eu tenho tido um sucesso razoável em permanecer dentro da fração da população que está ativamente envolvida com esse futuro em particular–se não necessariamente criando na maior parte do tempo, mas pelo menos participando.

Mas, o interessante dessa conversa posterior foi perceber que estamos a pouco tempo de um enorme momento de transição. A maioria das pessoas que se relaciona com Internet em uma base regular e que esteve no início do uso no Brasil, por exemplo, traça suas raízes com a Web nos anos de 93 a 98. Já se vão, portanto, 10 a 15 anos de evolução. Considerando que o Brasil possui um lag óbvio e olhando para a própria história da Internet como um todo, temos um recuo de 20 a 25 anos. Isso é, essencialmente, um geração.

Em outras palavras, há um geração que já está inserida completamente dentro de um contexto de Internet. Esse momento já chegou. É claro que como existem outros fatores que impactam na adoção e popularização das ferramentas (preços, banda, limitações tecnológicas, etc), o potencial que deveria estar nas mãos dessa geração não está completamente realizado. Mas é curioso pensar que os filhos dessa próxima geração nascerão em um contexto ainda mais fundamentalmente diverso do que estamos experimentando hoje.

O que me lembra do conceito de usuário médio, que ainda serve como referencial de criação. Esse usuário já anda precisando de uma revisão–um upgrade se você quiser–em capacidades e aspirações. O maior desafio de qualquer nova aplicação hoje é condensar e catalisar essas necessidades.

Isso leva à quase cômica idéia de a velha guarda já está experimentando sinais de fadiga (nada mais do que choque futuro). Quando alguém diz que não tem a menor utilidade para lifestreaming, eu só consigo ver os reflexos dessa substituição. Eu vejo a minha relação com o Twitter nesse termos. Há uma classe inteira de usos/funcionalidades que passam completamente batidos a menos que se considere essa mudança.

Tanto melhor. I, for one, welcome our new information overlords.

Seriestreaming

March 30th, 2008 § 1

Estava assistindo um pouco de TV hoje e vi um trecho de um episódio de CSI onde o Twitter é usado para colher informações sobre o suspeito de um crime. É claro, a representação é exagerada, com mais funções do que o aplicativo suporta, mas a introdução constante de ferramentas modernas em séries é bem interessante.

O mais interessante do episódio, entretanto, não foi o uso do Twitter, mas a leve indicação de uma consciência sobre o fato de que lifestreaming está se tornando uma coisa cada vez mais presente entre os usuários da Internet. Não é referenciado pelo nome é claro, mas a presença imersiva online está bem explícita na conversa dos personagens.

Também interessante é o que um dos personagens fala: “They don’t expect privacy, they value openness”. Essa é uma das maiores mudanças que está acontecendo em relação ao uso de Internet atual e algo que vai ser fundamental para a compreensão do uso futuro da mesma pela geração atual que está sendo criada sob seu manto.

Eu me confesso impressionado por ver duas coisas fundamentais serem expressadas com tal casualidade em um programa. Pode ser uma completa coincidência, mas não deixa de ser algo bem curioso.

Sobrecarga de informação

March 18th, 2008 § 0

O pessoal do ReadWriteWeb tem outro artigo bom hoje sobre lifestreaming e excesso de informações. Como eu tinha mencionado no meu comentário anterior sobre o tópico, o dilúvio de informações resultante de múltiplos serviços vezes múltiplos usuários é um dos principais problemas desse tipo de aplicação, por mais interessante que seja acompanhar o que está acontecendo em tempo semi-real.

O artigo propõe três soluções que estão interconectadas e que realmente poderiam resolver um pouco da carga. A primeira e mais óbvia solução–filtros–é uma necessidade básica e já implementada por algumas aplicações de lifestreaming. Mas filtros comuns dificilmente serão suficientes para lidar com a pouca especificidade das informações resultantes das colagens de serviços.

O que é realmente necessário é algum tipo de filtro adaptativo que saiba coletar informações baseadas nos itens primários que o artigo sugere. Por exemplo, um filtro comum poderia excluir qualquer coisa que venha do Twitter, mas um filtro adaptativo faria a mesma coisa exceto se o que é mencionado no Twitter tem alguma relevância para outro conteúdo subscrito. Da mesma forma, responder ao Twitter seria informação acumulada que poderia contribuir para um filtro geral que se tornaria cada vez mais eficiente.

O mecanismo de memes usado em planetas é bem interessante no sentido de identificar idéias gerais que são de provável interesse mas é bem limitado quando você está se restringindo a coisas que já está lendo e/ou acompanhando. Mesmo assim, é bem possível expandir o conceito em cima de algo que poderia acompanhar a sobrevivência de um item de interesse ao longo de uma timeline.

Eu, por exemplo, gosto muito de citar fonte em textos que escrevo. Um mecanismo de filtros capaz de acumular informações relacionadas sobre um tópico que eu já tenha marcado para referência futura com base em informações vindas das lifestreams que estou acompanhando seria muito útil.

No geral, o que estamos precisando é colocar um pouco mais de inteligências nessas aplicações. Mesmo os Facebooks e FriendFeeds da vida ainda estão basicamente limitados a inputs explícitos que não acrescentam muito valor à informação que está sendo coletada. Sem uma forma de mapear isso em uma matriz de interesses, esses serviços continuaram a ser bem limitados, por mais potencialmente interessante que sejam.

Lifestreaming

March 15th, 2008 § 0

Com o aumento do número de serviços sociais na Web, um novo problema está surgindo: conseguir acompanhar os amigos e conhecidos nesses serviços. Se o objetivo primário é obviamente relacionar-se, uma maneira de ficar atento ao que está acontecendo nas esferas dos seus Indivíduos de Interesse, para parafrasear Iain M. Banks, é vital.

De dois anos para cá–embora o conceito seja um pouco mais antigo–muita gente está experimentando (1, 2, 3, 4) como lifestreams, agregações completas do material que é produzido nos vários serviços usados e disponibilizado via RSS.

O formato parece que está para estourar e vai ser interessante ver os usos que serão feitos sobre o mesmo. Para quem quer experimentar, há uma enorme seleção de serviços disponíveis, cada um com suas vantagens e desvantagens. Só a existência de tantas opções já demonstra que o conceito está se tornando mainstream e que é bem possível que em um ano seja uma das formas primárias de relacionamentos sociais online.

Aliás, isso é particularmente interessante porque quebra um pouco a questão de jardins fechados e expande sobre a idéia tradicional de blogs e planets.

Mais interessante ainda vão ser os cruzamentos possíveis sobre a informação gerada. Alguma aplicação possível de filtros bayesianos para correlacionar assuntos de interesse ao longo de topo espectro de lifestreams acompanhadas daria algo no sentido de capturar memes e reduzir a fricção causada pelo dilúvio de informações produzidas.

De qualquer forma, é um campo para se acompanhar de perto.

Ideologia

March 14th, 2008 § 8

Eu me lembro de quando comecei a trabalhar em uma empresa que fazia de PHP sua ferramenta principal. Durante os primeiros meses, houve um evento sobre código livre e a empresa me incentivou a ir. Eu fiquei entusiasmado porque foi uma surpresa e algo que eu mesmo não tinha pedido.

É claro que a surpresa durou somente um dia. No final do primeiro dia, a chefia telefonou e disse que preferia que eu não fosse no segundo dia. O motivo não foi mais trabalho ou algo urgente, mas um simples desinteresse posterior–provavelmente pelo susto de ver um funcionário passar um dia inteiro fora. E durante todo o tempo em que eu estive lá, eu nunca mais pude participar de outro evento. Por mais que eu pedisse, nunca era autorizado.

O mais irônico é que a empresa se considerava uma defensora do código livre. Sempre que alternativas proprietárias eram consideradas, a idéia era sempre que código livre era melhor. Mas o que se percebia logo é que código livre lá era sinônimo de grátis e não tinha nada a ver com liberdade ou abertura. Uma vez, questionei sobre o assunto de contribuir com a comunidade, devolvendo na forma de alguns utilitários que não representavam nenhuma capital intelectual significativo. De forma alguma foi a resposta. Por que daríamos para outros algo que pagamos para criar? O resultado é que até hoje eu não entendo a anomalia que representou aquela ida ao primeiro dia do evento.

Código livre é, em última instância, uma questão de ideologia. Muitos, se questionados, diria que isso é coisa de hippies, de comunistas, socialistas, ou grupos assim, justamente por causa da questão ideológica.

Mas uma coisa que não se percebe é que ideologia é uma questão cultural. Ela representa uma linha de idéias sobre como determinado conjunto de circunstâncias deve se desenvolver. E essa parte cultural representa também uma escolha primária sobre essas idéias naquilo que se enxerga em relação ao futuro.

Ler Free Culture deixou isso ainda mais claro em minha mente. Embora o livro seja sobre copyright e cultura, e não necessariamente sobre software e cultura, os paralelos entre os dois campos são tão significativos quanto os mesmos são diferentes.

A minha frustração com o fanatismo vem justamente da inabilidade que as pessoas tem em perceber esses paralelos. Essa visão limitada e imediatista tanto do mercado como do desenvolvimento cultural, vinda de pessoas que estão construindo o futuro é algo que não entra na minha cabeça.

Talvez seja a falta de reflexão; talvez seja simplesmente a preguiça. Mas é uma pena em todo o caso.

Loucuras ocasionais

March 7th, 2008 § 3

Dois textos interessantes sobre experimentos e sugestões para melhorar o ambiente de trabalho, satisfazer as pessoas que trabalham para você e economizar no geral:

Se você observar as sugestões, verá que nenhuma delas é excessiva e nem além do que a maioria das empresas um pouco mais estabelecidas podem fazer. Aqui no Brasil, entretanto, só de pensar em fazer alguma coisa assim já dá calafrios em praticamente todo e qualquer empresário, mesmo os que mexem com Internet.

Eu sempre fui um cara meio rebelde–em certos aspectos–nas empresas onde que trabalhei. Sempre procurei seguir a linha que o Joel Spolsky sugere de tentar transformar um ambiente menos do que o ideal por meios de pequenas ações. E já tive minhas fases de loucura que chocaram meu empregador mas muitas vezes serviram para dar um toque de que a coisa não estava indo bem.

Eu me lembro de alguns anos atrás quando trabalhava em uma empresa com poucos funcionários. Como o chefão ficava perto de todos nós, era bem fácil interagir e conversar sobre potenciais problemas.

Na empresa, tínhamos umas cadeiras bem confortáveis. Nenhum Aeron, mas o suficiente para não deixar ninguém com problemas de coluna para o resto da vida. Depois de alguns meses trabalhando lá, chegou a notícia de que a empresa iria se fundir com outra maior. Eu, contra o meu melhor julgamento, fiquei. O processo de fusão, alguns meses depois, foi até sem problemas. Houve um período inicial de ajuste, mas como as equipes eram fundamentalmente diferentes, no primeiro momento não houve nenhuma explosão ou migração.

Agora, em termos de ambiente, embora a nova sede fosse linda, o local era horrível. Baias, costas para a mesa dos novos chefes, e por aí vai. Eu, no primeiro dia, sem perguntar para ninguém, já me mudei para o local mais interessante do ambiente. Mas as cadeiras eram horríveis. As boas que tínhamos foram substituídas por genéricas que me deixaram dolorido em menos do que duas horas. Depois de uma semana assim, cansei. Conversei com o chefe anterior e a desculpa foi que não dava para comprar boas para todo mundo e o menor denominador teria que prevalecer.

Dois dias depois, a loucura baixou. Quase na hora do almoço, com as costas explodindo, eu me levantei, fui na sala de um dos chefes–não o meu–peguei uma das cadeiras de visitas chiques na frente dele e pus a minha horrorosa no lugar. O cara ficou me olhando sem saber o que dizer.

É claro que no dia seguinte fui chamado para uma reunião. O resultado é que algumas semanas depois, todo mundo recebeu cadeiras novas. Eu achei que ia ser despedido, mas nada. O pessoal acabou vendo que a coisa toda não doía e a produtividade de gente bem sentada era obviamente melhor.

Eu sai da empresa logo depois. O ambiente não era para mim, como eu já previa. Mas foi uma época engraçada. E ficou a lição: só trabalhe em um local que vai ouvir você. Ou trabalhe por conta própria. Foi o que eu fiz. Nunca mais trabalhei em nenhum lugar em que economia é mais importante que o funcionário.

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