Dois começos

June 28th, 2009 § 4 comments § permalink

I

Em retrospecto, eu posso dizer sem qualquer sombra de dúvida que a culpa cai toda sobre os ombros deste que lhes escreve. Vocês sabem muito bem o que costumam dizer os sábios sobre a mal-fadada curiosidade e gatos proverbiais. Mesmo assim, não consigo excluir da minha mente a idéia–cínica, e alguns diriam até ingrata–de que ela sabia exatamente o que estava por acontecer e me deixou no igualmente proverbial escuro. Exceto por minha morte, é claro. Essa–eu não só tenho certeza como evidências concretas–foi única e exclusivamente culpa minha.

Mas, eu me adianto. É comum, quando eu escrevo, digo de passagem. Se quero contar a estória direito–e imagino que sim, já que estou me dando esse trabalho–preciso retornar há alguns meses atrás quando a confusão começou. E por confusão, estou caracterizando o tipo de caos e tumulto que eventualmente levam ao fim de uma civilização, algo que, no meu caso, é quase que inteiramente a realidade.

Eu estava em Wintrya naquela época, uma cidade suja, mal-cheirosa, habitada por multidões de seres incultos e ignorantes, dominada por uma casta corrupta e extremamente suscetível a suborno e, para completar, tão ao sul do Círculo das Terras quando eu poderia estar. Em suma, o local perfeito para o que eu tinha em mente: recomeçar minha carreira. O único problema então era que eu estava, sem sucesso algum, devo dizer, chegando perto desse objetivo. Na verdade, eu poderia dizer que estava começando a ver algum futuro pela frente mas estaria mentido.

Pensando bem, talvez eu precisa começar um pouco antes ainda. Histórias começam no preciso instante em que os eventos se aceleram rumo ao inevitável, no certo instante em que o protagonista–e eu hesito em me denominar assim–comete o erro impensado de acreditar que é mais especial do que o resto do seu mundo.

No meu caso, acordei em uma manhã tipicamente enevoada e comum em minha bela cidade ao norte do Círculo das Terras e decidi, assim mesmo, que estava na hora de mudar de carreira. Quinze anos como assassino profissional era algo do qual eu podia me orgulhar mas chega um ponto em que tudo começa a ficar rotineiro de mais, sem graça, sem interesse. Minha carreira estava estabelecida, sim. Eu tinha respeito, era anônima e possuía dinheiro suficiente para durar um bom tempo. Mas, no final das contas, há um número limitado de estratégias que dão certo e mesmo para o mais profissional dos assassinos chega um momento que o tanto de sangue e tripas já vista supera a vontade representada por cintilantes moedas de ouro. Em suma, a coisa toda perdera o interesse para mim.

II

Em retrospecto, eu diria que a culpa foi toda minha. Você sabe o que dizem sobre curiosidade e o gatos. Por outro lado, não consigo me furtar à sensação de que ela sabia o que estava por vir e me deixou no escuro. Exceto pela minha morte, é claro. Essa, eu tenho certeza, foi inteiramente um problema meu.

Mas, eu me adianto. Se eu quero contar a história direito, preciso retornar para alguns meses atrás, quando a confusão–e por confusão eu quero dizer, aquelas capazes de destruir uma civilização inteira–começou.

Eu estava em Wintrya naquela época, tão ao sul do Círculo das Terras quanto eu poderia estar, refazendo minha vida. Sem muito sucesso, mas começando a ver algum futuro pela frente. Mas talvez eu precise começar um pouco antes ainda.

Uma manhã eu acordei e decidi que estava na hora de mudar de carreira. Quinze anos como um assassino profissional era algo do qual eu tinha um certo orgulho mas chega um ponto em que os serviços começam a se tornar rotineiros e a coisa toda não tem tanta graça mais. Minha carreira estava bem estabelecida: eu era respeitado, anônimo e com dinheiro suficiente para durar um tempo considerável. Mas, nada era tão interessante mais.

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