Balanço cultural de dezembro

January 22nd, 2010 § 0 comments § permalink

Dezembro foi mês de final de trabalho e começo de férias e confesso que fiquei com preguiça depois de alguns dias na moleza. Enfim, isso deveria ter sido postado no ano passado, mas para não deixar passar batido. O resultado do mês foi o seguinte:

  • 4 livros
  • 12 filmes

Nos livros, comecei o mês com Managing Humans, de Michael Lopps. Lopps é muito conhecido pelo seu blog Rands in Repose e o livro é um compilação de textos publicados no mesmo durante alguns anos. Eu leio o blog há algum tempo já e considero Lopps um dos melhores escritores no estilo. Além da clareza e atualidade do temas, Lopps consegue destilar seu conhecimento com humor e maestria, deixando o leitor sempre querendo um pouco mais.

Managing Humans é, em primeira instância um livro sobre gerência, mas não gerência no sentido de “mandar” em outras pessoas–antes, é uma visão de relacionamento, habilidades e construção de carreira baseados em quinze anos de experiência do autor. Apesar de voltado especialmente para engenheiros de software, os conselhos servem para qualquer pessoa, seja gerido ou gestor (o que é, de um ponto de vista bem prático, o caso de praticamente todos nós). Como Lopps diz na introdução, a mensagem primária do livro é: “Don’t be a prick”. Recomendado em todos os sentidos.

O livro seguinte do mês foi The Silmarillion, o conhecido épico mitológico de J. R. R. Tolkien. Eu já lera o livro algumas vezes antes, emprestado, e, depois de comprá-lo finalmente, decidi por mais uma leitura. Ainda permanece o meu preferido entre os trabalhos do Professor. O senso de mito, de estória se desenrolando ao longo dos milênios e de perda é tão forte que é impossível não se impressionar.

Para terminar o mês, li os dois primeiros livros da trilogia The Night’s Dawn Trilogy, do Peter Hamilton (The Reality Dysfunction e The Neutronium Alchemist). Hamilton é um dos que eu inclui em minhas leituras essenciais de ficção científica no ano passado e essa trilogia é um dos seus primeiros trabalhos.

Os livros contam da humanidade do século vinte e sete, divididos em duas grandes correntes: edenistas, com sua tecnologia biológica e baseada em inteligências artificiais com cultura unificada e, até certo ponto, utópica; e os adamistas, os humanos “normais”, usuários de tecnologia não-orgânica baseada em nanotecnologia.

As duas culturas convivem em paz, habitando os cerca de 900 planetas colonizados pela humanidade em uma organização conhecida com a Confederação, com algum contato alienígena no meio, até que uma ruptura no tecido da realidade libera algo desconhecido que ameaça não só a Confederação mas a própria definição do que é ser humano e do que representam a vida e a morte.

Como nos livros de Hamilton que já li, a estória é enorme e envolve dezenas de personagens primários, secundários e terciários com múltiplos temas permeando a narrativa. O autor cria um mundo verossímil e complexo tanto em termos da descrição das múltiplas facções e divisões da humanidade como na tecnologia descrita. Fiquei especialmente encantado com os voidhawks, naves estelares orgânicas sencientes unidas a seus capitães via uma tecnologia orgânica chamada de afinidade e capazes de navegação FTL.

Os livros–três calhamaços, por sinal–exploram, como é comum nos trabalhos de Hamilton, o fato de que, apesar de toda tecnologia, ainda permanecemos essencialmente a mesma espécie, com suas falhas, aspirações e forças. Essa exploração não é isenta de falhas–o final é um enorme, embora preparado, deus ex machina–e o estilo é deficitário em relação aos seus trabalhos posteriores. Mesmo assim, ainda vale a pena a leitura.

Nos filmes, comecei o mês vendo The Jane Austen Book Club. Alguém me recomendou o filme como sendo um comédia romântica decente envolvendo ficção científica e Jane Austen–dois temas que eu gosto. Com a esposa, me anime a ver e gostei. Não é muito diferente do usual em comédias românticas mas é divertido o suficiente. Depois descobri que é baseado em um livro do mesmo nome por um autor que, entre outras coisas, escreve ficção científica. Destaque especial para as obras de Ursula Le Guin que são um plot point.

Depois disso foi a vez de Okuriburo (lançado do Brasil como A Partida). O filme conta a estória de um recém-desempregado músico japonês que decide volta à sua pequena cidade natal em busca de um novo começo. Ao chegar à cidade, responde um classificado para um emprego que acredita ser em uma agência de viagens e descobre que, na verdade, é para ser um profissional que prepara pessoas para o enterro (para a partida). À medida em que ele começa encontrar sentido em seu trabalho e sua vida, começa a perder seus amigos e mesmo sua esposa que desprezam o trabalho. O filme é belíssimo, profundo e cômico ao mesmo tempo, explorando a vida, suas alegrias e tristezas. Confesso que ri e chorei durante quase o filme todo. Recomendo completamente.

Na seqüência, assisti Pandorum. Descobri quase por acaso durante minhas tradicionais andanças por listas de discussão de ficção científica. O filme conta a estória de dois membros da tripulação de uma nave generacional humana em meio à sua viagem para colonizar um planeta distante. Os dois tripulantes acordam para o seu turno de trabalho encontrando uma nave abandonada e às beiras de um colapso sistêmico. Tentando descobrir o que está acontecendo, encontram algo aterrorizador. A estória é clássica e contada em inúmeros filmes e foi um fracasso de público mas tem suas boas qualidades. Gostei das variações sobre o tema, focando mais nos personagens do que na situação em si e nas conseqüências dos problemas da nave. A fotografia também é muito boa e o final foi bastante satisfatório. Vale a pena para fãs do gênero.

Depois disso foi a vez de Avatar. Como todo mundo já deve ter visto a essa altura do campeonato, vou me limitar a algumas impressões básicas. Sim, a estória é batida e já contada milhares de vezes, mas não são todas elas? Já se disse que só existem algumas estórias básicas e o mérito está em como se conta. Isso é algo que acredito que Cameron consegui, contando a mesma estória de uma forma feita nova pela tecnologia e pela beleza da arte do filme. Gostei especialmente do cuidado dado aos detalhes científicos do filme e, se Cameron escorrega em alguns pontos, acerta mais ainda. Fica uma sensação de que o roteiro original era bem melhor, mas isso é algo que também pode ser corrigido em parte com uma versão do diretor. Se Lucas pode, Cameron também.

Depois foi a vez de Crank 2 e Gamer. Os dois filmes são escritos e dirigidos pela mesma dupla e são essencialmente a mesma estória fraca recheada de ação contínua e sem sentido mesclada entre cenas de sexo e violência gratuitos. Eu gosto tanto de Gerard Butler quanto de Jason Statham, muito em parte pela capacidade que os dois possuem de auto-ironia mas os filmes são definitivamente descartáveis.

New Moon, 17 Again, Push e Thick as Thieves foram programas de pré-Natal–suportáveis mas algumas poucas horas perdidas. No caso do último, nem a presença de Antonio Banderas e Morgan Freeman consegue ajudar. Aliás, Banderas parece que se especializou no papel agente da lei genérico infiltrado no últimos anos. Haja paciência.

No próximo mês, mais livros, filmes e passeios.

Balanço cultural de novembro

December 28th, 2009 § 3 comments § permalink

Estou de férias, depois de um mês final intenso de trabalho, o que significa que o blog está meio abandonado nesses últimos dias do ano. Mesmo assim, decidi manter pelo menos a tradição dos balanços culturais mensais para terminar o ano e começar 2010 com novos textos que estou escrevendo entre um passeio e outro.

Novembro foi um mês regular, com o seguinte resultado:

  • 3 livros
  • 6 filmes

Nos livros, comecei o mês com The Accidental Time Machine, do Joe Haldeman. Embora Haldeman seja bem famoso por seus trabalhos anteriores, esse é apenas o segundo dos seus livros que leio–ambos sendo produções mais recentes. Como eu tinha escrito anteriormente, também, The Accidental Time Machine é um homenagem cheia de humor e bem embasada cientificamente de todas estórias de viagem do tempo que já foram escritas. Quando um assistente de pesquisa do MIT chamado Matthew Fuller inventa sem querer uma máquina de viajar no tempo e descobre que ela somente vai para o futuro, ele se vê jogado para longe de sua época e envolvido cada vez mais em situações que não pode controlar. A leitura é rápida–o livro é quase uma noveleta–mas demonstra o talento de Haldeman em criar situações críveis com pouco esforço.

Segui o mês lendo Numerati, do Stephen Baker. O objetivo do livro é falar sobre como a matemática está sendo empregada para processar quantidades enormes de dados, modificando como vários campos e áreas de atuação humana funcionam, incluindo medicina, compras, segurança, saúde e mesmo relacionamentos. Um dos focos primários do livro é a Internet, é claro, e como os traços que deixamos na mesma são parte desses dados e como isso pode ajudar ou, em alguns casos, piorar a forma como vivemos e vemos o mundo.

A premissa do livro é interessante mas ele cai no mesmo problema de muitos outros livros sobre assuntos similares publicados nos últimos dois ou três anos: essencialmente, o livro é um artigo longo que foi transformado em uma obra impressa pelo expediente de clonar e adaptar o mesmo tópico vez após vez. Todos os capítulos do livro possuem exatamente a mesma estrutura: um, o campo X está produzindo quantidade enormes de dados; dois, nesse campo X, matemáticos estão usando os dados para tentar entender melhor o mesmo; três, no campo X, a matemática ainda não é suficiente para fazer o que esses pesquisadores querem; quatro, um dia a matemática vai ser; e assim por diante. Funciona para o primeiro capítulo, mas deixa os demais bem tediosos.

Fechei o mês lendo Saturn’s Children, do Charles Stross. Como já mencionei aqui várias vezes, Stross é um dos meus autores favoritos e seus livros raramente decepcionam. Saturn’s Children é sua space opera mais recente, contando sobre um futuro em que a espécie humana se tornou extinta e o Sistema Solar foi colonizado pelos andróides que serviam a humanidade antes de sua saída do palco cósmico. O livro segue Freya Nakamichi-47, uma bishōjo ginóide, que acaba se indispondo com a aristocracia cibernética e é forçada a se envolver com uma corporação de couriers para conseguir escapar se seus perseguidores, descobrindo no processo uma conspiração para controlar a sociedade andróide.

Como todo Stross, o livro é recheado de conceitos exuberantemente futuristas e possui uma estória interessante. Entretanto, ao contrário de seus trabalhos anteriores, senti uma certa necessidade de exagerar na exploração da sociedade andróide–que, obviamente, é fundamentalmente diferente da nossa sociedade e, como em todo trabalho de ficção científica, difícil de precisar–e também uma certa dificuldade em manter o balanço entre explicar e esconder a conspiração para não deixar a estória vazia. Stross sucede em contar a estória bem, mas acaba tendo que correr no final e explicar mais do que o necessário. Bom, mas não seu melhor trabalho.

Nos filmes, comecei o mês com Battlestar Galactica: The Plan, um filme feito após o fim de série que se propõe a contar um pouco mais sobre os motivos dos cylons em exterminar a humanidade. O filme superpõe cenas retiradas da série, para contextualização, com material novo exclusivamente do ponto de vista dos vários modelos dos cylons. O material novo é focado bastante nas especulações e motivações de dois Number Ones (Cavil) que se vêem em espectros opostos do pensamento cylon. Interessante, e com algumas boas cenas, mas dificilmente acrescenta algo ao que a série tinha mostrado.

Depois disso, foi a vez de 2012. Previsivelmente, o filme é bem descerebrado e só conta pelos efeitos especiais que dominam 90% das cenas. Vale a pena ser visto como um filme de desastre para acabar com todos filmes de desastre–e diverte nesse aspecto–mas só por isso mesmo.

Na seqüência, vi Law Abiding Citizen. Esse era um dos filmes do ano que eu estava esperando com bastante expectativa pela possibilidade de ser um novo Se7en, ou seja, perturbador mas sublime em contar uma estória violenta em que todas as pontas de encontram. Infelizmente, após um começo bom mostra-se incapaz de manter qualquer coerência e termina em um final ridículo e sem sentido, contrariando o resto do filme. Desapontou.

Os três filmes restantes foram Ghosts of Girlfriends Past (um tentativa de parodiar Dickens romanticamente), He’s Just Not That Into You e The Accidental Husband, parte da cota mensal de filmes românticos escolhidos pela esposa. Como ela mesmo comentou após um deles: não valem o DVD em que estão sendo distribuídos.

Balanço cultural de outubro

December 3rd, 2009 § 1 comment § permalink

Outubro foi um mês um pouco mais produtivo do que setembro para minhas leituras. O resultado do mês foi o seguinte:

  • 4 livros
  • 5 filmes

Comecei o mês lendo The Anubis Gates, por Tim Powers. Powers é um autor que consegue pegar idéias incrivelmente díspares e transformar em uma obra de arte. Eu não vou me alongar muito já que fiz uma resenha mais detalhada no mês retrasado, mas deixo a minha recomendação de leitura para fãs de fantasia e ficção histórica.

Continuei o mês lendo o volume oito da série Caballo de Troya do J. J. Benítez. Apesar do pesares e da fama ou infâmia dos livros, eu gostei muito dos quatro primeiros volumes, e acho que o Benítez conta uma boa estória quando quer. Infelizmente, os volumes mais recentes não estão à altura dos anteriores e representa mais uma tentativa à la Paulo Coelho de recolher o máximo de uma série que já deu o que tinha que dar. Benítez, inclusive, adotou a estratégia bizarra de terminar os livros em um cliffhanger sem sentido bem no meio de uma cena que continua no próximo livro. O resultado é frustrante para qualquer leitor, é claro. Como sou insistente, é bem possível que eu continue a ler a série pelo menos para ver até onde a coisa vai dar. Mas, se você não começou, evite.

Na seqüência, li Permanence, do Karl Schroeder. Já tinha lido dois de seus livros anteriores–Ventus e Lady of Mazes–que se passam dentro de universos com características bem similares e gostei muito da sua mistura de space opera com o pós-humanismo. Permanence é a estória de um jovem que encontra um artefato alienígena–uma grande nave generacional desabitada, capaz de abrigar múltiplas espécies–que promete respostas transformadoras para a sua civilização e precisa lidar com as conseqüências disso ao mesmo tempo que se liberta do seu passado. Em uma galáxia dividida entre mundos halo e mundos iluminados–estes últimos locais onde viagens em velocidade maior do que a luz é possível e governados por uma economia tirânica–o artefato promete uma resposta para a continuidade da humanidade.

Finalmente, li To Your Scattered Bodies Go, de Philip José Farmer. O livro é o primeiro de uma série chamada Riverworld que descreve um planeta distante tanto no espaço quanto do tempo da Terra consistindo basicamente de um rio incrivelmente longo nas margens do qual toda a humanidade que já existiu desde os primórdios da Neolítico até o século vinte é ressuscitada simultaneamente e misturada. Neste primeiro livro, essencialmente seguimos um grupo centrado em Sir Richard Francis Burton, explorando os eventos logo após a ressurreição e a tentativa por parte desse grupo de entender o que está acontecendo. O livro é bastante divertido–especialmente pelo caráter cômico de diferentes culturas interagindo em um ambiente novo e hostil onde convenções sociais são derrubada a toda instante–mas termina de forma mais abrupta sem revelar muito sobre o mundo e sobre os motivos por trás da relocação da humanidade. Gostei o suficiente para querer ler os demais livros.

Nos filmes, comecei o mês vendo o incrível District 9, sobre o qual falei um pouco anteriormente. Não vou me alongar mais a não ser para me repetir ao dizer que este foi o melhor filme do ano e tem tudo para se transformar em um clássico do gênero de ficção científica.

Na seqüência, assisti novamente Watchmen. Vi a primeira vez em condições menos do que ideais e foi bom assistir novamente e perceber que continuei gostando tanto quanto da primeira vez. A adaptação realmente ficou muito boa e se há algum infidelidade à estória original isso não detrai da qualidade da obra.

Continuei vendo State of Play, um thriller policial bem fraco com Russell Crowe e Ben Affleck, lidando com a morte da amante de um congressista americano e a investigação da mesma por parte da polícia e um jornalista. O filme é um remake de uma série da BBC que, pelas indicações do IMDB, é bem melhor do que sua revisão.

O penúltimo filme do mês foi Surrogates, uma adaptação com Bruce Willis e Radha Mitchell de quadrinhos do mesmo nome contando sobre um mundo em que todos humanos usam corpos artificiais para interagirem com o mundo real. Esses corpos, perfeitos e robóticos, conseguem passar todas as sensações para o seu usuário e são uma forma perfeita de proteção, inviolável e seguros. Quando alguém começa a exterminar esses substitutos, o personagem policial de Willis pega o caso e descobre que há algo maior em progresso. O filme é bem interessante em seus questionamentos e o final, se relativamente fraco, termina o filme de maneira decente. Recomendado.

Para terminar o mês, asssisti Duplicity, uma divertida comédia com Clive Owen e Julia Roberts sobre dois agentes secretos que decidem agir em conjunto para dar um golpe em seus clientes. A dinâmica dos dois atores principais–que eu já tinha admirado em Closer–é muito boa e funciona muito bem ao longo de todo o filme. O final é diferente do usual e foi bem satisfatório.

No próximo mês, bons livros e filmes ruins. :)

Balanço cultural de setembro

October 26th, 2009 § 0 comments § permalink

Setembro melhorou um pouco em relação a agosto mas ainda estou bem aquém do que gostaria. O resultado do mês foi o seguinte:

  • 2 livros
  • 1 filme

Nos livros, comecei o mês lendo Thunderer, do Felix Gilman. O nome e a capa do livro mais blurbs mal escritos me deixaram meio ressabiado mas as resenhas geralmente positivas e as duas indicações a prêmios do gênero finalmente me convenceram a dar uma chance à estória.

Esse primeiro trabalho de Gilman me lembrou fortemente os livros do China Miéville, que estão entre os meus favoritos do New Weird (e de fantasia em geral, na verdade). De uma certa forma, parece que Gilman leu os livros de Miéville e decidiu que consegui escrever algo similar. E para crédito do autor, acho que ele conseguiu uma boa variação sobre o mesmo tema.

Essencialmente, a estória é sobre um peregrino, Arjun, que chega na enorme e multi-facetada cidade de Ararat em busca de uma divindade perdida por sua ordem de músicos e cantores. Arjun, estranho aos costumes da cidade, já chega em meio a um evento significativo: a transmutação de um navio pertencente a uma das casas que dominam a região perto do porto da cidade–cujo nome é o mesmo do título do livro–em uma fortaleza voadora usando os poderes deixados pela esteira de uma divindade que há muito não visitava a metrópole. O responsável por isso é um cientista chamado Holbach que está convencido poder controlar os sinais e símbolos que regem os poderes sobrenaturais da cidade. Como tudo em Ararat, entretanto, cidade de milhares de deuses, a passagem desse deus muda mais do que somente o navio e Arjun logo se vê envolvido na conseqüência desses eventos.

Como é fácil perceber, Gilman realmente bebeu na mesma fonte que Miéville e sua estória segue muitos dos passados traçados por esse último em Perdido Street Station. Arjun é muito parecido com Yagharek e Holbach com Isaac Dan der Grimnebulin. Os dois primeiros estão a procura de algo que perderam e os outros dois em busca de quebrar as barreiras da magia por meio de uma incipiente ciência taumatúrgica. Todos, movidos por suas necessidades, trazem às suas respectivas vidas mais do que conseguem controlar e precisam lidar com o que não previam para tentar restaurar uma aparência de ordem em seus mundos. E, da mesma forma, os sucessos nessa empresa são parciais e insatisfatórios.

Com isso não quero dizer também que Gilman plagiou descaradamente Miéville. Ararat, como New Crobuzon, é uma cidade-personagem mas Ararat é muito mais complexa do que a cidade imaginada por Miéville. De fato, como fica logo aparente, Ararat é muito mais expressiva: suas ruas resistem mapeamento e mudam de momento a momento, é possível passar semanas tentando atravessar certas áreas da cidade sem sucesso, há uma montanha ao longe que nunca pode ser alcançada e infinitas versões passadas e futuras da cidade convivem em planos que podem ser alcançados por uso de passagens entre as vielas e casas.

O resultado disso tudo é um livro que não fica nada a dever dos outros do gênero e que acrescenta originalidade ao que já existe. Um pequena falha que é a multidão de personagens que não é plenamente desenvolvida marca um pouco o livro mas não chega a atrapalhar tanto. Uma seqüência para o livro também já existe e está na minha fila.

O segundo livro que li no mês foi The Last Theorem, uma colaboração entre Arthur C. Clarke e Frederik Pohl, dois dos maiores mestres da era de ouro da ficção científica. O livro foi a última coisa que Clarke fez. Essencialmente, ele forneceu notas sobre uma estória que posteriormente foi escrita por Pohl.

O livro conta a estória de um jovem matemático nascido no Sri Lanka que consegue encontrar uma prova rápida, de apenas cinco páginas, para o último teorema de Fermat. A estória segue toda a sua vida, da infância até sua velhice dentro do backdrop da ignorância da Terra em relação a uma frota alienígena que está a caminho para erradicar os humanos sob ordens de uma civilização galáctica maior. As duas estórias se encontram quase que por acaso mais para o meio do livro.

A estória é interessante, e Pohl continua escrevendo bem, mas achei que as premissas eram um pouco fracas demais. A resolução da ameaça é um deus ex machina que me deixou bastante frustrado. Foi bem divertido acompanhar a vida de Ranjit Subramanian e as noções irônicas de Pohl sobre as civilizações galácticas ao redor da Terra mas o livro nunca passa muito disso. Destaque para discussões sobre razão, vida e inteligência mas nem essas compensam a fraqueza do livro.

Nos filmes, o único que assisti foi The Ugly Truth, comédia romântica com Gerard Butler (de 300) e Katherine Heigl (the Grey’s Anatomy). Divertido nas situações mas absolutamente imbecil na realização do todo. O final é óbvio desde o primeiro segundo do filme e não compensa as horas gastas. O que não fazemos pelas esposas. :)

No próximo mês, talvez algo mais consistente.

District 9

October 20th, 2009 § 2 comments § permalink

Ontem consegui finalmente tirar um tempo para ir ao cinema e assistir District 9.

O filme era um dos mais esperados lançamentos do ano–tanto em ficção científica como no meio mainstream–e, pessoalmente, evitei ler praticamente qualquer coisa sobre o mesmo para ter uma visão mais pura sobre a obra, especialmente considerando os paralelos óbvios com o apartheid.

Sou um pouco suspeito para dizer, considerando minha relação com ficção científica, mas acho que o filme chega muito próximo de um clássico nos moldes de Blade Runner e Soylent Green, principalmente pela qualidade visceral da sua narrativa–com perdão do trocadilho. De uma forma bem prática, o filme consegue evitar os problemas que Sunshine apresentou, misturando uma narrativa essencialmente ficcional com um objetivo secundário de pregar uma mensagem específica.

Isso não significa, é claro, que District 9 não tenha seu embasamento em um problema ou mensagem específica. Como mencionei anterior, a questão do apartheid está lá e é bem óbvia. Mesmo assim, acho que acaba sendo algo no fundo, motivado pelas experiência do direitor e ofuscado, com boa razão, pela visão mais primária de comportamento humano face ao desconhecido (ao mesmo tempo em que apresenta a reação face ao incômodo).

District 9 não é, também, isento de falhas. Há uma dualidade inerente entre a necessidade de ser íntimo, evidenciada pelo formato de documentário no começo, e a necessidade de impressionar, mostrada a partir do meio do filme por cenas de perseguição e o milieu comum de filmes de ação. Mesmo assim, acho que o filme apresenta um bom balanço e consegue divertir ao mesmo tempo que motiva questões mais profundas.

O tempo vai dizer quão bem District 9 sobrevive como indagação da natureza humana. A despeito das vísceras e explosões, o filme é bem uma reflexão do nosso tempo e isso pode persistir. Espero que não tenhamos seqüências–não há nada para adicionar.

Balanço cultural de agosto

September 21st, 2009 § 2 comments § permalink

Para continuar no tema de que esse blog agora é só uma mísera lista do que eu não estou lendo ou escrevendo, o pífio resultado do mês de agosto foi o seguinte:

  • 1 livro
  • 2 filmes

O único livre que li foi My Tiny Life, do Julian Dibbel. Na época em que comecei a ler, há alguns meses, o livro estava disponível gratuitamente e acabei me interessando pela premissa. A obra descreve as experiência do autor dentro da comunidade virtual do LambdaMOO, o mais antigo MOO em existência com um grupo de usuários relativamente fixo que ainda permanece em atividade desde sua incepção.

O livro é contado na visão dual do autor e seu avatar no LambdaMOO, alternando trechos na vida real que lidam com o impacto que a convivência virtual teve em seu dia-a-dia; momentos da perspectiva do personagem, descrevendo detalhes específicos da interação; e, finalmente, reflexões sobre a comunidade em si, tocando em temas que vão de sexo virtual a punições por violação de conduta dentro do universo, de política e adminstração de comunidade a amizades que se estendem do simulado ao real, e vários outros.

A leitura é fácil e, se peca por ser convoluta em alguns pontos, fornece um visão bem específica e detalhada do tema proposto. Vale bastante a pena para quem se interessa pelo assunto de como o simulado afeta o real.

Nos filmes, na muito interessante. Comecei o mês vendo The Bank Job, filme sobre um assalto a um banco londrino baseado em fatos reais. Jason Statham entrega seu papel consistente de anti-herói durão mas o filme acaba caindo na mesmice do gênero e não chega a empolgar em momento algum.

Depois disso, foi a vez de Wolverine que se provou decepcionante tanto em termos de estória como de realização. O enredo fraco e mal acabado não chega a se sustentar e tem pontos decididamente imbecis. Nem os efeitos especiais compensam isso.

No próximo mês, quem sabe?

Balanço cultural de julho

August 26th, 2009 § 2 comments § permalink

Esse blog está quase virando somente uma lista dos livros e filmes que estou lendo e vendo mas vamos lá com o que fiz em julho:

  • 4 livros
  • 5 filmes

Nos livros, comecei o mês lendo a trilogia The Fionavar Tapestry, de Guy Gavriel Kay. O livro se passa parte em nosso mundo e parte em Fionavar, o primeiro de todos os mundos do qual todos os outros são meros reflexos. A “tapeçaria” do título se refere ao fato de que o destino, nos livros, é representado por um tecelão em um tear onde cada fio é uma vida. Os três livros então tratam das vidas de cinco estudantes do Toronto que são levados a Fionavar por um mago para desempenhar o seu papel em tentar salvar o primeiro dos mundos da ameaça sombria de um deus vingativo.

Eu já tinha lido dois livros por Kay e gostei bastante de seu estilo evocativo e poético. Kay tem o costume de tomar mitos e lendas de nosso mundo e criar versões ligeiramente diferentes das mesmas em mundos alternativos cuja estória é bem similar à nossa em muitos aspectos. Por exemplo, seu The Last Light of the Sun se passa em uma Inglaterra alternativa pré-medieval.

Apesar disso, confesso que fiquei um pouco desapontado com a trilogia. Embora os temas centrais–como livre arbítrio e resolução–sejam interessantes e os mitos usados também–arturianos, nórdicos, entre outros–, o livro tem um fluxo não muito coerente e soluções abruptas para alguns pontos do enredo. Além disso, há similaridades demais com Tolkien (Kay, inclusive, foi o editor de Silmarillion) que incomodam bastante (como todo o sub-texto dos anões, que é essencialmente o que Tolkien pôs em seus livros).

No geral, é uma leitura razoavelmente interessante mas tem esses defeitos que não me deixaram tão satisfeito como as demais leituras dele que fiz. Vale talvez pelo seu estilo.

Fechei o mês lendo The Last Days of Krypton, do Kevin J. Anderson. Achei o livro em um dos passeios pela Cultura e achei a idéia do mesmo curiosa: contar os últimos dias do planeta natal do Superman, mostrando o que realmente levou ao seu fim. Infelizmente, o livro não cola e me arrependi da compra. Primeiro porque embora o final do planeta seja contado de um ângulo interessante, não chega a ser suficientemente diferente do que já foi contado para valer a idéia. Segundo porque os personagens são extremamente superficiais e idealísticos, o que gera diálogos que seriam impossíveis entre pessoas com um mínimo de inteligência–o que é bem irônico considerando que Jor-El e Zor-El são retratados como gênios. No final das contas, só valeu mesmo pelas referências como a hora em Zod diz a frase famoso: “Kneel before Zod”. No resto, desperdício de tempo.

Nos filmes, comecei o mês com [Transformers 2]. Michael Bay consegui fazer o que todo mundo temia: tirou as partes boas do primeiro filme e aumentou as ruins. Os efeitos são mais exagerados e menos “acompanháveis” e a estória é virtualmente inexistente. Duas horas de pancadaria sem sentido. Serve pela diversão com os robôs (e pela Megan Fox) mas para pouca coisa além disso.

Depois de Transformers foi a vez de Fast and Furious, o quarto filme da franquia de mesmo nome. O filme é tão bom, mas tão bom, que eu não me lembro de quase nada do que aconteceu no mesmo. E isso porque eu sou um fã confesso da canastrice de Vin Diesel. O primeiro filme foi bem decente para a estória mas depois disso foi só ladeira abaixo.

Angels & Demons, o próximo filme, foi divertinho mas também não passa de uma adaptação meia boca de um livro meia boca. Deu para gastar um tempinho com as conspirações, mas o filme não consegue repetir o passo do livro e acaba deixando tudo meio solto. Também não valeu o tempo visto.

Harry Potter and the Half-Blood Prince, por sua vez, quase chegou a ser um filme bom. O sexto episódio cinemática da série repete o tom sombrio do anterior mas não consegue passar a estória de modo adequado. Achei muito corrido e com pouca ênfase nos conflitos tanto do anterior como do próprio livro. O mistério do half-blood prince, que em tese é o mistério principal do livro, é revelado de forma simples e sem impacto já que não teve todo o build-up do livro. Da mesma forma, toda a trama por trás das Horcruxes ficou meio descaracterizada e sem graça. Nem o ponto principal da estória, a morte de todo-mundo-sabe-quem, foi interessante. Só achei graça a homenagem a Duro de Matar.

O único filme decente do mês foi o brasileiro A Mulher Invisível. Luana Piovanni está maravilhosa, carismática e divertida na pele de Amanda e Selton Melo diverte também. A estória é boa e bem contada e embora o final seja mais fraco, não estraga o filme. Só não gostei mesmo dos trejeitos Carreyanos de Selton Melo. Prefiro sua representação natural.

No próximo mês, provavelmente nada.

Balanço cultural de junho

July 30th, 2009 § 0 comments § permalink

Julho está quase terminando e somente agora consegui escrever o balanço cultural de junho. Este ano está se provando bem fraco em tempo para leitura, infelizmente. O resultado do mês ficou no seguinte:

  • 4 livros
  • 2 filmes

Nos livros, comecei o mês com os dois primeiros livros da série A Time Odissey, escritas conjuntamente por Stephen Baxter e Arthur C. Clarke. Os livros começam com a Terra sendo fraturada em dezenas de zonas temporais espalhadas por milhões de anos desde o surgimentos dos primeiros primatas inteligentes até um evento específico no ano de 2027. Grupos distintos de sobreviventes do evento (entre os quais se incluem partes dos exércitos de Genghis Khan e Alexandre, o Grande e soldados da ONU) se juntam para procurar explicações e se vêem às voltas com um conflito que abrange todo o Universo conhecido e que está acontecendo já há bilhões de anos.

Embora a premissa seja interessante, os livros não se sustentam. Há um terceiro livro que aparentemente conclui a série (os dois primeiros livros são bem independentes, entretanto) mas duvido que eu me anime a lê-lo. Não é a primeira vez que eu fico desapontado com a narrativa de Baxter que sempre promete mais do que entrega. Embora os temas sempre seja enormes (em alguns de seus livros ele trata sobre alguns dos maiores mistérios cosmológicos como o Grande Atrator e o próprio fim do Universo), as idéias acabam sempre servindo somente de fundo para algo bem insosso e mal concluído. Ao contrário de Iain M. Banks, por exemplo, que consegue tratar civilizações galácticas de maneiras extremamente interessante e localizada, Baxter consegue colocar os temas mas raramente consegue dar um bom destino ao mesmos. Não recomendo muito.

O terceiro livro que li no mês foi Brain Rules, por John Medina. Medina é um pesquisador e consultor em biologia molecular e nesse livro ele apresenta 12 regras sobre o cérebro que explicam como o mesmo funciona e como aproveitar melhor a capacidade inata que cada um possui. Não é, de longe, um livro de auto-ajuda ou um desses livros com conselhos mirabolantes mas uma apresentação dos mistérios e pesquisa mais recente sobre esse que é o mais interessante e desconhecido órgão do corpo humano. Algumas das regras são bem óbvias–por exemplo, a regra sobre a relação entre o cérebro e descanso–mas algumas provêem insights interessantes sobre como tratar o cérebro de maneira melhor. Leitura light e recomendada.

Para fechar o mês, li Six Degrees, por Duncan J. Watts. O livro é muito interessante e me serviu como um bom complemento a Linked do Albert-László Barabási. Enquanto este último se foca mais em redes de livre escala e uma visão mais alta da história sobre a pesquisa de redes, o primeiro é uma visão mais profunda do campo como um todo e com bem mais detalhes não só sobre outro tipo famoso de redes–small-world networks–mas dos vários tipos de redes e tópicos que têm interessado os pesquisadores atualmente. Para quem se interessa pelo assunto e por detalhes sobre como pessoas, infecções, epidemias, empresas, colapsos econômicos e dezenas de outros sistemas estão conectados dentro da teoria de redes, vale a leitura.

Nos filmes, vi Terminator Salvation, o quarto filme da conhecida franquia. O filme mal se sustenta como estória e é bem inferior até mesmo ao terceiro, o mais fraco até então. Nem a famosa cena de CGI com um modelo virtual do Arnold Schwarzenegger anima o filme, embora seja divertida. O problema maior é que o filme força o espectador a aceitar que John Connor é um idiota iluminado que pode fazer qualquer coisa e agüenta qualquer coisa também. O final é um desperdício de tempo e ridiculamente anti-ético. Só se salva mesmo Sam Worthington, que faz o interessante Marcus Wright.

Para fechar o mês, vi Knowing com Nicolas Cage e Rose Byrne. Alex Proyas é um diretor muito bom e seu Dark City é um dos melhores filmes de SF já feitos. Mas depois de Eu, Robô, ele caiu no meu conceito e esse novo filme é bem meia-boca também. O final até compensou o tempo de filme, mas a estória em geral é bem fraca. Não muito recomendado também.

E foi isso em junho. No próximo mês, poucas leituras também. :(

Balanço cultural de maio

June 26th, 2009 § 0 comments § permalink

Junho quase terminando e só agora deu tempo de fazer o balanço cultural de maio. O mês foi ainda mais corrido do que maio, mas deu tempo de ler um pouco mais às custas de algumas noites mal dormidas. O resultado do mês foi o seguinte:

  • 5 livros
  • 2 filmes

Começando o mês, li Leading Geeks, do Paul Glen. Para quem está começando a carreira gerencial, o livro é absolutamente imprescindível. Paul Glen é um geek escrevendo para geeks. Seu livro não é interessante somente para gerentes mas também para aqueles que tem gerentes na área pelo fato de focar não só nos detalhes do dia-a-dia gerencial mas também em procurar entender como funciona a mente geek. Dividido em dois temas, o contexto da liderança e o conteúdo da liderança, Leading Geeks fornece um bom framework para equipes que precisam trabalhar melhor em áreas de conhecimento e tecnologia.

Os dois próximos livros foram The Knight e The Wizard, os componentes da duologia The Wizard Knight de Gene Wolfe. Não preciso me estender aqui porque já fiz uma resenha bem detalhada do livro anteriormente. Basta dizer que recomendo muito, especialmente para quem gosta de literatura fantástica de natureza mais inusitada.

Seguindo o mês, li The Buried Pyramid, por Jane Lindskold. Esse é o primeiro livro da autora que eu leio e confesso que não gostei muito. O livro começa interessante, com uma estória envolvendo um faráo desaparecido nas areias do tempo e um soldado tornado arqueólogo que quer ser o primeiro a descobrir onde jaz o túmulo do mesmo. Em paralelo, um grupo misterioso pretende impedir a descoberta. Poderia ter sido um livro interessante mas descamba para uma enorme seqüência sem sentido no terço final culminando em um final deus ex machina que, embora responda as questões levantadas tira qualquer possibilidade de sentido do livro. Infelizmente, passo os próximos livros da autora a menos que alguém tenha uma recomendação muito boa.

Terminei o mês lendo Eternity’s End, por Jeffrey A. Carver. O livro, uma space opera, conta a estória de um rigger chamado Renwald Legroeder que se vê envolvido em uma conspiração para esconder o mistério que cerca uma nave espacial fantasmagórica perdida durante uma viagem espacial. Os riggers são pessoas com a habilidade de conduzir naves espaciais em segurança através de uma dimensão espaço-temporal chamada de Flux que permite viagens em velocidades acima da luz. Legroeder, que foi aprisionado por piratas durante uma viagem, tem que se aliar a uma advogada e uma raça alienígena quando é preso por ter supostamente ajudado a captura de sua nave. Em uma corrida para provar sua inocência e descobrir o mistério do Holandês Voador espacial, Legroeder precisa ir além de seus conhecimentos e formação para achar a verdade. O livro é interessante e embora não tenha tanta força literária, consegue sustentar bem a leitura até um final convincente.

Nos filmes, comecei o mês com Body of Lies, um thriller de espionagem com Leonardo DiCaprio e Russell Crowe, envolvendo conspirações e a caçada a um terrorista na Síria. Chega a ser interessante em alguns pontos, mas falha pelo final meia-boca.

Logo também no início do mês, fui ver a nova versão de Star Trek. Com fã absoluto de todas as manifestações da série, não preciso dizer que o filme marcou o fim de sete anos ansiosa de espera por algum material novo na franquia. Obviamente, como se tratava de um reboot da série, fiquei bem preocupado com a possibilidade de que o resultado final fosse completamente avesso ao que Star Trek representa.

Felizmente, embora o filme tenha suas falhas, para mim representou um boa retorno de Star Trek às telas–e pelo sucesso, possivelmente à televisão também. O filme já sofreu análises extensivas por partes dos milhões de fãs e não vou me estender nos detalhes do cânon. O filme é de ação, sim, algo que a série precisava, e, sim, peca em não forçar tanto os temas que tornaram a série icônica. Mas é um bom começo para uma exploração futura e revista desses temas. Não acho que essa bola vá cair com a competência que todos produtores sempre tiveram. Não é a Star Trek que nos acostumamos a ver em alguns aspectos e é em outros aspectos igualmente válidos. Vi três vezes o filme e vou comprar quando sair. Mas, fazer o quê, sou fã. :)

No próximo mês, mais livros e filmes.

Balanço cultural de abril

June 2nd, 2009 § 7 comments § permalink

Abril foi um mês de mudanças e correrias e, de acordo com meus registros dos últimos três anos, o mês em que menos consegui ler. Em compensação, vi mais filmes do que o normal. O resultado pífio ficou no seguinte:

  • 1 livro
  • 16 filmes

O único livro que li no mês foi Flashforward, do sempre interessante Robert J. Saywer. O livro é de 1999 e conta sobre eventos passados em 2009, o que, ironicamente, o torna ao mesmo tempo datado e atual. Datado porque alguns eventos, é claro, não se passaram como o livro mostra. E atual por causa da coincidência de alguns temas que estavam na mídia justamente no tempo que Saywer os descreve nos livros.

O livro conta a estória de um evento acontecido em 2009 quando o LHC é ligado em uma tentativa de provar a existência do bóson de Higgs. Ao invés da prova, a tentativa faz com que todos habitantes do planeta experimente durante dois minutos e alguns segundos as suas vidas de cerca de vinte um anos no futuro. O resultado–além da imediata perda de vidas e semi-colapso econômico–é um mundo inteiramente mudado pelas visões que alguns acreditam imutáveis e outros não. Sawyer lida com maestria com essas questões, inclusive tecendo um pequeno mistério detetivesco de um homem que descobre ter sido assassinado no futuro e que quer prevenir o acontecimento. Muito bom e leitura recomendada. O livro está agora sendo desenvolvimento em uma série para a TV pela ABC.

Nos filmes, o mês foi bem interessante.

Comecei vendo Watchmen. Ainda não li a série em quadrinhos que deu origem ao filme, mas gostei muito da representação visual criada para o mesmo em relação ao que já folheei. Watchmen é uma versão gráfica de temas que são constantes na literatura de ficção científica, e tem o mérito de trazer isso para as massas. Se conseguiu ou não, é uma discussão para outra hora.

Segui o mês vendo Pulp Fiction, que era um que me faltava dos clássicos do gênero. Como eu provavelmente sou a última pessoa no planeta a ver o filme, não preciso também comentar muito sobre o mesmo. Basta dizer que achei bem melhor que a obra posterior de Tarantino. Em Pulp Fiction, o exagero a que ele recorre normalmente parece bem mais refinado e elaborado do que em seus outros filmes. O que é uma pena.

Na seqüência, vi o esquecível Max Payne. Péssima direção, péssima atuação e só terminei de ver porque sou teimoso. Pareceu uma tentativa bem descarada de copiar o clima e surrealidade de Constantine perdendo todo o background desde último no processo.

Continuando, foi a vez de Vicky Cristina Barcelona. Minha experiência com Woody Allen é sempre meio confusa. Alguns de seus filmes me impressionaram muito pela sensibilidade e profundidade enquanto outros me deixaram com a sensação de que ele estava simplesmente vomitando idéias sem conseguir uma boa união entre as mesmas. Vicky Cristina Barcelona está no meio do caminho com isso. Tem uma riqueza de situações, uma atuação conjunta muito boa dos atores principais e uma veia mórbida que me atraiu. O final é desencontrado mas acaba não falhando. No geral, foi melhor do que minha experiência usual com os filmes do diretor.

Milk, o filme seguinte, me impressionou muito. Eu sempre gostei da atuação de Sean Penn e acho que ele mereceu o Oscar que ganhou nesse filme. O assunto continua sendo delicado mesmo na época atual e a direção conseguiu passar a ambigüidade na história de Harvey Milk com tranqüilidade. Tendo saído de duas visitas recentes a São Francisco, ver a cidade e seu desenvolvimento no filme foi um bom complemento para os passeios que fiz.

Os dois filmes seguintes, Yes Man e Bedtime Stories foram suficientemente divertidos para merecer uma menção aqui mas pouco mais do que isso. Jim Carrey já cansou com suas carretas e o filme só se salva por conta da adorável Zooey Deschanel e Adam Sandler entrou em uma fase exagerada que não adiciona nada a seus filmes.

Slumdog Millionaire é interessante e bem trabalhado mas sem surpresas. Eu gosto do trabalho de Danny Boyle e esse filme tem o seu toque específico mas muitas das seqüências parecem ser feitas para criar pena no espectador sem acrescentar muito à estória. Funciona em um certo nível mas deixa uma sensação um pouco desagradável ao fim do filme

Bolt, o filme que vi em seguida, é mais uma divertida e bem-feita animação com bons personagens e uma estória engraçada e bem trabalhada. Gostei especialmente da gata Mittens, mas Travolta se sai muito bem também dando voz ao personagem título. Não chega é claro, aos pés de um The Incredibles, mas vale o tempo gasto.

Transporter 3, infelizmente, não se salva nem com a sempre divertida atuação de Jason Statham. O filme repete a fórmula dos anteriores, mas exagera justamente no que não deveria e no que deixou o primeiro filme tão interessante (para valores de interessante centrados em diversão inútil mas inteira e completamente aceitável para mim) e transforma o filme inteiro em uma sucessão de buracos de roteiro que não podem ser corrigidos nem por boas cenas de ação.

Na seqüência, City of Ember é um pequeno conto de ficção científica sobre uma cidade salva de destruição do mundo cuja intenção era durar apenas duzentos anos mas, quando o conhecimento sobre suas origens e futuro é perdido, se vê as beiras de destruição. Quando os adultos da cidade falham em enxergar o perigo e, ao contrário, se refugiam no passado, um par de adolescentes toma a questão em suas mãos. O filme tem uma fotografia bem agradável e adequado e consegue contar uma boa estória. Vale como um filme sem grandes exageros e que por isso mesmo conta uma boa estória.

Continuando, Frost/Nixon é intenso, muito bem elaborado e conta a impressionante história das entrevistas que Frost fez com Nixon. O misto de tentativa de redenção e admissão de erros torna o enredo bem interessante e as atuação são muito boas. Vale cada minuto.

Burn After Reading é uma comédia surreal e engraçada que deu uma par de horas de diversão. Vantage Point, X-Files 2 e Bangkok Dangerous não merecem mais do que uma breve menção. Dá para assistir mas eu teria lido outro livro com o tempo perdido com eles.

Maio vem em breve com mais livros e menos filmes.

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