Perspectiva

February 14th, 2008 § 0 comments § permalink

Muitas vezes a vida parece perder a realidade. Dia após dia, tudo se repete em infindáveis cadeias de uma frenética rotina que ameaça tolher o que há de mais precioso na existência. Nesses momentos é preciso recuperar a perspectiva.

Perspectiva para perceber a efemeridade dos acontecimentos sabendo que o que é já foi e será outra vez, mas que cada momento é único e precioso, fruto de um acaso programado. Perspectiva para entender que altos e baixos são partes complementares, e não opostas: para que um vale idílico exista, pelo menos duas montanhas são necessárias. Perspectiva para compreender a medida relativa das coisas e circunstâncias, entendendo como balancear as diferenças.

Sementes são plantadas a cada instante quer se queira, se entenda, se perceba ou não. E, se o velho ditado é certo, o que se colhe é o que se planta. A árvore frondosa que se espera no futuro depende do pequeno grão no agora. O próximo minuto depende do minuto que se vive agora.

Olhar para a frente, por um segundo que seja, pode mostrar que após a próxima curva, quase escondida sob a chuva torrencial, se vê a luz de uma estalagem, onde a cama é seca e o calor da lareira não se rende ao vento cortante.

Contradições

February 12th, 2008 § 6 comments § permalink

Do I contradict myself?
Very well then I contradict myself,
(I am large, I contain multitudes.)

Song of Myself, by Walt Whitman

Eu sempre gostei desse trecho do poema de Walt Whitman porque ele espelha basicamente o modo como eu me vejo em relação às minhas opiniões. E isso é provavelmente a maior causa de irritação entre os que me conhecem bem, embora com o tempo a maioria tenha aprendido a me tolerar.

Não me entenda mal. Eu tenho opiniões fortes. Ser cristão, por exemplo, para mim implica em ter pensando longa e profundamente sobre vários assuntos teológicos e ter tomado determinadas decisões sobre os mesmos. Meu pastor já se conformou com minha opiniões geralmente distantes do usual há um bom tempo.

Mas, com os anos, eu tenho chegado a conclusão de que o papel de advogado do diabo me cai bem. Há uma certa vantagem em ser capaz de mudar imediatamente de lado para defender um outro argumento mesmo que você não concorde em absoluto com o mesmo. Além de ser uma boa forma de desarmar opiniões absurdas sobre determinados assuntos, é também uma maneira de ver o que pode estar errado com o seu argumento.

Eu já surpreendi muita gente ao defender o código aberto para, ao ouvir uma opinião infundada sobre o código fechado, transformar-me imediatamente em um opositor do código livre até que o argumento fosse eliminado ou completado.

Na vida profissional, eu tenho usado isso com vantagem em reuniões com cliente. Às vezes, para mostrar o cliente que o tipo de mudança que ele deseja não é o ideal. Outras vezes, para tentar entender se a minha resistência à mudança é o problema. A lâmina corta para os dois lados e isso é muito bom.

Eu acho que esse tipo de treinamento em contradições é uma experiência valiosa em qualquer área da vida. Em última instância, uma pessoa realmente deve ter opiniões firmes e baseadas em argumentos sólidos. Mas saber modificar a sua posição é a maneira mais fácil de validar essas opiniões e garantir que você não cai nas armadilhas e falácias de argumentos não muito bem pensados. Eu recomendo.

Fim de carreira

February 10th, 2008 § 6 comments § permalink

Chegando nos trinta é inevitável pensar sobre a carreira e sobre os rumos futuros da vida profissional. Agora que eu estou envolvido plenamente na minha empresa, a carreira da empresa e a minha própria carreira estão meio que se misturando e pensar no futuro de uma implica necessariamente em relacionar os rumos prováveis que as duas seguirão.

Ironicamente, quando eu comecei a minha carreira de programação, eu não tinha a menor vontade, idéia ou planos para estar na posição em que estou, mais administrativa do que técnica no dia-a-dia. E, embora eu seja obrigado, por força daquilo que quero e pretendo fazer, a me desenvolver nesse sentido, eu fico me questionando sobre como isso impacta o meu futuro como programador.

Programação é uma coisa engraçada. É um das profissões que degradam com a idade. Não que o programador ou analista perca a sua velocidade ou proficiência. É mais uma percepção do mercado de que programadores jovens são mais capazes de produzir com a velocidade desejada e exercer as longas horas teoricamente necessárias. Obviamente, isso tudo é simplesmente um efeito do passo rápido da tecnologia e facilmente controlável em termos técnicos mas poucas empresas percebem ou aceitam isso.

A minha idéia, quando entrei no mercado, envolvia vinte cinco anos de carreira. Ou seja, começando com aproximadamente vinte anos (comecei mais cedo na verdade) e parando por volta dos quarenta em cinco. Não por não gostar de programar, mas por preferir uma estratégia de saída mais controlada. Embora me atualizar nunca tenha sido um problema e eu–pelo menos até onde percebo–continuo atualizado dentro da áreas nas quais trabalho, a minha vontade era uma finalização formal de carreira que partisse de mim.

Como ainda faltam quinze anos para isso–considerando que eu vou ultrapassar os vinte e cinco anos previstos–ainda há um bom tempo pela frente para decidir o que fazer com a empresa e com o impacto que isso vai ter nessa meta.

Trabalhar do outro lado da equação tem vantagens enormes, é claro, e isso pode significar uma coisa bem diferente daqui a alguns anos se os planos atuais continuarem a se desenrolar de maneira apropriada. No momento, entretanto, eu confesso que a carreira de Letras me parece mais agradável.

Enfim, por enquanto é uma questão de vamos ver no que dá. Mas eu ainda me surpreendo como as guinadas aparecem no caminho inesperadamente e você se vê em uma posição totalmente diferente da que esperava. No momento, não estou achando nada ruim as perguntas que eu estou sendo obrigado a me fazer.

Os quase trinta

January 26th, 2008 § 7 comments § permalink

I’m thirty-three for a moment
Still the man, but you see, I’m a they
A kid on the way, babe
A family on my mind

100 Years — Five for Fighting

Em menos do que cinco meses eu completo trinta anos. A mudança para os trinta é geralmente a que mais aterroriza o coração humano, porque assinala o momento em que aquela juventude inocente ficou irremediavelmente para trás e que a meia idade não está muito longe.

Eu acho que parte do terror é contemplar os anos para trás e perceber que muitas vezes não se fez metade do que o sonhado ou o buscado, e que esses anos, que deveriam ter sido os melhores e mais produtivos, os mais fortes e mais puros, passaram quase que desapercebidos, perdidos em uma tentativa de se concentrar demais em vários caminhos ou jogados em uma obsessão única que levou somente a uma perspectiva medíocre do futuro.

Dizem que raramente um matemática produz alguma coisa depois do seus vinte nove anos. Preocupações ou o fim daquele pulso juvenil estupendo alteram alguma coisa e raras vezes na história da matemática alguém produziu alguma coisa significativa além disse. Eu não sei se é verdade, mas eu tenho minhas dúvidas. Talvez seja mais um reflexo daqueles que brilharam rápido demais e deixaram sua marca mais forte do que aqueles que trouxeram suas contribuições pequenas mas significativas em outros anos.

Trinta anos é um tempo enorme de aprendizado. Os últimos cinco anos o foram ainda mais. Parece que as mais de duas décadas anteriores a esses anos foram uma enorme preparação para agüentar a dificuldade desses cinco e agora, no meio de uma das maiores transformações da minha vida, eu me sinto na posição perfeita.

Trinta é um excelente número. E quer eu viva mais cinqüenta, mais trinta, mais cinco ou mais dois, eu sempre serei grato por esses trinta. They were beautiful.

Eu preciso…

January 23rd, 2008 § 12 comments § permalink

Eu preciso de:

  • Tirar férias. Quatro anos sem sair de Belo Horizonte exceto a trabalho não dá. Preciso de uma viagem longa e para longe. Algo do tipo subir a costa brasileira de carro. Mas acho que vou ter que me contentar com algo mais simples. Vida de empresa é dureza. Se eu não gostasse tanto da liberdade, eu juro que ia trabalhar fichado.

  • Correr. Antes que os músculos atrofiem. Com os 30 chegando em pouco mais de quatro meses, seu eu não começar agora não vai mais. É claro que, do jeito que eu estou agora, correr significa passar um mês andando levemente, mais um mês andando devagar, mais um mês trotando. Bem, eu para pegar a idéia.

  • Dormir regularmente. Por mais que eu goste da idéia de não dormir, eu preciso parar com a variação na hora de ir para a cama. Do jeito que as coisas estão indo, em breve eu vou parar de separar o dia e a noite. Aliás, a hora que eu vou dormir é tão variável que estou usando a mesma como meu gerador de números randômicos. São só dois números por dia, mas já é útil para alguma coisa.

Só algumas coisinhas básicas mesmo.

A nostalgia de coisas futuras

January 10th, 2008 § 2 comments § permalink

Esses dias me peguei pensando em como as coisas mudam de proporção à medida que nos tornamos mais velhos. Eu estou para completar trinta anos, nasci no século passado, e quando meu filho estiver com seus vinte anos, ele olhará para trás com espanto em relação a esse fato.

Eu não me preocupo. Esse processo natural é algo que internalizei quando tinha apenas um dia de vida, como uma amiga minha costumava brincar. Mas eu não consigo deixar de sentir uma certa nostalgia das coisas futuras, as coisas que serão comuns daqui há algumas décadas e que estarão fora do meu alcance.

Talvez isso seja o resultado de ler tanto ficção científica, mas acho que todo mundo sonha com essas possibilidades. Com tantas mudanças e relances de novas tecnologias, mesmo os sonhos mais futuristas parecem estar quase ao alcance de nossas mãos.

Recentemente, ao ler sobre um projeto que fotografou pessoas que ainda estão vivas e passaram pelos últimos três séculos, eu fiquei imaginando o enorme escopo de transformações que essas pessoas vivenciaram. Algumas delas nasceram em uma sociedade que ainda era pré-industrial e agora vivem em um mundo dominado por tecnologia que seria considerada mágica quando estavam em sua infância. Quando choque futuro essas pessoas devem ter sofrido, eu não sei. Talvez nenhum. Talvez os enormes passos do começo do século passado as tenham preparado para as mudanças que viriam depois.

Eu acho que este é um bom projeto futuro. Viver para ver o nascimento do século vinte e dois. Com o passo crescente do desenvolvimento humano–e mesmo ignorando a possibilidade de uma Singularidade Tecnológica–talvez não seja um objetivo tão distante agora.

Talvez o próximo século ainda não traga a possibilidade de viagens ao espaço exterior. Talvez não seja uma época de pós-escassez ou mesmo de uma solução mais permanente para o dilema da desigualdade que permeia o planeta. Talvez seja apenas mais do mesmo em um grau um pouco maior.

Mas talvez seja o contrário. Talvez seja o ponto em que a humanidade terá entendido que não precisa de divisões territoriais para prosperar. Talvez tenhamos criado o nosso primeiro bastião no espaço exterior, em um certo planeta vermelho, um ponto que sirva como base para outras explorações. E talvez tenhamos entendido um pouco mais do enorme universo que nos cerca.

É uma nostalgia das coisas futuras, das possibilidades que virão. Eu as saúdo.

Em nome do que há de melhor em nós

January 6th, 2008 § 9 comments § permalink

Meu filho completa quatro anos no meio do ano. Já se vão três anos e meio de incrível aprendizado e reviravoltas completas na minha vida para manter esse pequenino o mais confortável e bem cuidado o possível.

Três anos atrás eu escrevi sobre a incrível experiência de ver meu filho de cinco meses com a consciência de que eu era alguém importante para ele. Essa é uma das memórias que andam comigo no dia a dia como uma jóia preciosa capaz de me animar nos momentos mais complicados, quando eu me deito para dormir e me preocupo com as decisões que preciso tomar para garantir que a minha família esteja bem a cada dia.

Os anos entre esse momento e o dia de hoje foram cheios de momentos que estão se cristalizando da mesma maneira. Obviamente, eu tenho um único filho com o qual julgar a experiência mas eu me impressiono com os pequenos eventos que acontecem–como imagino que se dá com qualquer pai. Como não se sentir orgulhoso quando seu filho entende que naquele mês não poderá comprar algo que deseja porque o papai está sem condições. E entender realmente, perguntando e respondendo de uma forma que você não acreditaria possível a uma criança de três anos. A curiosidade e o cuidado com o pai durante a recuperação de uma doença. A ligação com a mãe e a confiança implícita.

Recentemente, conversando com uma amiga e cliente, ela mencionava como ainda se preocupa com os seus filhos de vinte e dezoito anos, como ainda quer e sempre desejará protegê-los, embora saiba que já há muito tem que deixá-los aprender com seus próprios erros. Eu ainda estou muito longe desse momento, é claro, mas consigo imaginar facilmente a sensação. Esse é um aprendizado para toda uma vida.

Qualquer dia desses, o próximo chega. Não, ainda não estamos com um próximo a caminho. Mas estamos no processo e eu acredito que tudo será tão e mais recompensador com uma família acrescida de mais um. Nós somos o passado de nossos filhos e Sterling estava certo: essa não é uma sensação ruim. Antes, é a consciência de que o tempo não é um inimigo, mas o próprio agente do que há de melhor em nós.

A primeira década

January 4th, 2008 § 2 comments § permalink

Você tem consciência de que a primeira década do século 21 já está terminando? Santa passagem do tempo, para onde os anos foram?

O coração do tempo

January 1st, 2008 § 2 comments § permalink

O fim do ano é uma época curiosa. Cientistas falam de solstícios como os momentos em que o dia ou noite são mais longos dependendo do hemisfério em que você está. Eu tenho comigo que o último dia de um ano e o primeiro do seguinte são os dias que realmente merecem essa posição.

Não importa em que local você esteja, as pessoas com as quais esteja ou não passando os mesmos, ou, inclusive, o que esteja fazendo, esses dois dias, combinados, não parecem ter mais do que entre oito e doze horas. Luz e escuridão combinados, nenhum dos dois dura o suficiente para compor um ciclo completo do que chamamos dias.

No último dia do ano, o relógio parece funcionar em incrementos maiores do que os usuais segundos, minutos e horas. Você olha para o relógio e vê duas horas da tarde. Não mais do que alguns minutos depois, você olha novamente e vê que já são três e meia, sem ter consciência do período decorrido. E não é que você esteja distraído. Se você se lembrar de olhar os ponteiros, terá a curiosa sensação de que os mesmos estão se movendo um fração de volta mais rápidos. Relógios digitais piscarão suspeitamente, como se a energia estivesse para falhar, e, momentos depois, se reafirmarão em uma hora que você não se lembrará de ter visto acontecer.

E o primeiro dia do ano, então? O primeiro dia do ano é ainda mais rápido do que o dia anterior. Às vezes, parece passar tão rápido que você se pergunta se o ano realmente não começou no seu segundo dia. Poucas são as memórias futuras de um primeiro dia do ano. Elas sempre parecem se perder em brumas onde você somente ouve os ecos dos eventos passados como se eles pertencessem a outros que não você.

Talvez seja isso que faça os outros dias tão especiais. Saber que o tempo é tão frágil, tão sujeito a modificações, é algo que coloca em perspectiva cada segundo que se passa. Saber que momentos podem ser cooptados tão desapercebidamente ilumina cada outro segundo com uma luz segura e duradoura.

Esses outros momentos permanecem, congelados no mesmo tempo fugaz, como gotas lançadas em alta velocidade e capturadas no momento de sua explosão contra um obstáculo qualquer, sua forma delineada tão fortemente pela consciência de que aquele é o ponto final.

E é por isso que é possível valorizar esses momentos, porque cada um deles tem sua forma e seu propósito. Eles estão ali para ficar, ao mesmo tempo em que jamais reterão sua forma original. Essa, talvez, seja a mais bela afirmação da dualidade que existe no coração do tempo, a revelação e epifania dos dias em que o tempo não corre como deveria correr, mas existe para fora de nós, intangível e intocável e, entretanto, perfeito.

O ano livre

December 31st, 2007 § 10 comments § permalink

Se 2006 foi o não-ano, 2007 foi o ano livre. Foi o primeiro ano em que eu me vi completamente livre das amarras da vida cotidiana de trabalho-casa, casa-trabalho. Por causa, foi o ano em que, profissional e pessoalmente, eu experimentei algumas das minhas maiores realizações e tive alguns dos momentos de maior satisfação em minha vida.

Ser livre profissionalmente–como todos que já experimentaram bem o sabem–não quer dizer ficar livre de problemas. Entre as dificuldades de tocar a empresa e problemas de saúde, 2007 também foi um ano muito complicado. Financeiramente, foi o ano mais difícil que eu já passei desde que me sustento por esforço próprio. Mesmo assim, estou satisfeito.

O próximo ano parece que vai ser o ano em que as coisas que estamos construindo vão dar certo. Isso é mais do que se pode desejar normalmente, vai envolver muito esforço mas é algo que estou esperando com ansiedade.

Para todos os leitores que acompanham esse blog regularmente, que viram um pouco disso e que me apoiaram com seus comentários e e-mails, um muito obrigado pelo companheirismo ao longo do ano. Descobri recentemente que algumas pessoas estão lendo o que escrevo já há mais de cinco anos, o que é algo surpreendente e satisfatório. Mais uma vez, obrigado a todos vocês e meus votos de um próximo ano igualmente proveitoso, cheio de trabalho e satisfação.

Where Am I?

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