The Tipping Point

July 18th, 2007 § 5 comments § permalink

Acabei de ler The Tipping Point, de Malcom Gladwell. Malcolm Gladwell ganhou notoriedade com livros que exploram implicações novas e contra-intuitivas vindas de sociologia e psicologia, e que, por se aplicarem muito bem em contextos de negócios, estão ganhando bastante seguidores.

O título do livro é um termo da sociologia, e faz alusão ao ponto em que um sistema então estável se torna desequilibrado como resultado de pequenas mudanças. Poderia ser traduzido como “ponto de ruptura” ou “ponto de desequilíbrio” e, embora Gladwell não menciona, é também conhecido como “ângulo de repouso”, espelhando-se no fato físico de que um pouco de peso em objeto até então equilibrado pode levá-lo à queda.

Gladwell postula que mudanças sociais ocorrem sempre como resultado de tais pontos de ruptura, sendo iniciados por pequenas mudanças que pesam a balança até que ela se incline em uma direção determinada. Para ele, isso se aplica tanto a epidemias de doenças quanto a epidemiais socias como a adoção de determinados modismos, o sucesso de uma determinada marca ou mesmo aumento e queda de criminalidade dentro da sociedade. O objetivo principal do livro, então, é criar um modo de identificar e eventualmente causar tais epidemias sociais.

O livro apresenta um caso bem persuasivo para essa possibilidade de manipular epidemias, causa um ponto de ruptura. Para isso, o autor se foca em três principais argumentos (traduções livres):

  • A Lei do Poucos: poucas pessoas são necessárias para virar a balança; essas pessoas são denominadas conectores, vendedores e especialistas e possuem características especiais que influenciam fortemente as pessoas com as quais tem contato.

  • O Fator de Aderência: a mensagem por trás da epidemia social precisa ter algo que causa aderência, que a faça permanecer na mente das pessoas;

  • O Poder do Contexto: a mensagem é extremamente suscetível ao contexto, e, em geral, é possível manipular o contexto para acelerar o desequilíbrio.

O livro apresenta os fatores acima em dezenas de exemplos–o que, por sinal, é ao mesmo tempo uma vantagem e uma desvantagens de alguns livros sobre assuntos similares atualmente: os exemplos preenchem muito espaço quando os pontos básicos e necessários podem ser feitos em bem menos páginas. Mesmo assim, a maioria dos exemplos são fascinantes, com destaque especial para os que envolvem ritmos de interação, ou seja, aqueles padrões que adotamos inconscientemente quando estamos conversando com outras pessoas.

Aliás, um dos exemplos que mais me fascinou foi justamente sobre isso: um pesquisador que dividiu um filme de quatro segundos de uma conversa à mesa em suas partes mínimas (as frames de 1/45 de segundo) e passou um ano o meio analisando cada parte até determinar movimentos mínimos coordenados entre as partes da conversa–movimentos que sugeriam uma espécie de dança inconsciente entre as pessoas envolvidas e que explica muito sobre como persuasão e relacionamentos funcionam, entre outros detalhes psicológicos

Tudo isso torna a leitura do livro bem tranqüila e rápida–nunca cansativa–e as idéias apresentadas são suficientemente interessantes para merecer consideração posteriores e eventual aplicação em estratégias. Não que o livro deva ser tomado como uma bíblia; ainda assim, os argumentos são bem elaborados e embasados, fazendo sentido principalmente nos contextos mostrados. E se Gladwell exagera em alguns momentos para forçar o seu ponto–como no final do livro onde ele fala sobre o problema do fumo entre adolescentes–o resultado geral é muito bom.

Como de costume nas resenhas aqui, recomendo a leitura–preferencialmente se você for ler sem considerar o livro um manual. Idéias com certeza vão aparecer, mas ler sem o hype certamente ajuda.

A suposta ortogonalidade da fé

January 3rd, 2007 § 10 comments § permalink

Esses dias eu estava na empresa em que trabalhei ano passado para resolver algumas coisas e parei para conversar com alguns colegas.

Como eu estava emprestando um livro da fantasia para um colega, o papo logo derivou para o assunto, passando logo depois por ficção científica, livros eletrônicos, séries de TV recentes e por aí vai. Lá pelas tantas, o seguinte diálogo acontece:

“Você acredita em Deus, Ronaldo?”, um colega pergunta.

Um amigo ri, sabendo que sou evangélico.

Também rindo, eu respondo: “Claro. Sendo cristão, acreditar em Deus é basicamente uma premissa, não?”

Um outro amigo comenta, então: “Você é um cara estranho. É o cara mais fanático por fantasia e ficção científica que eu conheço, super-cético, gosto demais de ciência e ainda acredita em Deus, é cristão.”

Eu tomei o comentário como um elogio. Pelo tom óbvio de sua voz do meu amigo, o comentário foi feito com interesse e não de forma derrogatória, o que me levou a pensar mais sobre o assunto, no caminho de volta para casa.

Realmente, muitas pessoas consideram o interesse por ciência ou por gêneros literários “estranhos” algo ortogonal à fé professada por uma pessoa. De fato, muitos consideram que uma pessoa que defenda uma fé baseada na crença em um criador atemporal com atributos estranhos como onipotência e onisciência é automaticamente um idiota. Já até escrevi um pouco sobre o assunto aqui em algumas ocasiões (1, 2).

O irônico é que ninguém para para pensar que essa suposta ortogonalidade não existe de forma alguma. Eu vejo até mesmo cristãos que, sem se preocuparem em pensar um pouco que seja sobre o assunto, contribuem para esse mito.

Como disse acima, eu realmente gosto de fantasia. E por causa disso, a ironia de que dois recentes sucessos cinematográficos (O Senhor dos Anéis, e As Crônicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa) sejam adaptações de livros escritos por autores cristãos (um católico e um anglicano, respectivamente) não me é perdida. Os profundos temas cristãos estão lá para quem quiser ver.

Eu também gosto de ficção científica. E acho que Calculating God é uma exploração bem honesta sobre religião e ciência. Estou lendo no momento Blindsight, de Peter Watts, um excelente trabalho de ficção científica com explorações profundas sobre a natureza da realidade–um livro intensamente ateísta e questionador (que, inclusive, pode ser obtido via uma licença CC no site do autor). Em um dado momento, dois personagens estão discutindo o que a vida é realmente, tanto em termos biológicos como computacionais–e eu concordo com muito do que o autor diz nesse momento pelo simples motivo de que qualquer exploração um pouco mais profunda do que realmente somos é completamente coerente com teologia (no sentido lato da palavra).

Dawkins está sumariamente errado ao presumir essa ortogonalidade. Dentro da base axiomática daquilo que eu acredito enquanto cristão–e esta base não difere em absolutamente nada do que a Bíblia diz–não há necessidade alguma de recorrer a explicações forçadas pelo fato de que não há conflito. As diferenças estão em meras questões de crítica textual, irrelevantes para os axiomas.

O universo é uma máquina virtual, como o autor de Blindsight pergunta? Por que não? Aquilo que chamamos de eu também pode ser descrito nos mesmos termos, e isso não afeta em absoluto questões sobre a natureza da alma, responsabilidade moral, livre arbítrio, predestinação e eleição e tantos outros temas familiares a filósofos e teólogos. Antes, pensar em um modelo meta-computacional para esses assuntos esclarece uma série de pontos complicados. E eu não estou falando em termos de resolver simplesmente fazendo que esses problemas sumam por meio de uma vara de condão determinística.

No final das contas, se alguém quiser insistir na ortogonalidade, talvez eu até concorde. Mas eu vou dizer que estou então no ponto onde as duas correntes de cruzam, na coordenada de origem–em perfeito equilíbrio.

Ciência e crítica à religião

October 11th, 2006 § 4 comments § permalink

Meme Therapy, um blog conjunto sobre ficção científica, está tecendo algumas considerações sobre ciência e religião, mais específicamente perguntando se cientistas deveriam criticar a religião indiscriminadamente–e, por extensão, vice-versa. A entrada é motivada principalmente pelo documentário recente de Richard Dawkins, The Root of All Evil?, em que o famoso biólogo define a religião como um vírus mental que deveria ser combatido e erradicado da mesma que qualquer outra vírus biológico.

Eu já comentei sobre o assunto aqui em outra ocasião, respondendo a algumas entradas em outro blog, mas acabei não me esticando muito no assunto. Como cristão professo–de uma variedade que antigamente seria chamada de fundamentalista, embora a palavra tenha sido deturpada hoje para significar classes religiosas como a direita americana ou terroristas islâmicos–o assunto sempre me interessou. E como um apaixonado por ciência e filosofia, eu sempre vivi em um mundo balanceado entre os dois e sempre tentei demonstrar a possibilidade de conexão entre uma coisa e outra.

Mais notadamente, as entradas mencionadas acima consistem em respostas à questão pelos participantes do Meme Therapy, que variam desde detratações completas da religião a posições mais equilibradas. Os comentários são bem interessantes e a posição de John C. Wright, um notado e excelente escritor de ficção científica me pareceu particulamente sã. Respondendo a uma crítica unilateral em outro blog, ele desconstrói o argumento usado, fazendo algumas comparações bem aptas (com uma boa dose de sarcasmo, por sinal):

“Religion must be a phony, because, um, the overwhelming majority of the greatest sages, philosophers, thinkers and writers of every era on every continent have been religious men, except for Marx and Nietzsche, and their mystical impulses had other outlets. And we know geniuses are easy to fool.”
A bilateralidade entre ciência e religião é um ponto morto quando adotada radicalmente. Pensar em domínios e dividir a esfera de conhecimento humano em partes é algo que nenhum filósofo sensível pensaria em fazer e, entretanto, essa parece ser a posição dominante hoje.

Wright continua:

“And religion must be a power-grab, because people foreswear worldly position, and wealth, and some even give up the comforts and delights of marriage to better serve God. Those hermits who live without any worldly possessions must all be epicureans lusting for power over us … but they’re really, really subtle. And martyrs: people who die rather than renounce their faith, are obviously motivated by a materialistic calculation of how to make money in the stock market. Washing the feet of beggars in India is a sure way to grab supreme executive power!”
Eu volto a pensar na questão da palavra “fundamentalismo” como uma manifestação da inversão de pensamento ironizada acima. Um dos grandes argumentos contra a religião, um dos preferidos, é a propensão do ganho de poder temporal por parte de líderes. O fato de que poder temporal não é um resultado direto da religião, mas da utilização de uma característica psicológica inerente da raça humana é algo que passa despercebido em todas essas críticas.

Wright termina com a seguinte conclusão:

“All sarcasm aside, religion is a complex phenomenon, found universally among all societies and tribes of men, as far back as anthropology can spy. If religion is false, it is falsehood that is built into the genetic predispositions of the whole race, a massive psychological failure as hard to avoid as the sex-drive, and not the product of some sinister conspiracy of The Three Imposters.”
Desnecessário dizer, eu concordo com o que ele diz. Não há a menor necessidade de atribuir um valor negativo de julgamento à religião meramente por causa do seu uso indevido ou desgosto pessoal.

Religião e ciência são manifestações coesas do pensamento humano. Algo interessante a se pensar sobre isso é o fato de que algumas disciplinas da ciência sempre ficarem na borda entre o experimentável e o perceptível (psicologia, por exemplo). Eu não acredito que essa dicotomia venha da inexistência de métodos quantificáveis de tratamento para as mesmas, mas sim dessa inabilidade de aceitar a contraparte necessária da experiência humana.

Eu não estou dizendo é claro que uma shamã ou um pastor deveria ser consultado para validação científica antes da publicação de qualquer tese de psicologia ou antes da apresentação de uma dissertação sobre física quântica. Mas a pressuposição de que não há impacto científico na existência das religiões é tão vazio quanto a afirmação contrária.

O debate é longo e eu não vou me esticar. Fica, entretanto, a recomendação de leitura.

Atlas Shrugged

October 10th, 2006 § 0 comments § permalink

“That which you call your soul or spirit is your consciousness, and that which you call ‘free will’ is your mind’s freedom to think or not, the only will you have, your only freedom, the choice that controls all the choices you make and determines your life and your character.”

Pelo que parece, Atlas Shrugged, de Ayn Rand, vai mesmo virar um filme, com a personagem principal interpretada por ninguém menos que Angelina Jolie. Considerando que as pessoas envolvidas no projeto até o momento parecem admiradoras da obra, é bem possível que o filme seja uma adaptação decente–até onde é possível fazer isso com um livro que chega a quase 1100 páginas e que inclui um capítulo com 60 páginas formadas por um único discurso.

Mesmo não sendo um partidário do Objetivismo, eu considero Atlas Shrugged um dos melhores livros do século XX. A obra, publicada em 1957, é uma crítica social brilhante que permanece válida em muitos níveis, inspirando dezenas de outros trabalhos–entre os quais a extremamente popular série de fantasia The Sword of Truth, que é basicamente uma releitura do trabalho de Ayn Rand (incluindo os longos discursos).

Concordando ou não com muitas das conclusões a que ela chega, é inegável para o leitor que a autora pensou cuidadosamente sobre os temas que aborda no livro e se ela não resistiu à vontade de pontificar, refletir esses temas e a relação dos mesmos com outros trabalhos de cunho filosófico é um bom exercício.

O filme chega em 2008 e se você gosta desse tipo de obra, a leitura vale a pena.

Prisão Religião?

January 11th, 2005 § 24 comments § permalink

Atualização: Como a Alexandre parece não estar muito interessado em ter uma discussão sobre o assunto, eu não vou continuar a série que estava planejando, a menos que haja interesse de outras pessoas.

(Se você é um leitor regular e gosta mais ou somente da parte técnica, aviso que este texto difere fundamentalmente — com perdão do trocadilho — do que coloco aqui normalmente. Fique à vontade para pulá-lo e esperar a próxima entrada, se não se interessar. Sem ressentimentos.)

O Alexandre — do blog Liberal, Libertário, Libertino — está publicando mais alguns textos na sua série de artigos sobre as prisões (supostas ou não) que limitam o homem. Dessa vez, o assunto é religião, uma tema decididamente espinhoso.

Comentando com o Galvez via ICQ, eu disse que não meteria o bedelho no assunto, apesar de ler e gostar da maioria do que o Alexandre escreve, porque discussões sobre esse assunto tendem a degenerar rapidamente e mesmo as pessoas que tentam argumentar ao seu favor acabam contribuindo somente para aumentar o nível de ruído.

Depois de ler o segundo texto sobre religião, porém, eu decidi que talvez valha a pena tentar argumentar, partindo do ponto de vista oposto. Eu considero muito o que o Alexandre escreve, mas os argumentos dos dois textos vistos até agora carecem tanto de fundamento que parecem saídos d’O Código Da Vinci — por exemplo, asserções como a de que Jesus nunca pregou uma ruptura com o judaísmo e a de Paulo inventou o cristianismo moderno. Como gosto de fazer, já vou avisando que vou debater o mérito dos argumentos, não as opções do Alexandre, apesar de considerar que ele não teve a mesma gentileza.

Esse meu primeiro texto, inclusive, é apenas para introduzir algumas clarificações no debate antes de entrar nos detalhes dos argumentos propriamente ditos. Como o Alexandre não qualificou muitas das declarações em seus textos, provavelmente ao responder o meu (se ele decidir fazer isso, é claro), ele terá que ser mais específico.

Começando, então, a primeira coisa a notar é que eu sou um verdadeiro cristão. Nas palavras do Alexandre, “alguém tão cego e tão aprisionado por dogmas tão idiotas que mal conseguiria funcionar como ser humano”. Até a última vez em que verifiquei, eu conseguia funcionar como um ser humano normal (talvez minha esposa discorde, mas essa é outra história). Assim, como o rótulo “verdadeiro cristão” não foi definido adequadamente, eu vou supor que signifique alguém que aceite a Bíblia como autoridade moral e inspirada.

Eu sou um fundamentalista no sentido antigo do termo, alguém que aceita certos fundamentos bíblicos como sendo o seu credo — não a distorção usada hoje em dia para referir-se a certos cultos islâmicos radicais. Eu sou criacionista, embora recuse a maior parte do que foi escrito sobre o assunto. E sou um batista tradicional, se a distinção denominacional for importante. Em outras palavras, protestante. (Interessante é que, em outro texto, o Alexandre diz que as Bíblias protestantes são menos intrusivas, favorecendo uma interpretação mais pessoal, ou seja, obrigam os leitores a pensar.)

Isso dito, eu sou um cético no sentido mais amplo e prático possível da palavra. Se você nunca ligou essa palavra a um cristão, sua visão do cristianismo é realmente limitada. Eu sou um fundamentalista (dogmático, algums diriam) e, ainda assim, um cético.

Provavelmente, você já ouviu essa piada:

“Um engenheiro, um físico e um matemático estão viajando de trem pela Escócia quanto vêem uma ovelha negra passar lá fora.

‘Interessante!’ diz o engenheiro. ‘As ovelhas escocesas eram negras.’

‘Você quer dizer que algumas ovelhas escocesas são negras, não?’ replica o físico.

‘Não’, responde o matemático. ‘Tudo o que sabemos é que há pelo menos uma ovelha na Escócia e que pelo menos um lado dessa ovelha referida é preto.’”

Eu sou esse matemático. Ou as testemunhas juramentadas de Estranho em uma Terra Estranha, de Robert Heinlein, que provavelmente é de onde essa piada surgiu. A matemática tem axiomas; a religião tem dogmas. (Largue essa pedra e pegue um dicionário.)

Paulo também era um cético. Se consideramos suas ações como descritas na Bíblia e concordantes com a tradição, ele era um homem que examinava criticamente os fatos que chegavam a ele. Um dos conselhos que ele deu em suas cartas (1 Tessalonicenses 5.21) foi justamente esse: “Não desprezem as profecias [a revelação bíblica], mas ponham à prova todas as coisas e fiquem com o que é bom.”

Em grego, a expressão “por à prova” é dokimazó, que significa literalmente “testar”, “examinar criticamente”. E a palavra traduzida para “bom” é kalos, que geralmente significa valioso, honesto, digno de confiança.

Paulo advoga nada mais, nada menos do que o velho princípio de considerar tudo à luz da evidência e decidir racionalmente o que é verdade ou não. Isso é esperado de ciência; por que não de religião?

Eu sou um cético. Minha religião está embasada no meu raciocínio. Isso não quer dizer que eu possa provar tudo. Longe disso. Quando mais eu penso no que a minha filosofia representa para mim e para minha interação com os outros, mais perguntas se levantam. Algumas dessas, são intensamente difíceis e eu ainda tenho um longo caminho pela frente para respondê-las. Mas isso não limita o meu pensamento crítico e nem foi capaz de remover a minha fé. Há uma questão, inclusive, que me afigura tão complicada que eu acho que ainda vou estar refletindo sobre aspectos dela aos oitenta anos.

Não existe fé cega para um cristão verdadeira. Não há nada na palavra fé (é a velha e boa confiança) que requeira a suspensão da descrença. Se você olhar exemplos da própria Bíblia (nesse texto ainda vou me ater primariamente a ela), você perceberá que ela nunca exigiu isso do crente.

Quer exemplos? Quando Abrão perguntou a Deus como “saberia que as coisas que Deus dissera realmente aconteceria” (Gênesis 15), Deus não o fuzilou instantaneamente por falta de fé. Deus fez um tratado legal com Abrão. O Todo Poderoso se submeteu ao crivo do direito. Não acredita que o texto retrata eventos reais? Nem importa, para falar a verdade. O que é visível aqui é que não há insultos à inteligência de ninguém.

Quer outro exemplo? Os cristãos de Beréia, em Atos, foram considerados mais nobre do que os de Tessalônica porque receberam a mensagem com alegria e examinaram dia a dia as Escrituras para ver se o que Paulo dizia era verdade. Dois coelhos de uma cajadada só: essa passagem mostra que a atitude de ceticismo prático era aprovada e que o que Paulo dizia estava de acordo com a Tanaach.

Eu poderia citar exemplo após exemplo (Dt 18; 2 Sm 1; 2 Co 13; Dn 1; Ez 13; Jo 20; At 17, etc, etc.) em que o raciocínio é considerado como uma prática básica na Bíblia e em outros escritos dos chamados pais da Igreja. Voltando ao texto do Alexandre, sem oferecer provas, ele recorre à falácia argumentum ad hominem para justificar seu argumento (sem contar outras como falso dilema, argumentum ad ignorantia, apelo à autoridade, generalizações apressadas e outras que aparecem nos dois textos).

Todavia, eu já estou me esticando demais. Nos próximos textos (se eu ainda tiver morrido da gripe que peguei), eu vou tratar alguns argumentos específicos. Existe até uma questão interessante sobre a prisão da crença cristã, considerada na própria Bíblica. Você sabia, por exemplo, que a fé é chamada de escravidão da liberdade em Cristo Jesus? Pois é.

Se ainda tiver paciência, vejo você no próximo texto.

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