Fazendo aquilo com o Groupon

January 2nd, 2011 § 6 comments § permalink

Há uma grande discussão acontecendo agora sobre o modelo de negócios do Groupon. Depois que a empresa recusou a oferta de aquisição do Google, a pergunta que todo mundo está se fazendo é se os donos o Groupon são insanos ou brilhantes, tão confiantes no seu modelo de negócios e na habilidade do mesmo de ir além de qualquer oferta que o Google possa fazer–e isso depois da oferta ter sido dobrada duas vezes.

John Battelle é um dos que pensam que o Groupon fez a escolha certa. Ele escreve:

Good sources have told me that Groupon is growing at 50 percent a month, with a revenue run rate of nearly $2 billion a year (based on last month’s revenues). By next month, that run rate may well hit $2.7 billion. The month after that, should the growth continue, the run rate would clear $4 billion.

Battelle atribui isso a uma combinação de fatores: relacionamentos, localização e timing–veja o artigo para uma explicação maisprofundo do que torna o Groupon quase que irresistível para pequenos negócios. E como ele nota em seu artigo, a run-rate demonstrada até agora pelo Groupon é o triplo do que o próprio Google experimentou em seus anos iniciais.

Eu estava conversando com um amigo outro dia sobre compras coletivas e ele disse que o maior problema que afetaria e eventualmente mataria o modelo de negócios dessas empresas seria o churn, isto é, o fato de que muitas dessas ofertas estão criando problemas para os pequenos negócios usando a plataforma. De fato, há dezenas de histórias sobre pessoas sendo maltratadas porque chegaram com um cupom do Groupon ou equivalente local e o negócio em questão já estava irritado por estar perdendo dinheiro com esses clientes. Eu escutei várias dessas histórias em primeira mão e em muitos casos, os donos tinham calculado incorretamente o que podiam ou deveria oferecer e ficaram descontendes com a experiência com um todo, consequentemente se tornando menos e menos interessados em trabalhar novamente com compra coletiva.

Eu acredito que o churn que estamos vendo é somente uma conseqüência da forma como novos mercados funcionam. Se o Battelle está correto–e eu acredito que sim–o churn se tornará cada vez menor à medida que os negócios encontrem seus sweet spots no ecossistema. Eu não vejo porque, por exemplo, o Groupon não possa oferecer uma ferramenta que permita que os negócios entrem com alguns parâmetros e depois deduza o preço relativamente ideal para uma certa oferta. De fato, isso nunca vai ser exatamente precisa mas dará aos negócios usando a plataforma uma maneira de evitar os problemas mais extremos.

Em última instância, porém, eu acredito que o Groupon será bem sucedido porque está mudando a forma como as pessoas se relacionam com os negócios locais. Recentemente, falando com dois outros amigos, eles me contaram como os clones locais estão tendo um impacto em seus padrões de compra.

Um deles, divorciado, nos seus quarenta, disse que não janta fora mais a menos que tenha um cupom. Esses cupons o estão ajudando a aumentar o price point dos seus gastos e, consequentemente, melhorar os locais que ele pode freqüentar. Com a ajuda dos cupons, ele está indo para locais mais caros mais vezes por semana. Essa é uma mudança grande que está beneficiando o meu amigo e os pontos que ele gosta. Como os negócios estão se tornando mais cuidados e aumentando os gastos colaterais, como bebidas e outros–algo perfeitamente aceitável–isso faz com que o resultado seja proveitoso para todos envolvidos.

O outro amigo, com seus trinta anos, disse que que compras coletivas estavam na verdade ajudando que ele transasse mais. Ele é solteiro e está usando uma variedade de cupons–restaurantes, spas, roupas, pequenos itens–para impressionar e interessar mulheres. Ele ainda está usando uma quantidade considerável de dinheiro mas o Groupon e seus similares estão fazendo com que ele gaste esse dinheiro de forma mais eficiente em direção ao seu objetivo–que, sejamos sinceros, incluem no momento transar tantas vezes quanto possível no menor período de tempo. E é quase auto-evidente pela forma que mercados funcionam que qualquer coisa que ajude pessoas a conseguirem mais sexo–ou encontram qualquer medida de satisfação sexual–está em condições muito melhores de ser bem sucedido.

E aqui você tem o resumo final: pessoas estão fazendo mais sexo com o Groupon. E isso torna a sua posição mais forte ainda. Battelle está correto–do ponto de vista dos pequenos negócios–e meu amigo também está correto–do ponto de visto do consumido.

E dos dois modos, o Groupon vence.

A pobreza das conexões

April 22nd, 2009 § 17 comments § permalink

Quando eu li Peopleware pela primeira vez, um dos tópicos que mais me chamou a atenção foi o conceito de flow. Esse conceito, advindo em grande parte do trabalho do psicólogo húngaro Mihály Csíkszentmihályi, descreve o estado em que uma pessoa está inteiramente comprometida com a realidade da execução de uma tarefa, seja qual ela for. Flow, em outras palavras, é a imersão completa em uma atividade ao ponto em que a pessoa chega a perder a consciência de que está fazendo algo até que o trabalho esteja completo–ou o estado seja interrompido.

No contexto de Peopleware–e, de fato, do campo da computação/programação em si–flow é algo bem conhecido. Programadores rotineiramente experimentam isso como parte do seu dia-a-dia. Existem argumentos de que não há como existir trabalho produtivo sem flow e livros inteiros dedicados ao tópico de redução de interrupções no ambiente de trabalho para aumentar o tempo em que programadores passam nesse estado. Obviamente, o trabalho de Csíkszentmihályi se aplica a qualquer campo em que criatividade e expressividade sejam parte da equação e existe literatura correspondente para tal.

Eu estava conversando com um gerente recém-promovido cujas preocupações são aumentar a produtividade de sua desmotivada equipe. Uma das atividades que sugeri a ele–retirada diretamente de Peopleware e cujo objetivo é sensibilizar a direção de uma empresa para a necessidade de flow–foi medir o quanto de trabalho um de seus programadores conseguia realizar em um dia e o quanto de interrupções ele sofria. O resulto foi revelador: trinta minutos de trabalho útil para mais de seis horas de interrupções (entre as quais, a importante atividade de atender a porta da empresa, perto da qual o programador em questão está sentado).

E claro, uma das propostas da empresa para aumentar a produtividade dos funcionários é remover o acesso a instant messaging e redes sociais. Como é comum nesses casos, o escape que o funcionário possui da, de outra forma, entediante realidade de seu trabalho, é fomentar suas conexões. Obviamente, como Peopleware discute muito bem, a remoção de tais privilégios terá um único efeito: aumentar o turn-over experimentado pela empresa.

O que me leva a pensar na ironia de uma questão fundamental que aflige a raça humana. Eu não quero filosofar banalidade aqui, mas uma das perguntas fundamentais que permeiam a nossa vida–junto com as tradicionais “quem sou?”, “de onde vim?” e “para onde vou?”–é como escapar da mediocridade que insiste em se insinuar por tudo o que fazemos.

Confrontados com seus dez ou quinze anos de carreira ou com o gênio unidirecional de Albert Einstein e Garry Kasparov, ou, pior ainda, com as realizações de polímatas como Leonardo Da Vinci e John von Neumann, são poucos os que admitem (publicamente, pelo menos) o pavor da mediocridade que assombra os horizontes futuros de suas vidas.

Novamente, a ironia disso tudo está nas substituições precárias que fazemos. Algumas vezes acertamos, mas como o motivo permanece incorreto, a continuidade do que acreditamos ser mediocridade é garantida.

Conversando com um amigo recentemente, falávamos sobre as aulas de Arte (com A maiúsculo) que ele recebe de um conceituado artista brasileiro. Em nossa conversa, a tema central era o real significado de criar Arte e se qualquer pessoa pode atingir esse ideal. Existem milhares de guitarras abandonadas em quartos escuros, esperando a mão que poderá transformá-las em algo transcendente–não para outros, já que é impossível realmente conhecermos o Outrem–mas pela beleza do próprio eu, trazendo à tona o real significado da Arte. Tudo o que se requer dessa mão é dedicação, transformando o tempo que de outra forma seria perdido; um entendimento, enfim, de quais são os demônios a serem combatidos. São os demônios, não a mediocridade, que deveriam nos assombrar.

O que nos leva de volta ao flow e as parcas e infundadas tentativas de produzi-lo através da remoção de artefatos que em outras circunstâncias seriam vistos como incentivos. Mas, o são realmente?

Eu não consigo deixar de pensar em como a manutenção de conexões extrínsecas é um pobre substituto para o tipo de reflexão e prática associados com Arte e Realização (aqui, no sentido filosófico/matemático de atualizar, tornar real, reificar).

Malcolm Gladwell, em seu mais recente trabalho, popularizou a conhecida regra das dez mil horas como sendo o tempo necessário para que alguém se torne proficiente em uma atividade. Gladwell foi criticado pela simplificação, mas quando a asserção é vista no contexto do trabalho de Csíkszentmihályi, ela começa a fazer mais sentido. Flow requer investimento de tempo, e se flow é um pressuposto para trabalho produtivo e permanente, se segue que a manutenção de conexões efêmeras é algo que está na contramão da realização.

Presença, um tópico permanente nas múltiplas ferramentas de conexão das quais a vida moderna parece depender, tem implicações sutis para o flow. Conectividade, vista sobre esse prisma, é uma forma de pobreza porque gera um fluxo constante de interrupções que eliminam completamente a possibilidade da realização de algo de valor concreto. O conectado, em troca da efêmera e duvidosa sensação de intimidade e pretensa consciência do seu ambiente, perde a capacidade de cultivar jardins privados e afastados da Web cujo valor remete ao discutido acima sobre Arte.

Celulares que vibram a cada segundo indicando uma nova mensagem de uma rede social composta essencialmente por estranhos de contato passageiro, o ícone de uma ferramenta de acesso ao Twitter que pisca incessantemente lembrando que alguém acabou de dizer alguma coisa absolutamente sem valor imediato (e muito provavelmente sem valor futuro também), a lista de atualizações de um Orkut ou Facebook desfiando minúcias irrelevantes da vida de outras, vão se compondo, dedos se coçando, porque eu preciso de mais e mais pontos de contato, opondo-se ao virtuosismo representado pelo flow.

Eu não quero somente uma faceta da vida. Eu não quero a mediocridade destilada em pequenas quantidades. Eu quero o imediatismo de uma derrota brilhante no xadrez sofrida para um amigo com o qual compartilho dezenas de horas de conversas entre jogos, estratégia definida em anos e não somente as trocas rápidas e fugidias dentro de uma aplicação Facebook. Eu quero as discussões intensas sobre linguagens de programação esotéricas cunhadas em um des/entendimento mútuo e não somente opiniões (mal) explicadas em cento e quarenta caracteres ou menos. Eu quero o entendimento da transcendência que você vê no jazz e eu vejo no blues, refinada por notas dedilhadas aqui e ali, pelo retorno de uma sessão tocante entre mestres de outrora e do presente, e não por um endereço Web, uma experiência por proxy.

E, acima de tudo, eu quero o tempo necessário para os demônios que me assombram.

Longos prazos no desenvolvimento humano

February 25th, 2009 § 2 comments § permalink

Meu primeiro contato com a fundação The Long Now foi através de um sub-projeto da mesma: o Long Bets, que procura gerar discussões públicas e responsáveis sobre tendências e previsões relacionadas à sociedade humana como um todo.

No começo de 2002, Dave Winer, um dos pioneiros da então incipiente “blogosfera”–e cujo blog eu lia na época–fez uma das primeiras apostas registradas no site. A aposta foi entre ele e o CEO do New York Times e essencialmente era sobre a relevância dos blogs em resultados de busca para cinco anos no futuro. Winer acreditava que em 2007, para as principais histórias do ano, blogs seria responsáveis pelos resultados mais importantes. Winer ganhou a aposta, a propósito.

Acabei ficando curioso com a idéia que teria motivas as longas apostas e descobri que eram somente parte de um projeto maior de consciência a longo prazo sobre assuntos humanos por uma fundação criada especificamente para esse propósito.

Os criadores da Fundação The Long Now sentem que o passo da civilização humana está chegando em um ponto intolerável onde o tempo de atenção médio da espécie é patologicamente prejudicial à sobrevivência da mesma e estão criando projetos que vão tentar incentivar o pensamento em prazos que compreendem não somente anos, mas em alguns casos olham milênios à frente.

Um desses projetos, por exemplo, é o 10,000 Year Clock. Esse projeto visa construir um relógio capaz de durar 10 mil anos, que é justamente o tempo em que a humanidade existe com uma espécie tecnologicamente estável. Para apoiar nesse processo, uma das idéias interessantes é usar uma base milenar na nomenclatura dos anos. Como pode ser visto nos sites da Fundação, os anos são registrados com um zero a mais, 2009 sendo 02009 no caso. O relógio a ser construído duraria até o ano 12000, marcando os 10 mil anos do protótipo inicial.

Outros projetos compreendendo o mesmo timeframe estão sendo elaborados, com o propósito de preservar a herança lingüística e o conhecimento que está sendo acumulado atualmente e que corre o risco de ser perder por existir em formatos proprietários e pouco duráveis.

Estou começando agora a ler Anathem, do Neal Stephenson, que também é inspirado pelas idéias da Fundação e está sendo bem interessante ver como Stephenson conduz essa idéia de pensamento a longo prazo dentro da obra–algo que ele já faz por extensão em outros de seus trabalhos mas que fica mais evidente em Anathem.

Trabalhando em uma profissão em que as coisas são medidas em um ritmo dezenas de vezes maior do que da maioria das outras áreas, não fica difícil perceber a atração que isso possui para a discussão tecnológica–não por que há uma necessidade de reduzir o ritmo, mas sim pela idéia de remover o imediatismo e pensar em como o acúmulo de decisões corretas é necessárias para um uso são dos recursos planetários que temos e uma eventual saída do planeta.

Se vamos evitar os cenários apocalípticos e destrutivos que permeiam nossos sonhos ficcionais, precisamos de uma visão que olhe para um momento em que não seremos os mesmos em nossa relação com o universo mas que nos permita permanecer essenciais ao que somos. Essa é uma das promessas dos projetos Long Now e algo que acredito valer o esforço.

Conectando catástrofes econômicas

September 28th, 2008 § 0 comments § permalink

No começo do mês, eu li Linked, que é uma narrativa da história do estudo de redes e seu impacto sobre os vários campos de conhecimento humano.

Uma das partes mais interessantes do livro é a discussão sobre a fragilidade inerente de redes. Essencialmente, a mesma coisa que as torna fortes as torna vulneráveis a certos tipos de situações e ataques. Um dos vários exemplos citados dessa particularidade é o sistema monetário, com sua propensão a falha (semi-)catastróficas que começam com pequenos eventos.

Lendo sobre a crise financeira americana, seu histórico, e os passos que estão sendo tomados para tentar resolvê-la, é impossível não lembrar dos exemplos de Barabási no livro. O que realmente dá medo é perceber que quando Barabási escreveu o livro, ele estava olhando para trás e vendo crises bem menores em um mercado que possuía um pouco menos de dependências do que o mercado atual. Cinco anos mais de política econômica progressivamente suicida de um governo anêmico só serviram para reforçar o que já estava acontecendo e tornar a situação ainda mais volátil.

O impressionante é perceber que nenhum tipo de conversa pública que se tem sobre o assunto leva em conta esses novos aspectos que estão sendo relevados sobre teorias mais modernas. É impressionante perceber a falta de atenção que os poderes que são possuem no quesito de se manterem coerentes com os avanços tecnológicos que afetam o social. Conversamente, nesse aspecto, redes alternativas podem oferecer soluções interessantes para o problema. O problema todo vai ser passar pelo problema e sair ileso do outro lado.

Dinheiro livre

September 23rd, 2008 § 2 comments § permalink

Douglas Rushkoff tem um belíssimo artigo hoje no Boing Boing sobre o passado e o possível futuro do dinheiro e capitalismo que vale a leitura para qualquer um acompanhando as movimentações recentes sobre a crise mercadológica em progresso nos EUA.

É bem interessante que Rushkoff, que claramente acredita em um futuro de pós-escassez determinado por um mercado descentralizado (open source como ele mesmo coloca), apresenta opções diretas que estão acontecendo e que valem a pena ser investigadas.

O que me deixa bem curioso é ver como várias pessoas estão apontando para o fim do mercado como nós o conhecemos. É claro que, historicamente, mesmo se isso for verdade, o processo demora um tempo longo o suficiente para que só provavelmente os netos de nossos netos tomem consciência de que realmente houve como a “Grande Transição Mercadológica do Século 21”. Mesmo em tempos atuais, com todo o acesso histórico real-time é impossível prever qualquer coisa além de algumas poucas horas.

Ainda assim, o interessante é usar esse tipo de oportunidade como uma forma de educar a comunidade em geral sobre outras configurações válidas para cenários que geralmente são considerados fixos quando são, na verdade, sujeitos a um grande grau de maleabilidade.

Há um certo karma envolvido em viver em tempos interessantes. O que espero é que o preço a pagar seja tolerável dessa vez.

Guerras paralelas no ciberespaço

August 10th, 2008 § 1 comment § permalink

Na esteira da guerra entre Rússia/Geórgia, um lado aparece com pouco ou nenhum destaque nos jornais internacionais: a guerra paralela pelo controle do ciberespaço entre os países.

No momento, a infra-estrutura de Internet da Geórgia está sobpesado ataque pela RBN, com essencialmente todos os roteadores de entrada/saída do país sob controle externo. Para mais informações sobre a RBN, veja a Wikipedia.

Para quem leu Spook Country recentemente, os ecos são–no mínimo–prescientes.

Deve-se notar que, pelas informações técnicas divulgadas, os ataques ainda são relativamente mínimos, mais no nível de controle de propaganda do que de qualquer outra coisa. Obviamente, como qualquer outro tipo de técnica de guerra, não deve demorar muito até que esse tipo de coisa não seja só comum como também de uma sofisticação enorme. E, é claro, esse tipo de ataque não será restrito a organizações de poderio militar mas disponível a qualquer um com banda e habilidade suficiente para encontrar vulnerabilidades em instalações de outros.

Isso é o real século 21.

Webpanel Jukebox, resumo

March 31st, 2008 § 0 comments § permalink

Hoje participe do Webpanel do Jukebox Blog, como havia anunciado semana passada. Fui a convite do Fugita e gostei bastante da discussão e anúncios que foram feitos durante o evento. Presencialmente havia pelo menos 50 pessoas e a parte online, transmitida ao vivo, chegou a registrar 75 participantes, sem contar as várias pessoas que estava seguindo pelo Twitter e outras que estavam seguindo pelo Yahoo! Live.

O evento começou com o Jorge Steffens, CEO da Datasul–o prime mover do evento–falando sobre a evolução da área de desenvolvimento nos últimos anos. Para ele, a evolução foi rápida e significativa, ao ponto de termos software como commodity hoje, mas sem mudanças significativas no processo que o tornem mais acessível ao usuário. No contexto do que o blog dele mencione, essa falta de ergonomia (que é equilíbrio entre usabilidade, acessibilidade, performance e outros requisitos similares) é algo que falta da comunidade. Essa parte da conversa me lembrou muito o papo recente sobre simplicidade em desenvolvimento.

Depois disso foi vez de Alvacir Schulze, gerente de tecnologia da Datasul, falar sobre os desafios do desenvolvimento colaborativo de software. A palavra chave foi “focabilidade”, que se encaixa na questão se ergonomia especificando um foco que deve ser mantido no desenvolvimento do software para gerar uma interface que seja significativa para o usuário. Uma lembrança interessante foi a aplicação da regra de Paretto a interfaces (Google Mail sendo um exemplo dado), para gerar algo que seja prontamente usável tanto para iniciantes como usuários mais experientes.

Na seqüência, o Glauco Scheffel, arquiteto de tecnologia da Datasul, falou sobre o projeto aberto da empresa. A Datasul, que é, por admissão própria, uma empresa fechada, está no processo de reconhecimento do valor do software livre. Isso vem de dois entendimentos: o primeiro, em relação ao uso de patentes e o perigo que as mesmas representam para a inovação; segundo, em relação ao valor ideológico e comercial do software livre. Essa último reconhecimento é interessante porque, mesmo que a empresa queira, sim, um retorno de investimento em seu uso do software livre, há um entendimento de que um retorno é necessário para garantir a inovação. A idéia é construir deliberadamente para reusar e liberar. Ou, given enough eyeballs all bugs are shallow. Essa parte terminou com uma demonstração da Comunidade Open Source da Datasul.

A partir daí o evento continuou com uma mesa de debates do qual participaram o próprio Jorge, o Edney “Interney” Souza, o Severino Benner da Benner, o Mauro Perez da IDC Brasil e o Guilherme Jardim da Winart. A discussão foi focada basicamente na resposta de perguntas feitas pelos participantes tanto presenciais como online.

Um dos momentos engraçados nessa discussão foi quando o moderador, Antonio Carlos Rego Gil da Brasscom, pediu ao Edney dicas de monetização para o blog de sua filha. O Edney, graças a Deus, desviou-se habilimente da conversa. O Gil, que aparenta seus 65 anos, apesar de alguns apartes um tanto ou quanto deslocados sobre o poder de competição e criatividade do Brasil, provou entender bastante do assunto, falando sobre user generated content, convergência no celular e vários outros assuntos que eu tenho explorado bastante nos últimos anos.

Um ponto baixo foi a participação de alguém da Microsoft–não peguei o nome–falando sobre a necessidade de um “deviner”, um profissional versátil em programação e design ao mesmo. Essa utopia irrealizável reflete o recente foco da Microsoft em coisas como o Silverlight e o Expression Engine, mas não tem qualquer valor real em termos de futuro possível de desenvolvimento. Como eu comentei durante o micro-blogging pelo Twitter, eu acredito em profissionais versados, mas essa versatilidade do “deviner” não é só utópica e rara, mas desnecessária em qualquer contexto atual. Eu acho que não estou sozinho na idéia porque o Edney apontou a necessidade do que ele chamou de “devuser”, um desenvolvedor que entenda o usuário e uma professora de ergonomia participante pela Internet também reforçou o ponto de ser versado em contrapartida a versátil.

As demais perguntas pode ser vistas no meu Twitter já que seriam extensas para tratamento aqui. No geral, o evento foi bem interessante e se alguns temas foram batidos–por virem de uma empresa que está dando seus primeiros passos em um mundo pelo qual muitas outras já transitam–o ânimo e a conversa gerada são mais valiosos do que qualquer repetição do tema. Gostei bastante e espero participar de outros similares.

Seriestreaming

March 30th, 2008 § 1 comment § permalink

Estava assistindo um pouco de TV hoje e vi um trecho de um episódio de CSI onde o Twitter é usado para colher informações sobre o suspeito de um crime. É claro, a representação é exagerada, com mais funções do que o aplicativo suporta, mas a introdução constante de ferramentas modernas em séries é bem interessante.

O mais interessante do episódio, entretanto, não foi o uso do Twitter, mas a leve indicação de uma consciência sobre o fato de que lifestreaming está se tornando uma coisa cada vez mais presente entre os usuários da Internet. Não é referenciado pelo nome é claro, mas a presença imersiva online está bem explícita na conversa dos personagens.

Também interessante é o que um dos personagens fala: “They don’t expect privacy, they value openness”. Essa é uma das maiores mudanças que está acontecendo em relação ao uso de Internet atual e algo que vai ser fundamental para a compreensão do uso futuro da mesma pela geração atual que está sendo criada sob seu manto.

Eu me confesso impressionado por ver duas coisas fundamentais serem expressadas com tal casualidade em um programa. Pode ser uma completa coincidência, mas não deixa de ser algo bem curioso.

Jukebox Webpanel

March 28th, 2008 § 0 comments § permalink

Segunda-feira próxima vou estar, a convite do Fugita, no evento Jukebox Webpanel. O evento é uma discussão sobre desenvolvimento orientado à ergonomia, um tema que já vem sendo desenvolvido pelo Jorge Steffens–CEO da Datasul–em seu blog.

Esse é um tema interessante, no qual tenho bastante interesse e vou aproveitar a oportunidade para ver o que outros estão pensando e fazendo sobre o assunto.

Para que não pode estar presente, o evento será transmitido pela Web.

Pequeno ponto azul?

March 25th, 2008 § 1 comment § permalink

Toda hora que eu penso no debate sobre aquecimento global, eu lembro de duas coisas: uma, do filme Waterworld; duas, da série Science in the Capital do Kim Stanley Robison–não necessariamente nessa ordem.

Tudo bem que o filme é uma porcaria absoluta, mas a imagem da terra coberta por água–ainda que um futuro improvável mesmo que possível–é forte o suficiente para deixar qualquer um que veja o filme pensando no que aconteceria se um cenário como aquele começasse a se desenvolver nos tempos atuais.

A série, por outro lado, é mais sobre como ciência, aplicada com afinco e humanidade, mesmo que em doses pequenas, pode resolver problemas enormes. É claro que, como os três livros da série mostram, se o problema chegar a um ponto extremo, medidas extremas serão necessárias. No livro, a Corrente do Golfo pára, e é precisa utilizar a produção de sal de dois anos de mundo inteiro para fazê-la seguir novamente antes que a economia européia entre em colapso pela falta de alimentos.

Humanos, regra geral, não pensam absolutamente no futuro, por mais que digam que sim. São raros o que se preocupam além dos próximos três ou cinco anos de seus horizontes relativamente limitados. É por isso que notícias como essa ou essa possuem vidas efêmeras–horas, quando muito, sob um foco de atenção cada vez menor. E é irônico o quanto as duas refletem os dois maiores problemas apresentados por filme e livros.

Se há alguém que ainda não acredita que o planeta está subindo no telhado, as duas únicas explicações possíveis são grossa ignorância ou deliberada ignorância. Eu me pergunto: daqui há cem anos será que a Terra ainda vai um ponto azul ou já vai estar a meio caminho para um ponto avermelhado?

Where Am I?

You are currently browsing the Sociedade category at Superfície Reflexiva.