Ideologia

March 14th, 2008 § 8 comments § permalink

Eu me lembro de quando comecei a trabalhar em uma empresa que fazia de PHP sua ferramenta principal. Durante os primeiros meses, houve um evento sobre código livre e a empresa me incentivou a ir. Eu fiquei entusiasmado porque foi uma surpresa e algo que eu mesmo não tinha pedido.

É claro que a surpresa durou somente um dia. No final do primeiro dia, a chefia telefonou e disse que preferia que eu não fosse no segundo dia. O motivo não foi mais trabalho ou algo urgente, mas um simples desinteresse posterior–provavelmente pelo susto de ver um funcionário passar um dia inteiro fora. E durante todo o tempo em que eu estive lá, eu nunca mais pude participar de outro evento. Por mais que eu pedisse, nunca era autorizado.

O mais irônico é que a empresa se considerava uma defensora do código livre. Sempre que alternativas proprietárias eram consideradas, a idéia era sempre que código livre era melhor. Mas o que se percebia logo é que código livre lá era sinônimo de grátis e não tinha nada a ver com liberdade ou abertura. Uma vez, questionei sobre o assunto de contribuir com a comunidade, devolvendo na forma de alguns utilitários que não representavam nenhuma capital intelectual significativo. De forma alguma foi a resposta. Por que daríamos para outros algo que pagamos para criar? O resultado é que até hoje eu não entendo a anomalia que representou aquela ida ao primeiro dia do evento.

Código livre é, em última instância, uma questão de ideologia. Muitos, se questionados, diria que isso é coisa de hippies, de comunistas, socialistas, ou grupos assim, justamente por causa da questão ideológica.

Mas uma coisa que não se percebe é que ideologia é uma questão cultural. Ela representa uma linha de idéias sobre como determinado conjunto de circunstâncias deve se desenvolver. E essa parte cultural representa também uma escolha primária sobre essas idéias naquilo que se enxerga em relação ao futuro.

Ler Free Culture deixou isso ainda mais claro em minha mente. Embora o livro seja sobre copyright e cultura, e não necessariamente sobre software e cultura, os paralelos entre os dois campos são tão significativos quanto os mesmos são diferentes.

A minha frustração com o fanatismo vem justamente da inabilidade que as pessoas tem em perceber esses paralelos. Essa visão limitada e imediatista tanto do mercado como do desenvolvimento cultural, vinda de pessoas que estão construindo o futuro é algo que não entra na minha cabeça.

Talvez seja a falta de reflexão; talvez seja simplesmente a preguiça. Mas é uma pena em todo o caso.

Loucuras ocasionais

March 7th, 2008 § 3 comments § permalink

Dois textos interessantes sobre experimentos e sugestões para melhorar o ambiente de trabalho, satisfazer as pessoas que trabalham para você e economizar no geral:

Se você observar as sugestões, verá que nenhuma delas é excessiva e nem além do que a maioria das empresas um pouco mais estabelecidas podem fazer. Aqui no Brasil, entretanto, só de pensar em fazer alguma coisa assim já dá calafrios em praticamente todo e qualquer empresário, mesmo os que mexem com Internet.

Eu sempre fui um cara meio rebelde–em certos aspectos–nas empresas onde que trabalhei. Sempre procurei seguir a linha que o Joel Spolsky sugere de tentar transformar um ambiente menos do que o ideal por meios de pequenas ações. E já tive minhas fases de loucura que chocaram meu empregador mas muitas vezes serviram para dar um toque de que a coisa não estava indo bem.

Eu me lembro de alguns anos atrás quando trabalhava em uma empresa com poucos funcionários. Como o chefão ficava perto de todos nós, era bem fácil interagir e conversar sobre potenciais problemas.

Na empresa, tínhamos umas cadeiras bem confortáveis. Nenhum Aeron, mas o suficiente para não deixar ninguém com problemas de coluna para o resto da vida. Depois de alguns meses trabalhando lá, chegou a notícia de que a empresa iria se fundir com outra maior. Eu, contra o meu melhor julgamento, fiquei. O processo de fusão, alguns meses depois, foi até sem problemas. Houve um período inicial de ajuste, mas como as equipes eram fundamentalmente diferentes, no primeiro momento não houve nenhuma explosão ou migração.

Agora, em termos de ambiente, embora a nova sede fosse linda, o local era horrível. Baias, costas para a mesa dos novos chefes, e por aí vai. Eu, no primeiro dia, sem perguntar para ninguém, já me mudei para o local mais interessante do ambiente. Mas as cadeiras eram horríveis. As boas que tínhamos foram substituídas por genéricas que me deixaram dolorido em menos do que duas horas. Depois de uma semana assim, cansei. Conversei com o chefe anterior e a desculpa foi que não dava para comprar boas para todo mundo e o menor denominador teria que prevalecer.

Dois dias depois, a loucura baixou. Quase na hora do almoço, com as costas explodindo, eu me levantei, fui na sala de um dos chefes–não o meu–peguei uma das cadeiras de visitas chiques na frente dele e pus a minha horrorosa no lugar. O cara ficou me olhando sem saber o que dizer.

É claro que no dia seguinte fui chamado para uma reunião. O resultado é que algumas semanas depois, todo mundo recebeu cadeiras novas. Eu achei que ia ser despedido, mas nada. O pessoal acabou vendo que a coisa toda não doía e a produtividade de gente bem sentada era obviamente melhor.

Eu sai da empresa logo depois. O ambiente não era para mim, como eu já previa. Mas foi uma época engraçada. E ficou a lição: só trabalhe em um local que vai ouvir você. Ou trabalhe por conta própria. Foi o que eu fiz. Nunca mais trabalhei em nenhum lugar em que economia é mais importante que o funcionário.

DataPortability Workgroup e Microsoft

January 23rd, 2008 § 2 comments § permalink

Em mais uma surpresa relacionada ao DataPortability Workgroup, o Read/Write Web está reportando que agora foi a vez da Microsoft se juntar ao grupo. Nada formal ainda, mas um anúncio deve sair logo.

A adesão da Microsoft é a última em uma cadeia de pesos pesados que incluiu Google e Facebook inicialmente, seguiu com SixApart, LinkedIn e Flickr, e finalizando com um interesse geral no assunto.

Como o pessoal do Read/Write Web aponta, não dá para deixar de ficar curioso com o que a Microsoft pretende com sua entrada na iniciativa, considerando que a empresa é sinônimo de lock-in e práticas anti-competitivas.

Há também o fato que o OpenID é uma parte essencial do esforço de portabilidade, uma aceitação real por parte da Microsoft implicaria em pelo menos um suporte paralelo ao mesmo em sua estrutura Passport. Transformar cada idetidade Passport em uma identidade equivalente OpenID seria algo extremamente vantajoso para a conscientização e suporte geral de uma enorme fatia da população Web.

De qualquer forma, o momento em favor da adoção de padrões portáveis abertos está aumentando e mesmo que a Microsoft esteja se juntando ao barco somente para não perder o PR agregado, isso não implica que benefícios colaterais virão desse suporte. É claro que sempre há a possibilidade de que ela introduza algum “padrão” incompatível–o que não seria grande surpresa, inclusive–mas esperamos que a presença dos outros pesos da indústria tenha um fator mitigador em qualquer tentativa da empresa de gerar alguma vantagem para si subvertendo os esforços atuais.

Mais empresas se juntam ao DataPortability Workgroup

January 10th, 2008 § 0 comments § permalink

Dois dias atrás, Google e Facebook chacoalharam o mercado ao anunciarem a sua decisão de se juntarem ao DataPortability Workgroup. Com o mesmo entusiasmo do dia–e em um tom de quase descrença–o Read/Write Web está reportando que mais três grandes players estão assumindo representação na iniciativa: Flickr, SixApart e LinkedIn. E excelente representação, por sinal: as pessoas envolvidas não são meros funcionários mas indivíduos com histórico de atuação nas áreas de interesse do grupo.

É óbvio que a influência dos dois gigantes está se espalhando e eu não duvido que várias outras empresas anunciarão participações similares nos próximos dias e meses. O que começou como algo basicamente formado por pessoas preocupadas com os rumos da indústria pode se tornar uma força dominante na implementação de padrões de portabilidade durante os próximos anos.

O mais importante na história toda é que todos os padrões apoiados pelo grupo são abertos e, juntos, representam uma enorme tendência contra o tipo de atitude disseminada pela Microsoft ao tentar cooptar produtos naturalmente livres em implementações proprietárias. Considerando que aplicações Web hoje são primordiais, padrões abertos e flexíveis obviamente tornam iniciativas fechadas consideravelmente mais difíceis.

O ano promete. Com o OpenID ganhando espaço e com anúncios quase que diários de possíveis implementações em larga escala, os próximos meses podem acabar se tornando marcos na história da Internet.

Twitter, um pequeno balanço

January 9th, 2008 § 7 comments § permalink

Twitter:
[1] talk in a light, high-pitched voice
[2] idle or ignorant talk

The Oxford Pocket Dictionary, 2007 edition

Com as definições acima, é difícil entender porque o nome Twitter foi escolhido para um serviço cuja intenção é ser popular. Por outro lado, talvez o nome seja uma grande piada.

Eu estava devendo ao Sérgio algumas considerações sobre o meu uso do Twitter, prometidas desde o BlogCamp MG, quando comecei a empregar a ferramenta. Nesse época fiz uma pequena cobertura do evento tanto pelo Twitter quanto pelo blog para experimentar as diferenças entre os dois modelos. Como eu nunca havia defendido o uso do Twitter, o Sérgio, que também não vai muito com a ferramenta, ficou curioso sobre a questão. Aliás, em meu primeiro uso do Twitter, fiz uma referência a essa dualidade na minha posição.

Eu não vou dizer que cheguei a uma grande revelação sobre o Twitter até pelo fato de que meu uso do mesmo é esporádico–para não dizer inconstante. Embora eu tenha continuado a postar comentários no mesmo em cima do moto de dizer o que eu estou fazendo no momento, não posso ser considerado um usuário pesado.

A única conclusão real que eu cheguei em relação ao mesmo foi que o Twitter reduziu as barreiras no uso de uma tecnologia próxima, o IRC. Esta última sempre foi muito popular mas é dependente de ferramentas específicas na forma de um cliente mais pesado e da escolha seletiva dos canais aos quais a pessoa quer se subscrever. O que o Twitter faz é mudar a equação criando uma nova forma de subscrição baseada em pessoas e não em canais. Obviamente, por ser baseado em pessoas, o foco é muito mais esparso, mas o surgimento de técnicas de tracking de assuntos específicos resolve isso em uma certa medida.

Esse efeito é visto principalmente na coordenação e acompanhamento de micro-eventos como encontros, conferências e desconferências. Basta criar um canal transiente para monitorar o assunto e a disseminação de informações é facilitada. Não há a necessidade de um cliente específico exceto o navegador e não há a dificuldade em manter uma conversa entre os participantes como aconteceria em uma ferramenta de instant messaging comum.

Por baixar essa barreira, a única vantagem do Twitter para mim é manter uma apanhado geral do zeitgeist das pessoas que estou seguindo e, com um pouco mais de distância, das pessoas que elas estão seguindo. O resultado é uma pequena consciência, se as pessoas certas forma escolhidas–certas no sentido de que são amigas pessoais ou transitam o seu mercado de interesse–daquilo que está acontecendo no momento. Tirando isso, minhas outras ressalvas permanecem.

O Twitter é uma ferramenta barulhenta, que tem um potencial enorme para atrapalhar a produtividade pessoal se mal utilizado. Mais do que IM, por causa da liberdade de não ter que pedir licença: se você segue alguém, a licença está implícita. O fluxo de consciência gerado pelo Twitter depende de um investimento de tempo que, para aqueles que tem dificuldade de segmentar sua atenção, pode ser muito problemático.

Da mesma forma, o zeitgeist acima citado pode ser duvidoso já que consiste em uma janela tão pequena como os blogs que você segue–ou talvez ainda menor. Se você segue pelas relações de mercado, não há muito problema já que o importante é manter essas relações. Se você segue em busca de insights, aqui há dragões.

Tudo isso dito, eu devo continuar a usar o Twitter com as mesmas restrições que aplico ao meu uso de IM. Eu procuro seguir à risca as convenções expressas nas mensagens de status e me dou o direito de ignorar mensagens quando meu status não está aberto. No caso do Twitter, isso implica em um uso liberal do comando off.

Se há uma ilustração útil para fechar este comentário é que o Twitter terceirizou (ou globalizou) a conversa de escritório. As mesmas restrições se aplicam. E aqueles que acham que o seu chefe não está lendo o que você escreve no Twiiter, cuidado: ele pode estar ouvindo sobre o seu ombro sem que você perceba.

Facebook e Google apoiando o DataPortability Workgroup

January 8th, 2008 § 0 comments § permalink

O blog Read/Write Web está reportando–com um considerável entusiasmo–que tanto o Google quanto o Facebook se juntaram ao DataPortability Workgroup. Eu não encontrei a notícia no site do próprio Workgroup mas vindo do Read/Write Web é algo com uma boa probabilidade de estar correto. É curioso, inclusive, ver isso logo depois da controvérsia em relação à remoção da conta de Robert Scoble por parte do Facebook (1, 2).

Esse grupo, que eu já mencionei aqui antes, está trabalhando em iniciativas para permitir o reuso e transferência de dados transparentemente de site para site. Há uma enorme quantidade de desafios tecnológicos para vencer até que isso seja algo natural na Web e a presença das duas maiores companhias sociais da atualidade é algo que vai dar um novo grau de legitimidade ao projeto–especialmente considerando as pessoas que que representaram cada uma das companhias.

Com um dos documentos gerados pelo grupo (ainda bem na fase inicial) mostra, um dos objetivos primários é reutilizar tecnologia e formatos existentes e procurar integrar ao máximo antes de procurar novas alternativas tecnológicas para o que não estiver funcionando. Essa é uma boa estratégia porque representa maior facilidade na adoção.

Com a entrada do Google e Facebook, o eventual surgimento de uma API generalizada por representar uma transformação em basicamente todas as aplicações que estão surgindo e se popularizando no momento, sem contar a eventual integração de dados ao longo de empresas e seus clientes. É uma visão grandiosa e, claro, efetivamente centrada na capacidade de gerenciar as questões de privacidade por trás da movimentação dos dados.

Mas, como o artigo do Read/Write Web diz, pode representar também mágica para o desenvolvimento da Web. É o que esperamos.

Facebook versus Scoble: o outro lado do moeda

January 4th, 2008 § 0 comments § permalink

Parece que metade da Web, esse que lhes escreve incluído, falou cedo demais ontem. Embora o Facebook realmente esteja se tornando um local onde alguns dos problemas mais sérios da Web estão sendo verificados em situações de uso real, a história com o Scoble tinha um lado completamente diferente.

Pelas últimas notícias, o que Scoble realmente andava fazendo era testar uma ferramenta da Plaxo, competidora do Facebook, que serve para migrar dados de uma rede para outra. Como certos dados não são acessíveis pela API do Facebook, a ferramenta da Plaxo usa scraping para obter os mesmos. E como em última instância isso é indistingüível de um ataque para obter informações que seriam depois usadas para spam, um banimento automático aconteceu.

O resultado final é que o Facebook estava mais certo do que o Scoble na história. O bom de tudo isso é que uma nova discussão comecou em torno do que constitui seus dados e o que constitui os dados de outras pessoas no que tange ao grafo social. Essa é uma discussão que já estava acontecendo entre os interessados mas que se expandiu agora para uma maior fatia da população tecnológica. O Facebook, pelo visto, vai continuar sendo o campo de provas da Web quais sejam os resultados.

Facebook: o campo de provas da Web

January 3rd, 2008 § 2 comments § permalink

Pela segunda vez em pouco mais do que dois meses, o Facebook se vê com uma situação nas mãos que é, essencialmente, impossível de controlar. Considerando o tamanho, a influência e o tipo de usuários do Facebook, isso é excelente para o futuro das aplicações Web em geral.

Da primeira vez, foi a controvérsia sobre o Facebook Beacon, a aplicação de anúncios dentro do Facebook que usava informações obtidas em outros sites participantes e o próprio grafo social do usuário para maximizar a contextualização dos anúncios. O problema era que um usuário não podia optar por não usar o produto e informações privadas acabam sendo passadas para amigos relacionados ao perfil do usuário. O resultado foi uma tempestade de protestos que acabou levando a mudanças significativas no modo como o produto funciona.

A controvérsia de hoje é a remoção da conta de Robert Scoble por violar os Termos de Uso site. Scoble estava usando um script para recolher informações do seu perfil já que o Facebook não permite qualquer forma de exportação de dados e foi banido por isso. A controvérsia já começou sobre o assunto e no momento há uma tempestade em formação no Techmeme. Scoble é um power-user do Facebook e um A-lister cuja opinião conta muito para os usuários mais avançados que, em última instância, foram determinantes durante o problema do Facebook Beacon.

O que eu acho interessante e significativo sobre a situação é que o Facebook está se provando um excelente local para testar o que os usuários permitirão ou não em termos de seus dados e privacidade na Web. O Facebook já gerou uma resposta forte dos outros envolvidos na forma do Open Social por causa da sua atitude de jardim murado. Com o cancelamento da conta do Scoble, o Facebook acabou providenciando o maior argumento possível para a portabilidade de dados sem que os críticos precisassem de fazer qualquer esforço.

Embora seja fácil entender porque o Facebook deseja prender seus usuários, esse tipo de padrão está com os dias mais do que contados e é bem possível que o banimento do Scoble seja o evento que forçará o Facebook a admitir isso. Uma boa possibilidade é que eles mesmos criem um padrão de portabilidade que possa ser incorporado ao Open Social, revertendo o enorme problema de relações públicas que tem em mãos no momento.

Esse tipo de prova público do que os usuários vão tolerar é fundamental para o surgimento de novas políticas de trabalhar com dados de terceiros e serve também como um bom aviso para quem está colocando as suas fichas em serviços fechados que não permitem uma remoção de dados rápida mesmo depois de restrições válidas às contas em questão. Ainda é cedo para ver o impacto completo do problema atual nesse tipo de política, é claro, mas os próximos dias e meses serão interessantes.

Dreaming in Code

August 14th, 2007 § 7 comments § permalink

Dreaming in Code é um livro sublime. Escrito por Scott Rosenberg, um dos fundadores do Salon, o livro é ao mesmo tempo uma tentativa de cronicar o projeto Chandler e responder a maior questão do desenvolvimento de aplicações: por que desenvolver é tão difícil?

Como seu próprio sub-título diz, o livro é a história de duas dúzias de programadores, três anos, 4.732 bugs, e uma busca por um software transcendente.

Quem trabalha no ramo há mais tempo deve se lembrar do auspicioso começo do projeto Chandler, nos idos de 2001. Chandler é um gerenciador de informações pessoais e tinha o objetivo ambicioso de resolver de uma vez por toda o problema de organização das informações combinadas que uma pessoa precisa no seu dia a dia.

O projeto despertou um enorme interesse na época por uma combinação de fatos que pareciam destiná-lo a um sucesso rápido e permanente: era um projeto de código aberto, bancado quase que completamente por Mitch Kapor–que fizera fama e dinheiro com o Lotus 1-2-3 e tinha o necessário para investir pesadamente em um projeto assim–e com uma lista de características que prometia revolucionar a área.

Em 2003, chegou a ser chamado pela Wired de um Outlook Killer e o lançamento de suas primeiras versões foi tão ou mais aguardado do que uma nova versão do Windows.

Hoje, seis anos depois do lançamento do projeto, ainda não passa de uma versão alpha com somente a parte de calendário utilizável.

O que Scott Roseberg faz em em seu livro é documentar três anos da história do projeto, mostrando a extrema dificuldade de transformar a idéia de Mitch Kapor em realidade e quais são as lições que essas dificuldades implicam. Rosenberg abre as cortinas por trás de um projeto de código aberto que tinha tudo para dar certo e cujo sonho ainda permanece elusivo. E por trás de cada evento narrado, cada comentário feito, a grande questão: porque desenvolver algo utilizável é tão complicado?

Misturando-se à narrativa linear do projeto, Rosenberg faz uma análise extensiva do indústria de software, mostrando que desde os seus primórdios, nenhuma evolução ou revolução da área conseguiu responder a questão.

O livro, nesse sentido, é uma verdadeira aula de história do campo, passando pelos mainframes, cruzando a fronteira da computação pessoal, subindo ao nascimento da Web e descendo daí até os dias atuais com o mercado dominado por start-ups que duram menos tempo do que suas idéias. No caminho, sistemas de hipertexto, NLS e mesmo o Ruby on Rails aparecem para ilustrar um ou outro aspecto da questão.

Eu confesso que enchi o livro inteiro de anotações–sorrindo com os casos compartilhados (Rosenberg tem um talento especial em narrar os fatos e eventos mais relevantes do campo), concordando e discordando com as opiniões propostas. O livro é um verdadeiro diálogo com o leitor, que ao acompanhar o que Rosenberg está escrevendo, não pode deixar de pensar que por mais mecânica que a área seja, o que está em jogo são pessoas, a que são as limitações e o gênio dessas mesmas pessoas é que se traduz no que a área é hoje.

O livro termina com a primeira versão funcional do Chandler e com a questão em aberto. Mas qualquer programador ou analista–e mesmo usuários–termina o livro sentindo que existe uma beleza por trás do código e que sistemas não são algo frio e meramente funcional, mas uma representação da complexidade que transformar esse mesmo código em algo transcendente, algo além de meros sinais em um circuito.

BarCamp, descomprimindo

March 27th, 2007 § 5 comments § permalink

O Sérgio Lima e o Luiz Rocha já fizeram suas respectivas descompressões do BarCamp e eu achei apropriado dar uma finalizada naquilo que experimentei também. O evento teve uma repercussão imensa (1, 2) na blogosfera brasileira e como não poderia deixar de ser, teve gente que gostou e teve gente que odiou.

Como eu nunca tinha participado de um evento similar, eu tive uma experiência ótimo. Os motivos que me levaram a ir foram duplos: primeiro, eu queria conhecer o pessoal que ia, gente que está no meu blogroll há muito tempo e que eu nunca tinha visto pessoalmente; segundo, a idéia do evento, um conferência sem palestrantes e sem tema, me atraía bastante.

O resultado é que eu achei a experiência incrível. Conheci muita gente que eu queria conhecer, e até quem eu não queria; ouvi discussões interessantes; participei de outras também interessantes; e, de uma maneira geral, me diverti muito.

O Sérgio apontou inicialmente o que o Luiz disse, mas não custa repetir aqui:

[O BarCamp passa] longe de ser um oráculo, diga-se de passagem. Nenhuma resposta apareceu durante o evento. Mas muitas vezes, é muito mais importante refinar e melhorar a pergunta do que simplesmente fazer uma masturbação mental tola em busca da resposta.

Concordo plenamente. O BarCamp não era um evento para quem estava achando que haveria algo mais do que a sabedoria (ou imbecilidade) coletiva dos participantes. Dito isso, alguns pontos específicos:

Não tinha gente de peso
Sinceramente, eu fico até feliz que o evento não tenha sido dominado por gente de peso. Tudo bem, havia os famosos da blogosfera e, de certa forma, eles dominaram algumas sessões. Mas de resto, o evento foi realmente comunitário. Tinha gente que queria ver luminares da publicidade, ciência, educação. Se fosse para ver esse pessoal repetir conceitos ultrapassados, eu não teria me dado ao trabalho de sair de Belo Horizonte. Caramba! Na verdade, vai até além disso. O BarCamp foi criado como uma resposta ao FooCamp, que também é uma desconferência, mas elitista. Se houvesse gente de peso, provavelmente eu não teria nem conseguido entrar, mero blogueiro que sou. Para bem ou para mal, eu queria ouvir o que meus peers pensam. Se a visão que eles tem das coisas pelas quais me preocupo bate com a minha ou não. E não, por quê. Eu não quero ficar sentando uma palestra ouvindo um publicitário famoso dizer como está usando blogs para promover seus produtos. Been there. Done that.
As palestra foram dominadas por assuntos pelos quais eu não me interessava
Confesso que eu mesmo reclamei disso. Foi necessário um comentário do André Avório para que eu parasse e pensasse que, se não houve palestras sobre os assuntos que eu queria ouvir, foi porque eu não corri atrás e fiz acontecer. Ironicamente, como respondi a ele em outro comentário, até o nome do meu blog deveria ter me alertado para meu erro. Eu dei esse nome ao blog porque sempre vi a blogosfera como um imenso salão de espelhos, onde as imagens se repetem, se contorcem, se fundem, se transformam e criam algo novo no processo. O BarCamp também é um salão de espelhos e a experiência que se tira dele está diretamente ligada à sua própria ação no mesmo. Não há nada de místico aqui. No segundo dia, eu juntei um pessoal que queria falar sobre desenvolvimento Web, algo que não tinha surgido no primeiro dia, e aconteceu uma boa discussão. Pelos comentários, relatos e e-mails que recebi depois, várias pessoas acharam excelente a nossa pequena conversa. E isso provou, pelo menos para mim, que o BarCamp funciona.
Os melhores papos rolaram do lado de fora
Ótimo! Se o evento é uma desconferência, essas reuniões do lado de fora são despalestras. A natureza ad-hoc do evento tinha justamente a intenção de criar o clima necessário para esse tipo de intercâmbio. Pensando nisso depois, eu percebi que, para muitas das palestras sobre as quais o pessoal reclamou, houve uma contra-palestra do lado de fora. Mais um motivo para eu ter gostado, a despeito das minhas reclamações iniciais.

Esse texto não é uma tentativa de dizer que o BarCamp foi isento de problemas. Mas, mesmo considerando os problemas, o resultado foi fantástico. Meu irmão (não consigo que o dito cujo se anime a ter um blog de jeito nenhum) organiza várias conferências por ano e ficou bem empolgado com a idéia porque ela dá uma voz ativa a todos os participantes. Concordo. Além disso, várias sessões aconteceram com o único propósito de melhorar o formato, facilitar a ignição das conversas e fornecer ferramentas mais ágeis para os participantes.

Tampouco é uma tentativa de criticar quem achou que o evento foi ruim. É só uma tentativa de apontar algo da compreensão que eu ganhei sobre o evento. Fabião, não fique bravo!

Resumindo algo que já está mais longo do que eu gostaria, espero ter a oportunidade de participar de outros eventos similares e, quem sabe, organizar ou ajudar a organizar um deles aqui em Belo Horizonte. Se apenas eu pudesse evitar as fotos, principalmente as que deixam sua incipiente careca à mostra…

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