Balanço cultural de novembro

December 11th, 2008 § 2 comments § permalink

Também com alguns dias de atraso–o novo BlogBlogs foi lançado ontem com sucesso–finalmente tive tempo de escrever o balanço cultural de novembro. Como o mês foi ainda mais movimentado do que outubro, o resultado foi bem pequeno:

  • 4 livros
  • 2 quadrinhos
  • 7 filmes

Nos livros comecei com uma releitura de Atlas Shrugged. Fazia tempo que eu estava querendo revisitar o épico trabalho de Ayn Rand que define sua filosofia objetivista–não por ser um adepto–mas pela força do trabalho. A estória do homem que decidiu parar o motor do mundo e assim o fez é um tour de force em pensamento claro e narrativa forte. Apesar de ser condenado por alguns como verboso e prolixo, eu gosto do modo com Rand apresenta os caracteres e transpõe sua filosofia para o enredo sem acabar em pedantismo. Com exceção do capítulo em que o personagem principal define a filosofia em um discurso, o resto do livro é belo e consegue despertar a mente do leitor para as questões propostas sem incomodar.

O segundo livro foi The Graveyard Book, o novo infanto-juvenil de Neil Gaiman. Leitores regulares conhecem minha admiração perene pelo trabalho de Gaiman e esse livro me deixou tão satisfeito como seus demais trabalhos. Embora Coraline, seu trabalho infanto-juvenil anterior não tenha me agradado tanto, essa releitura d’O Livro da Selva de Rudyard Kipling na estória de um garoto criado por fantasmas é uma delícia de leitura.

Na seqüência li Test-Driven Development by Example, de Kent Beck, um dos maiores evangelistas dessa metodologia. O livro é simples e direto ao ponto mas falha colossalmente em não terminar os exemplos começados. O resultado é a sensação de que os exemplos são artificiais demais. Isso termina passando uma imagem ruim da técnica e deixando o leitor insatisfeito. O livro poderia ter se beneficiado enormemente de mais algumas dezenas de páginas.

Finalmente, li The Name of the Wind, o primeiro de um trilogia de Patrick Rothfuss. Atualmente é muito raro que eu leia um livro que é parte de uma série antes que a mesma esteja fechada. Entretanto o livro recebeu tantos elogios de autores que eu considero muito bons que não resisti e comprei. Não me arrependi. A estória é fascinante e eu devorei o livro. Só para dar o gosto, um pequeno trecho do mesmo (o site do livro contem todo um capítulo):

I have stolen princesses back from sleeping barrow kings. I burned down the town of Trebon. I have spent the night with Felurian and left with both my sanity and my life. I was expelled from the University at a younger age than most people are allowed in. I tread paths by moonlight that others fear to speak of during day. I have talked to Gods, loved women, and written songs that make the minstrels weep.

You may have heard of me.

Nas estórias em quadrinhos, li o primeiro volume das Crônicas de Sandman, também por Neil Gaiman (roteiro, é claro). O primeiro volume compreende as primeiras oito estórias publicadas sobre o Senhor dos Sonhos, todas fascinantes. Como fã de Neil Gaiman eu sou suspeito para falar, mas como sempre ele consegue produzir uma mistura mitológica que é absolutamente impossível não se impressionar com a pura força da estória e a quantidade de referências que Gaiman consegue por em tão poucas páginas. Já estou com os próximos volumes para finalmente corrigir esse problema na minha educação “quadrinística”. :)

Nos filmes, o mês foi razoavelmente melhor que o anterior.

Comecei o mês com Michael Clayton. George Clooney está muito no papel de um advogado envolvido em negócios escusos tentando salvar sua pele e sua família e Tilda Swinton é sempre consistente em seus papéis.

Em um mesmo fim de semana vi There Will Be Blood e No Country for Old Man. É absolutamente assustador o que alguns atores bons conseguem fazer. No primeiro, Daniel Day-Lewis mais uma vez se prova um dos atores mais poderosos de sua geração e no segundo Javier Bardem fornece uma atuação magnífica que me prendeu do começo ao fim. Fica difícil decidir qual dos dois está melhor em seus respectivos papéis e, definitivamente, ambos mereceram todos os prêmios que ganharam.

Quantum of Solace foi bem inferior ao filme anterior na franquia Bondiana mas consegue divertir. Eagle Eye também é divertido mas depende de um furo enorme do enredo para fazer sentido.

Os demais, como sempre, nem valem o comentário. :)

Balanço cultural de outubro

December 6th, 2008 § 1 comment § permalink

Com mais de um mês e meio de atraso–falta de tempo com o lançamento próximo do BlogBlogs e viagens diversas–consegui escrever sobre os livros e filmes vistos em outubro. O resultado do mês foi:

  • 7 livros
  • 10 filmes

Nos livros, o primeiro que li no mês foi Emissaries from the Dead, de Adam-Troy Castro. Eu já tinha lido alguns contos do autor, todos excelentes–inclusive, seu conto The Tangled Strings of the Marionettes é um mais belos e nostálgicos que eu já li–e ao encontrar o livro na Livraria Cultura resolvi comprar. O livro se passa em um futuro onde a humanidade é uma de milhares de raças que habitam a galáxia e não uma das particularmente melhor posicionadas. Quando um assassinato acontece em uma missão diplomática humana em uma colônia artificial criada por uma AI, uma diplomata humana deve investigar a situação sem implicar os criadores da colônia. O resultado é uma novela detetivesca bem decente que peca apenas em seus momentos finais ao tentar condensar muita informação em infodumps que acabam não sendo tão interessante. Mesmo assim, se houver uma continuação, está na minha lista.

Seguindo, li Equal Rites, de Terry Pratchett. É um dos livros mais antigos do mundo Discworld e com a cômica premissa de uma confusão em torno de passagem de poder entre magos que resulta na primeira mulher nessa posição em toda história do Discworld. Como todos livros do Pratchett, o humor é bem sarcástico e mórbido. E como nos primeiros livros do Pratchett, o final é bem fraco, fechando a história mas sem tanto impacto.

O próximo livro foi Agile Software Development with Scrum, de Ken Schwaber e Mike Beedle. O livro foi um dos primeiros a popularizarem o Scrum com uma metodologia/filosofia/processo aceitável de forma geral. O livro consegue um bom balanço de didática e evidência anedótica e explica bem os conceitos por trás do processo. Para quem não tem conhecimento algum ou está começando, é uma boa leitura introdutória.

Continuando, li Doomsday Book, de Connie Willis. O livro ganhou tanto o Hugo quanto o Nebula em sua publicação e a autora é bem conhecida por trabalhos fortes e contemplativos. A estória do livro é sobre uma estudante de História que consegue autorização para viajar ao ano de 1320 para estudar localmente os hábitos da Idade Média. Infelizmente, uma crise ligando o passado e o futuro interfere e ela se vê lançada em uma época muito pior tendo que lidar com situações inesperadas e dolorosas. O livro é belo em suas descrições e enredo mas acaba sendo um tanto ou quanto previsível. O final, em particular, pode ser visto de longe. Mesmo assim, vale a leitura pela força narrativa.

O livro seguinte foi A Fila sem Fim dos Demônios Descontentes, de Bruna Beber. Eu sou super-suspeito para falar já que a Bruna é colega de trabalho e me deu o livro de presente, mas eu realmente gostei da poesia da garota. A Bruna é carioca tresloucada e extremamente competente no que tange à escrita e isso se reflete claramente em seus poemas. :-) De pequenos e doces arranjos a poemas fortes e contundentes, ela consegue uma série de textos memoráveis que valem leituras repetidas.

Quase fechando o mês, foi a vez de The Enterprise and Scrum, também do Ken Schwaber. O livro é quase uma revisão do Agile Software Development with Scrum com aplicações para empresas de porte maior. O livro falha razoavelmente ao tentar cobrir muito material em pouco espaço que faz do mesmo quase uma coleção de apêndices. Vale correr o olho, mas não acrescenta muito ao corpo de material existente.

Finalmente, terminei o mês com The Black Swan, de Nassim Nicholas Taleb. O livro foi aclamado como um dos melhores do ano pela sua suposta explicação de eventos improváveis, mas confesso que, se a explicação está lá, ela está misturada e perdida em meio a centenas de divagações e digressões em que o autor mistura pseudo-ciência, fatos de sua vida e uma atitude de superioridade que com certeza agrada a fãs de verbosidade e explicações “rebuscadas”. O livro tem alguns méritos em quebrar algumas concepções, mas é pouco mais do que uma compilação do que outros autores vem falando há vários anos sob um verniz de modernidade e erudição. Boring, boring, boring.

Nos filmes, foi um mês bem fraco. Tirando o belo The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford e interessante 3:10 to Yuma, os demais quase não valem o comentário. Desses dois, o primeiro consegue demonstrar muito bem a ambigüidade por trás dos fatos conhecidos sobre a relação entre Jesse James e Robert Ford e o segundo consegue resgatar muito bem o espírito real do primeiros filmes e livros de faroeste.

The Invasion, em contrapartida, consegue ser mais um caro e fracassado remake de um bom filme. Há diretores que realmente acreditam que uns poucos sustos e atores famosos são suficientes para convencer uma platéia de que um filme tem estória. Hitman é um fiasco de execução que nem a bela Olga Kurylenko consegue salvar (inclusive, parece que o diretório de Quantum of Solace pensou a mesma coisa que o diretor de Hitman). Finalmente, P.S. I Love You poderia ter sido um belo filme sobre morte e recuperação mas se transforma em um drama barato e choroso.

Os demais filmes realmente dispensam comentários.

Balanço cultural de setembro

October 17th, 2008 § 0 comments § permalink

Como o mês foi bem movimentado, acabou que não deu tempo de escrever sobre o que andei lendo e assistindo nos últimos tempos. O resultado de setembro foi:

  • 8 livros
  • 12 filmes
  • 12 episódios de séries

Nos livros, comecei o mês com Linked, do Albert-László Barabási. O livro é essencialmente uma narrativa da história em torno da pesquisa sobre redes e o que essa pesquisa significa para as várias áreas de conhecimento humano. Barabási é famoso pela sua participação em vários dos trabalhos seminais sobre o assunto e oferece uma visão simples e ao mesmo tempo ampla sobre o assunto em um livro que leigos podem aproveitar inteiramente. Aliás, é um excelente livro para ilustrar alguns aspectos da recente crise econômica para quem deseja entender um pouco mais sobre a fragilidade de redes.

Seguindo, foi a vez de The Last Colony, o terceiro volume na trilogia Old Man’s War de John Scalzi. Esse é o volume mais fraco da série, sem tanta caracterização e com uma linha narrativa um pouco convoluta mas ainda é divertido o suficiente para valer a pena completar a trilogia. Nesse livro, John Perry e sua agora esposa Jane Sagan voltam para liderar uma colônia nova a pedida da União Colonial e acabam se envolvendo em um conflito de proporções enormes que pode ameaçar a própria espécie humana.

Depois disso, foi vez de Infoquake, por David Louis Edelman. Esse é o primeiro volume em um trilogia chamada Jump 225 e é um começo bem promissor. Edelman cria um futuro onde humanos utilizam tecnologia rotineiramente para atualizar seus corpos e os programas para isso são comercializados em um ecossistema econômico dinâmico, extremamente volátil e perigoso. O livro acompanha a trajetória de um jovem empresário que deseja subir ao topo desse mundo e se envolve com uma nova tecnologia chamada MultiReal que promete revolucionar complemamente o mercado. Natch, o protagonista, é manipulador e inescrupuloso, e ainda assim, simpático, o que tornar a narrativa bem interessante.

O quarto livro do mês foi Brasyl, por Ian McDonald. McDonald passou três meses no Brasil pesquisando para o livro e a estória se passar em torno de três possíveis versões do Brasil: uma no século 18, seguindo um agente jesuíta nas selvas amazônicas; uma em 2006, seguindo uma produtora de reality shows no Rio de Janeiro; e uma em 2032, seguindo um jovem empresário em São Paulo. As três estórias se juntam em uma misteriosa tecnologia que permite a movimentação por entre os múltiplos possíveis mundos. McDonald fez o seu trabalho e mostra um razoável conhecimento geográfico do Brasil, conseguindo inserir isso na trama, mas, como qualquer autor estrangeiro tentando fazer a mesma coisa, falha miseravelmente em várias áreas culturais. O livro é ao mesmo tempo intrigante e frustante nesse aspecto. Vale a leitura, mas o leitor deve se preparar para várias concepções erradas sobre o Brasil.

Seguindo, reli Ender’s Game, o livro mais famoso de Orson Scott Card. Fazia tempo que eu não revia a estória de Andrew Wiggins e sua preparação para lutar contra os buggers, uma espécie alienígena que ameaça a Terra. O livro é considerado um dos maiores clássicos de SF tanto pela caracterização feita por Card quando pelas surpresas e a nova leitura foi tão interessante quanto as anteriores. A surpresa final da primeira leitura foi substituída pela compreensão das sutilezas que Card acrescenta à narrativa e isso prova a força original do livro. Vale a leitura repetida.

Depois disso, li o diminuto Whatever You Think, Think the Opposite, por Paul Arden. O livro se apresenta com uma série de conselhos para o sucesso mas acaba sendo um monte de clichés sobre como supostamente viver sua vida de maneira diferente e como oposto do usual é o ideal. Bobinho e nada inspiracional.

O penúltimo livro do mês foi The Lions of Al-Rassan, por Gavriel Guy Kay. O livro se passa no mesmo mundo de The Last Light of the Sun, que eu havia lido anteriormente e é igualmente evocativo e doce-amargo. Kay consegue mostrar um mundo inteiramente real e povoado por pessoas que você quase consegue acreditar terem existido como figuras históricas. Neste livro, a inspiração vem dos Mouros, no fim de sua época de dominiação árabe sobre a península ibérica, e a subseqüente Reconquista. A estória segue a vida de dois homens cujos destinos os colocam primeiro em favor um do outro e depois contra o outro a serviço de seus respectivos monarcas e povos. No meio disso, o destino das mulheres que amam, filhos e aliados tornam a estória inteiramente crível e marcante. Kay é certamente um dos melhores autores de ficção histórica atualmente e esse livro prova sua força mais uma vez.

Para fechar o mês, li The Difference Engine, uma colaboração entre William Gibson e Bruce Sterling que reconstrói a época vitoriana da Inglaterra em um mundo em que Babbage conseguiu desenvolver seu computador mecânica e a Revolução Digital aconteceu ao mesmo tempo que a Industrial. O livro é mais uma apanhado de estórias que se passam durante essa época, ilustrando diversos aspectos da sociedade, do que um todo coerente. Como muitos outros leitores, eu senti que esse aspecto tirou qualquer graça do que poderia ter sido um fascinante exemplo de steampunk.

Nos filmes, comecei o mês com American Gangster. Denzel Washington, como de costume, está soberbo em sua interpretação de Frank Lucas, um rei da heroína dos anos 70 em Manhattan, e Russell Crowe também não está tão ruim. Não chega aos pés de Dia de Treinamento, mas vale a pena.

Hellboy 2, o filme seguinte, decepcionou um pouco. Enquanto o primeiro era cheio de humor, bem acabado e com uma estória que fazia sentido em todos aspectos, o segundo pareceu uma desculpa para mostrar efeitos especiais. A estória é quase inexistente, a interpretação de alguns atores bem forçada e os efeitos visuais dão a sensação de que o filme se chama O Labirinto do Fauno. A única coisa razoável foi a representação dos “elfos” do filme.

The Happening foi mais uma prova de que M. Night Shyamalan deveria se dedicar a fabulas e esquecer filmes de suspense. Ele só consegue suspense corretamente quando tenta fazer outra coisa. O filme é grotesco na falta de mistério e nas tentativas patéticas de dar sustos no espectador.

O filme seguinte foi Shoot ‘Em Up que é uma comédia de ação com Clive Owen, que no filme é um pistoleiro que resgata um bebê de ser morto por “homens de preto” e tem que proteger o pimpolho com a ajuda de um prostituta e sua infalível mira. Cine pipoca de primeira qualidade para ser visto sem preocupação com a verosimilhança de qualquer coisa.

The Kingdom é um tentativa de mostrar que terrorismo gera terrorismo e que tudo pode ser visto de ângulos diferentes e explicado assim, mas também falha em porque tenta ser tudo ao mesmo tempo, um filme de ação com uma mensagem filosófica que acaba não dando em nada.

21, baseado na história do grupo de contadores de cartas do MIT é razoavelmente interessante, mas não chega a ser tão bom quanto as críticas levaram a crer. O tema é legal, mas acreditar que o tipo de ação representada no filme poderia enganar a segurança de um cassino por mais do vinte segundos é pedir demais. Tudo bem que o filme precisa de amenizar as coisas para a audiência, mas o resultado foi bem exagerado e tira um pouco da graça do filme.

O último destaque do mês foi Tin Man, uma deliciosa reinvenção de O Mágico de Oz com um tom de ficção cientifíca e steampunk. Os demais filmes, infelizmente, foram uma perda de tempo.

Balanço cultural de agosto

September 10th, 2008 § 8 comments § permalink

Agosto deu para ler um pouco mais e também para assistir mais filmes. No balanço, o resultado do mês foi:

  • 9 filmes
  • 7 livros
  • 2 contos e/ou noveletas

Comecei o mês lendo The Elegant Universe, por Brian Greene. Li uma edição um pouco mais antiga, mas ainda extremamente interessante como uma visão histórica do surgimento da teoria das cordas, começando com o surgimento da física moderna e terminando com as questões que atormentam os físicos teóricos atualmente. Para quem não tem conhecimento (ou tem pouco conhecimento) do que está acontecendo na física moderna, o livro é uma preciosidade. E mesmo para quem já tem um conhecimento razoável, a apresentação bem compreensiva que o autor faz do assunto releva novas facetas e novos assuntos para posterior leitura. Estou agora para ver o filme baseado do livro, que pelo que ouvi falar parece ser igualmente interessante e mais atualizado.

O segundo livro que li foi o controverso The God Delusion, de Richard Dawkins. Dawkins é famoso no meio científico por sua defesa fanática do evolucionismo e de sua repugnância a qualquer forma de religião. O livro, obviamente, é uma apresentação do pensamento de Dawkins sobre sua idéia da religião como forma de ilusão–ou delírio–considerando a possível improbabilidade da existência de Deus. Eu não vou entrar em detalhes sobre cada aspecto do livro–a controvérsia foi grande tanto a favor como contrário. Embora eu seja suspeito para falar, o livro me pareceu honesto o suficiente dentro da perspectiva do autor embora alguns problemas sejam evidentes: Dawkins não cita e não responde a qualquer dos pontos de vista alternativos mais modernos (por exemplo, ele se fixa em Aquinas quando a maioria dos teólogos modernos já responde melhor aos argumentos deste último); Dawkins falha também em levar em conta o nominalismo; e finalmente algumas generalizações são abrangentes demais para servirem como básica lógica.

O terceiro livro foi Rollback, de Robert J. Sawyer. O livro conta a estória de um casal já na sua oitava década de vida que se vê em uma situação inusitada: a esposa, Sarah, foi responsável, 40 anos antes, por decodificar a primeira transmissão alienígena recebida pelo SETI. Quando uma nova transmissão chega, um magnata oferece um tratamento revolucionário de rejuvenação para que Sarah possa decodificar e responder à nova mensagem. Ela concorda, com a condição de que seu marido receba o mesmo tratamento que custa alguns bilhões de dólares por pessoa. O tratamento funciona, mas somente para o marido e Sarah e Don, o marido, se vêem as voltas com o mistério da mensagem e com o novo relacionamento ditado pelas circunstâncias. Como nos outros livros de Saywer que li, é impossível não se sentir tocado pelos eventos que os personagens vivem e pelos temas que o autor desenvolve tão bem.

Depois foi a vez de Lazy of Mazes, de Karl Schroeder. O livro se passa no mesmo universo de Ventus, embora não seja uma prequel é uma space opera futurística/pós-Singularidade no melhor estilo possível. Como nos demais livros de Schroeder, a trama é complexa o suficiente para impossibilitar uma descrição simplificada, mas essencialmente é a estória de amigos que perdem tudo o que tem e precisam embarcar em uma jornada para tentar recuperar o que perderam, se envolvendo com um mundo muito maior do que imaginavam existir. Misture isso com um cenário trans-humanista e você tem possibilidades além do que se vê no dia-a-dia da ficção científica.

Na sequência, li The Ghost Brigades, de John Scalzi. Esse é o segundo livro da trilogia começada com Old Man’s War e continua com a tradição de uma boa space opera com a exceção de que as cenas de ação me parecerem um pouco forçadas e repetitivas. Scalzi cresceu como autor, colocando mais profundidade em seus personagens e a estória continua divertida e compulsivamente legível. De fato, tirando o pequeno problema com as cenas de ação, gostei tanto do livro quanto do primeiro.

O livro seguinte foi outro por John Scalzi, The Android’s Dream. O livro é a estória de uma crise diplomática galáctica entre a Terra e um de seus aliados e os participantes, muito a contragosto, nas confusões que se sucedem a partir daí. Para um livro que começa com uma longa piada sobre peido, o resto consegue ultrapassar a ironia inicial e se firmar com uma divertida comédia de ficção científica. Mais uma vez, tirando a fraqueza das cenas de ação, que me pareceram ainda mais forçadas que nos outros livros de Scalzi, a prosa é rápida e divertida. Vale a pena a leitura.

Fechei o mês nos livros com Matter, de Iain M. Banks. Esse é o oitavo livro de Banks em sua série The Culture. Como os demais livros da série–que podem ser lidos independentemente–a estória é absolutamente fascinante e a única coisa a reclamar é que o livro acaba. Banks conseguiu criar o que provavelmente é o universo mais fascinante da ficção científica e cada livro revela uma faceta nova, irônica, elegante e surpreendente do universo. Eu nunca escrevi muito sobre aqui, porque acho extremamente difícil capturar o brilhantismo de Banks na série mas recomendo incondicionalmente a leitura. O trabalho de Banks já foi descrito como intoxicante e a série é isso e mais um pouco.

Nos contos, duas belas estórias em Pol Pot’s Beautiful Daughter e Pi in the Sky (link no comentário).

Nos filmes, comecei com 1408, suspense baseado no trabalho de Stephen King sobre um quarto de hotel realmente mal-assombrado que elimina todas suas vítimas. Nunca li o conto que deu origem ao filme, mas como sempre a adaptação não chega a assustar ou a convencer.

The Mummy 3, repete o sucesso dos anteriores na bilheteria mas não a graça do primeiro filme. Dá para rir um pouco com as aventuras e desventuras de Brendan Fraser na pele do atrapalhado Rick O’Connel mas a substituição de Rachel Weisz, a face sem emoções de Jet Li e a estória não tão empogante deixam um filme que diverte um pouco mas não chega a convencer.

Surf’s Up, por outro lado, é absolutamente hilário e tocante, narrando a estória de um pingüim surfista em um estilo semi-documentário que lembra o melhor de Shrek e Monstros S/A. A estória é usual mas o modo como ela é contada e a excelente animação e diálogo tornam o filme memorável.

Depois disso assisti Blade Runner, the Final Cut que não difere tanto dos anteriores exceto pelo que o diretor agora considera a estória correta. Valeu mais por rever um enorme clássico do que por acrescentar alguma coisa de novo.

Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull conseguiu manter o mesmo ritmo dos demais filmes anteriores a tal ponto que não parece haver uma distância de 20 anos entre o mesmo e o filme anterior. Mudando um pouco da linha história ficcional para ficção científica, releva um lado novo de Jones e abre espaço para possíveis continuações com o queridinho de Hollywood Shia LaBeouf.

Finalmente, Wanted é uma divertida adaptação pipoca da graphic novel de mesmo nome. Eu confesso que adoro estórias sobre assassinos e o filme não desaponta nesse fator. A criação da Fraternidade é mais um motivo interessante na literatura/visual do gênero e vale a pena só por isso.

Os demais filmes, como sempre, não merecem nem a citação. Próximo mês, mais livros.

Balanço cultural de julho

August 22nd, 2008 § 1 comment § permalink

Julho foi um mês um pouco mais tranqüilo em termos de leitura e deu para manter a média dos meses anteriores. No balanço, o mês ficou assim:

  • 5 livros
  • 5 filmes

Nos livros, comecei o mês com uma releitura de Mordant’s Need, um série de fantasia em dois volumes por Stephen R. Donaldson que, como leitores regulares do blog sabem, é um dos meus autores favoritos. Esses são dois de meus livros de fantasia favoritos, não só pela maestria na escrita quando pela uso imaginativo de novas formas de mágica e pelas voltas e reviravoltas no que de outra forma seria uma estória comum. Lidando profundamente com o tema do que é realidade, também não é um livro que se preocupa somente com uma estória fantástica a ser contada mas também com reflexões sobre a natureza do que somos. Como qualquer coisa do Donaldson, mais do que recomendado.

O mês continuou com Flash, o primeiro livro por L. E. Modesitt que eu leio. O livro se passa em um futuro suficientemente distante para que o mundo tenha passado por várias transformações significativas—como o fim dos EUA e o nascimento de uma nova nação englobando toda a América do Norte, o surgimento e banimento de inteligências artificiais, e a chegada de uma economia de quase pós-escassez onde mega-corporações disputam o mercado através do uso cuidadoso de propagando ultra-localizada—e conta a estória de Jonat deVrai, um ex-militar que saiu dos Marines por não mais concordar com o uso de forças militares por parte de corporações em detrimento do povo e que agora vive com um consultor de prod-placement. Ao aceitar um contrato de consultoria pouco usual, deVrai se vê jogado no meio de uma conspiração e precisa usar suas antigas habilidades para se proteger e descobrir como sair da situação em que se encontra—contando com aliados interessantes. Boa estória que não chega a alcançar grande profundidade mas diverte mesmo assim.

Depois foi a vez de A Journey in Grace, por Richard Belcher. O livro é uma crônica ficcional da juventude de uma pastor narrando o período em que ele se defrontou e aceitou o Calvinimo como sua visão teológica. Em paralelo com essa descrição, o livro apresenta a vida do pastor como um contraponto aos excessos possíveis do Hipercalvisnismo e Arminianismo. Esse contraponto, eu confesso, foi bem mais interessante do que a parte teológica que, como na maioria dos livros sobre Calvinismo, sofre de pouca análise e de uma recorrência a argumentos circulares. Vale a pena como discussão, mas deixará leitores mais avançados pouco satisfeitos.

Para fechar o mês, li Darkness of the Light, por Peter David. Eu gosto muito dos livros de David e esse não desaponta, embora, sendo o primeiro de uma série, termina abrupto demais para ser competamente satisfatório. O livro se passa em uma Terra futura em que a humanidade foi derrotada por doze raças exiladas que são nada mais do que monstros lendários que teria sido banidos em várias “ondas” para a Terra tendo finalmente ganho a batalha em algum ponto futuro. O livro narra as estórias diversas de vários grupos em um momento em que a sorte da humanidade está para mudar. Interessante, mas preciso ver o próximo livro para ver se vale a pena continuar.

Nos filmes, esse foi o mês do delicioso WALL-E. Como o filme foi analisado à exaustão, eu só vou dizer que curti cada segundo do filme e me emocionei como milhares de outras pessoas com as aventuras e desventuras do pequeno robô. Definitivamente um que vai para a coleção permanente.

Seguindo, vi Beowful que achei muito fraco a despeito de todo o hype sobre a fotografia do mesmo. A estória diverge demais para agradar quem conhece a lenda e não chega a empolgar em qualquer momento.

Hancock, que vi na seqüência, começou muito bem e acabou muito mal. O filme poderia ter sido perfeito sem toda a confusão romântica feita para agradar o público “médio”. Teria, eu tenho certeza, sido antológico. Mas, optou-se pela saída mais fácil e embora o filme agrade pela subversão do papel do herói, a segunda metade deixa um gosto amargo na boca.

O último destaque do mês foi Kung Fu Panda que também valeu cada segundo. Uma estória muito divertida, rica em referências e com sacadas geniais para o fim do filme.

No próximo mês, muitos filmes e poucos livros.

Balanço cultural de junho

July 23rd, 2008 § 5 comments § permalink

Com o meltdown do servidor, não consegui colocar o balanço cultural desse mês na data usual. Com um pouco de atraso, segue o que consegui fazer no mês de junho:

  • 6 livros
  • 5 noveletas e contos
  • 5 filmes

Nos livros, comecei o mês com uma releitura de The Years of Rice and Salt, um romance de história alternativa do meu sempre-preferido Kim Stanley Robinson. O livro é um experimento sobre a idéia de que a Peste Negra eliminou não 75% mas 99% da população européia resultando na ascensão das culturas islâmica e chinesa. O livro é contado com uma ênfase bem forte no budismo que resulta também em um interessante artifício literário que norteia a narrativa. Essa segunda leitura não deixou nada a dever à primeira, mesmo sabendo dos desdobramentos da estória principalmente pelo modo como Robinson escreve, uma forma imediatista e transcendente que é bem única aos seus textos.

O segundo livro foi Spook Country, de William Gibson. Gibson é considerado, com razão, um dos pais do movimento cyberpunk e tem uma tradição de presciência em seus livros. Spook Country é um livro que se passa nos dias “modernos” (sendo também uma seqüência de Pattern Recognition) e segue temas similares. É um livro muito bom na análise desses temas atuais, mas não se compara aos livros mais recentes de hard fiction. Mesmo assim vale a leitura pelo estilo e força da narrativa de Gibson.

Seguindo, foi a vez The Good Guy, de Dean Koontz. Esse é o primeiro livro que eu leio desse autor e gostei bastante da velocidade e simplicidade da trama. A estória, um suspense básico de identidade trocada e perseguição por um assassino é uma leitura agradável que, embora não tenha grande surpresas no final, consegue manter o leitor bem interessado.

O próximo livro foi The Myths of Innovation, por Scott Berkun. O livro é uma análise de dez mitos por trás do processo de inovação com lições de como evitar os possíveis problemas que esses mitos podem trazer. Alguns desses mitos incluem: o mito do inventor solitário, o mito de que toda inovação é benéfica, o mito de que as pessoas querem inovação e assim por diante. Uma boa leitura para qualquer pessoa em um campo criativo.

Depois disso, li a novelização da mini-série que iniciar Battlestar Galactica, por Jeffrey A. Carver. Minha experiência com novelizações anteriores era boa o suficiente para começar a leitura—de fato, a novelização de Quarteto Fantástico é melhor do que o próprio filme. Infelizmente, essa novelização é uma cópia exata de mini-série sem qualquer exploração de assuntos que poderiam ser melhor explorados em um livro onde há espaço para isso.

Fechei o mês nos livros com Four and Twenty Blackbirds, um bom terror por Cherie Priest que conta a estória de uma orfã com um passado cheio de mistérios e que vê fantasmas que ninguém mais pode ver. Priest consegue contar uma estória tradicional com um humor não-tradicional e o resultado é um livro bem satisfatório com uma excelente resolução.

Nos contos, destaque para Stars Seen Through Stone, de Lucius Shepard—uma excelente mistura de semi-sobrenatural, música e um cenário reminescente de mistérios detetivescos; e The House Beyond Your Sky, de Benjamin Rosenbaum, um conto pós-Singularidade com várias surpresas e conceitos inusitados.

Nos filmes, destaque especial para Be Kind, Rewind, excelente comédia com Jack Black e Mos Def. Explicar qualquer aspecto do filme necessariamente implicaria em relevar mais do que o devido, de modo que eu recomendo uma locação imediata. O diretor é o mesmo de Eternal Sunshine of the Spotless Mind, o que já dá uma idéia da qualidade de roteiro e execução.

Os outros destaques foram para Razor, um filme baseado em Battlestar Galactica que se passa entre alguns episódios e apresenta certos eventos que foram deixados de lado pela série principal. Bem interessante, mas não tão esclarecedor como esperado. Street Kings, com Keanu Reeves na pele de um policial atormentado que realiza justiça de acordo com seu próprio código particular, é muito bom com exceção da atuação de Forest Whitaker que parece um cópia de sua atuação em outros filmes.

No resto, 10.000 BC e Smokin’ Aces não merecem nem o trabalho de buscar os links apropriados.

Spook Country

June 26th, 2008 § 3 comments § permalink

William Gibson é essencialmente considerado o pai do cyberpunk pela sua visão abrangente das tendências atuais. Eu confesso que ainda não li nenhum dos livros que lhe deram fama original e como livros de ficção geralmente ficam datados muito rápido, ainda hesito em fazer isso. Mas como vários amigos estão quase me convencendo do contrário, é bem possível que eu os leia em um futuro próximo.

Isso tudo é para dizer que eu acabei de ler Spook Country, que se passa no mesmo “mundo” de Pattern Recognition, que, coincidentemente ou não, foi o primeiro livro de Gibson que li.

Os dois livros são muito parecidos em estilo, embora Spook Country seja, talvez obviamente, um pouco mais evoluído. Gibson tece uma estória interessante com múltiplas linhas que começam bem separadas e vão lentamente convergindo para o final do livro. No caso de Spook Country, arte locativa, sistemas de posicionamento global, conspirações e lavagem de dinheiro, artes marciais e espionagem se misturam em uma estória que tem ecos muito fortes em nosso mundo.

Para mim, entretanto, a palavra-chave dos dois livros é lentamente. Embora a estória seja realmente intrigante, pela visão que Gibson oferece do mundo moderno, em nuanças sombrias, os dois livros demoram um tempo enorme para que as múltiplas tramas cheguem ao ponto em que tudo é explicado e quando esse ponto chega, o leitor percebe que tudo poderia ter se resumido em um ou dois capítulos sem prejuízo da estória. Isso não significa que ele deixe pontas soltas nos outros capítulos e suas divagações servem para ilustrar os personagens. Apesar disso, o final não é tão dependente dessa divagações ao ponto de que sem elas o livro seria incompreensível. Alguns personagens, como Milgrim em Spook Country servem a um papel tão pequeno na resolução final que as páginas gastas no mesmo parecem desnecessárias.

Apesar disso, Gibson é um bom contador de estória e paralelizar o livro com o “mundo real” é um exercício interessante que vale a leitura.

Balanço cultural de maio

June 6th, 2008 § 2 comments § permalink

Maio continuou movimentado e não li tanto quando gostaria. Apesar de já estar há três meses em São Paulo, ainda continuam as acomodações tanto na vida pessoal quando na profissional e maio também foi preenchido com coisas a resolver nessas duas áreas.

O resultado do mês foi o seguinte:

  • 4 livros
  • 5 noveletas e contos
  • 3 filmes
  • 15 episódios de séries
  • 1 peça de teatro

Nos livros, comecei o mês com Razão e Sensibilidade, de Jane Austen. A despeito de um certo estigma romântico sobre os livros, os livros de Austen são muito bem elaborados, repletos de uma análise social do ambiente e sistema de classes da época, do efeito disso sobre os personagens, e de um humor sarcástico que fazem dos seus livros excelentes leituras. Esse era um que eu ainda não tinha lido e me diverti bastante.

Depois disso foi a vez de The Disunited States of America, de Harry Turtledove. O livro é parte de uma série chamada Crosstime Traffic, que lida com viagens a mundos paralelos, mas pode ser lido independentemente. Li porque foi um dos livros que veio como parte da promoção da Tor, mas foi muito direcionado a jovens para valer tanto a pena. É uma escolha muito boa para quem quer ler para os filhos–não sei se tem tradução em português, entretanto–mas não apela tanto para adultos pelo estilo mais forçado.

Continuei o mês com The Lord of the Isles, primeiro de nove de uma série de David Drake, e também não me empolguei muito. Pode ser que os livros posteriores ficam melhores, mas esse me pareceu um clone excessivo de The Wheel of Time, com muitos dos elementos estando lá mais para trazer leitores desta outra do que pela estória em si.

Finalmente, terminei o mês nos livros lendo Minority Report, uma coletânea de contos de Philip K. Dick lançado no Brasil na esteira do filme. Os contos são excelentes, como sempre, e incluem alguns dos seus mais famosos que deram origem a filmes como Vingador de Futuro e Impostor. Recomendo para fãs do mestre e para qualquer um interessado em contos mais pesados de ficção científica.

Falando em contos, aproveitei para ler alguns dos contos e noveletas que eu tinha acumulado em minha conta na Fictionwise, a maioria dos quais obtive nas promoções relacionados ao Hugo e Nebula. Comecei com A Billion Eves, um belo conto de Robert Reeds sobre um universo em que os seres humanos de espalharam em milhares de universos similares seguindo uma estrutura rígida de casamentos e religião. Depois foi a vez de The Merchant and the Alchemist’s Gate, de Ted Chiang. Chiang é um escritor excepcional, único por suas estórias curtas entre os escritores modernos, e esse conto não decepciona: um misto de Mil e Uma Noites, viagens do tempo, dor e redenção, é outra belíssima estória. Depois disso, foi a vez de Fountain of Age, da consagrada Nancy Kress. O conto, sobre uma cura para a mortalidade e o relacionamento da mesma com o narrador da estória, é outro carregado de dor e buscas. Mais um que vale a pena ler. Eight Episodes, o seguinte, também de Robert Reed, foi bastante divertido. Por fim, Echo, por Elizabeth Hand, não me impressionou muito. Sendo mais no estilo de uma mood piece, não me cativou o suficiente para que eu gostasse das possíveis nuances.

Nos filmes, nada de mais. National Secret: Book of Secrets é divertido, mas repete demais a fórmula do primeiro para ser tão interessante e memorável como o outro. Untraceable poderia ser muito bom, mas cai nas variantes conhecidas de uma agente do FBI e uma nêmesis psicopata que nem a idéia de um site de tortura baseado em acessos podem salvar. A pregação anti-pirataria ridícula tira o resto do filme para qualquer espectador um pouco mais ligado nas questões.

Nas séries, o usual: terminei de ver as temporadas de House, Grey’s Anatomy, Lost e Smallville e agora estou somente esperando pelo final de Battlestar Galactica. Os episódios de Smallville tenderam ao ridículo, com diálogo pobre e estórias sem nexo; Grey’s Anatomy se livrou de sua aura depressiva e teve mais episódios divertidos, com um final legal; Lost surpreendeu e os episódios finais foram cheios de revelações e supresas; e, finalmente, House se superou em dois episódios finais brilhantes antecedidos por episódios muito bons. Battlestar Galactica foi a grande decepção com episódios centrados demais na busca pelos cinco cylons remanescentes e pouco da intriga, política e sociedade que fizeram da série o sucesso que é.

E para finalizar o mês, minha longamente prometida ida ao teatro. Para o próximo mês, espero mais livros e mais teatro.

Balanço cultural de abril

May 1st, 2008 § 1 comment § permalink

Se março eu li pouco por causa da mudança, em abril eu li menos ainda por causa da movimentação no trabalho. Eu estava convencido de que chegaria ao final do mês sem terminar nada de significativo. O primeiro livro que consegui terminar de ler foi no dia 20 e isso graças a uma boa espera no aeroporto e a subseqüente viagem.

De qualquer forma, o resultado do mês foi o seguinte:

  • 4 livros
  • 5 filmes
  • 14 episódios de séries

O primeiro livro do mês foi The Mythical Man-Month, o trabalho seminal de Frederick Brooks. Publicado pela primeira vez em 1975, e revisado para seu aniversário de vinte anos, o livro permanece absolutamente atual e–mesmo as partes em que ele parece datado por causa da referência a tecnologias e práticas obsoletas contém material fascinante e absolutamente essencial para a compreensão do mundo em programadores operam. O livro, sobre o qual espero escrever mais futuramente, é uma coleção de ensaios que foi revisada e expandida em sua última edição. Dos ensaios, os dois mais famosos são o que dá nome ao livro e No Silver Bullet. Eu fiquei especialmente fascinado pelos pararelos entre Scrum e o livro.

De qualquer forma, esse é um livro que absolutamente todo programador (e de fato, toda e qualquer pessoa envolvida no meio de desenvolvimento) deveria ler. É um raro prazer encontrar um texto que permanece válido em todos os seus pontos essenciais depois de tanto tempo e conter tantos aspectos práticos para o dia-a-dia de desenvolvimento.

Na mesma linha, li em seguida The Long Tail, de Chris Anderson. O livro é uma expansão do seu famoso artigo na Wired e contém análises mais profundas do que o artigo oferecia. A essência do livro é que o mercado segue uma linha de distribuição em que a maioria das vendas são feitas no início da curva por razões de escassez, mas que existe toda uma cauda na curva (daí o título do livro/ensaio) que pode ser convertida em um enorme potencial de vendas e distribuição. O livro é uma fascinante exploração das razões e potencial de utilização da cauda longa e oferece muito mais do que uma simples expansão do artigo. Embora Anderson se limite a uns poucos mercados por razões de espaço, as explorações que o leitor pode fazer por conta própria são muitas. Esse é outro assunto que eu quero explorar aqui no futuro e estou especialmente interessado nas aplicações da cauda longa não para mercados mas no desenvolvimento de aplicativos e serviços em si.

Depois disso, Interface, por Neal Stephenson e George Jewsbury, que é um thriller político de primeira categoria. Embora seja de 1994 e ligeiramente datado em alguns aspectos, é ultrajante a capacidade que Stephenson tem de prever o futuro. Chega a ser estranha a forma como algumas partes do livro parecem refletir a realidade de 2008, não só nos Estados Unidos mas para o resto do mundo. Essencialmente, o livro é a estória de uma coalizão sombria que tenta manipular um candidato a presidente dos EUA implantando um chip em seu cérebro. A estória se converte em uma crítica seca e perspicaz do modelo político dos EUA, dos meandros do mecanismo de eleição e publicidade, e do próprio papel que as pessoas devem ter no mesmo. Vale cada palavra.

Para fechar o mês, li Sun of Suns de Karl Schroeder. Eu já tinha lido e gostado bastante de seu Postsingular e também gostei desse que é o primeiro livro em sua trilogia chamada Virga. O livro é sobre Virga e seus habitantes, um mundo sem gravidade, que na verdade é uma balão com cinco mil milhas de diâmetro orbitando uma estrela distante onde os habitantes desenvolveram uma cultura particular de cidades bizarras que são rodas gigantes gerando um pouco de gravidade e sóis artificiais sem os quais o “inverno” tomaria conta de tudo. Nesse ambiente, política, pirataria, e amor de misturam em um conto de vingança e–pelo menos parcialmente–rendenção. O final foi aberto demais, mas considerando que o livro é o primeiro de três, faz sentido. Bom o suficiente para me incentivar a ler os próximos livros pelo menos.

Nos filmes, destaque para Atonement, com Keira Knightley e James McAvoy, em uma bela estória sobre pequenos erros que se convertem em enormes problemas e que assombram pessoas até o último dia de suas vidas, Bela narração, bela fotografia e seqüências memoráveis.

Assisti também Cloverfield que me pareceu mais um exercício em futilidade. Ao contrário das resenhas sobre filme de terror/suspense da década, eu vi só um monte de correrias, e uma tentativa de esconder um monstro nada impressionante por trás de uma teia de diálogos vazios e superficiais.

Iron Man, se não foi profundo, foi pelos menos divertido o suficiente para valer a entrada. Robert Downey Jr. está mundo bem no papel de Tony Stark, conseguindo fazer o papel de herói e de playboy ao mesmo tempo sem perder o passo. Não conheço tanto da mitologia do personagem, mas a representação dele ao longo do filme foi muitoboa e completou muito bem as cenas de ação. Os outros atores também estão muito bem.

Nas séries, gostei bastante de Terminator: The Sarah Connor Chronicles. Vi todos os episódios já produzidos e acho que a série pode se converter em um bom adendo aos filmes desde que não caia em um círculo de estória. Mais detalhes na resenha que escrevi. As demais séries continuam como de usual.

Próximo mês, espero não chegar aqui e dizer que não li ou vi nada. :-)

Balanço cultural de março

April 2nd, 2008 § 1 comment § permalink

Março foi o mês da minha mudança para São Paulo e o último terço do mês foi praticamente sem leituras, o que reduziu bastante a minha média mensal. Apesar disso, deu para ler bastante coisa interessante e assistir a alguns filmes.

O resultado mensal ficou assim:

  • 5 livros
  • 4 filmes
  • 10 episódios de séries

Abri o mês lendo Raibowns End, do Vernor Vinge. Vinge é um autor fascinante e influente tanto no âmbito da ficção científica como no da ciência da computação com suas idéias sobre inteligência artificial e a singularidade tecnológica. Não é por acaso que seus livros regularmente ganham os prêmios maiores na área. Seus A Fire Upon the Deep e A Deepness in the Sky são obras primas do gênero e livros que o leitor não esquece facilmente. Rainbows End, seu último, é uma exploração incrível de um possível futuro próximo e um pré-testamento às transformações que estão acontecendo no momento em nossa sociedade. Mais detalhes sobre o que eu achei do livro podem ser encontrados em minha resenha.

Depois desse foi a vez do Free Culture, do Lawrence Lessig. Excelente também, por sua análise profunda e sem reservas sobre o campo de propriedade intelectual e cultura. Não vou me estender mais nos detalhes porque também fiz uma resenha sobre ele na época em que li onde dou mais detalhes sobre os temas e o que achei.

Na seqüência li The Algebraist, do Iain M. Banks. Ele é um autor do qual gosto bastante por sua série The Culture, mas não gostei muito desse título. Não por não pertencer à série–ele continua sendo um escritor muito bom–mas pelo excesso de world-building em detrimento da trama principal. Para quem prefere, o livro vai ser muito bom porque apresenta uma galáxia de personagens interessante, mas eu realmente achei muito lento e um pouco perdido em relação aos outros que eu tinha lido.

O mês continuou com Farthing, de Jo Walton. Esse é um mistério detetivesco que se passa em uma Inglaterra alternativa em paz com o Terceiro Reich, paz essa obtida logo após o início da guerra e onde os Estados Unidos nunca entraram em combate. O livro se passa oito anos depois e envolve o grupo de pessoas que negociou a paz. Novamente, fiz uma resenha sobre o livro, do qual gostei bastante, e também não vou me alongar aqui sobre os detalhes.

Fechei o mês com Crystal Rain, livro de estréia do Tobias Buckell. É divertido, uma boa space opera, mas que falhou em me empolgar com outros do gênero.

Nos filmes, assisti The Ark of Truth, um dos dois filmes que vão completar os arcos de enredo que ficaram faltando de Stargate SG-1. Foi mais um episódio de duas horas que realmente resolveu um dos arcos de maneira rápida e sem firulas. Divertido, mas nada de especial.

Depois disso vi Disturbia (Paranóia), mais um desses filmes sobre o serial killer da casa ao lado. Também divertido, mas sem maiores surpresas.

Continuei com Layer Cake, com o Daniel Craig na pelo de um traficante que planeja se aposentar mas quando está para sair se vê envolvido em uma cômica trama de encontros e desencontros. Deu para rir um pouco e o final foi bem coerente com o tom do filme.

Fechei o mês revendo Children of Men, que continuou muito bom e interessante na segunda passagem. O tom sombrio e triste do filme e o tom logo após o encerramento, quando os créditos começam a rolar, sem completam de uma maneira muito agradável e que tornam o filme bem memorável.

Em abril provavelmente a média baixa se manterá com todas as mudanças que estou acontecendo. Tanto é que até o momento não consegui ler mais do que cinco páginas dos dois livros que estou lendo. Só espero que maio dê mais folga.

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