Sobre jedis, ninjas e samurais

January 8th, 2011 § 14 comments § permalink

Geeks de todos os tipos adoram se colocarem como os equivalentes tecnológicos de alguma sociedade guerreira–real ou imaginada–que exiba uma quantidade excessiva de coolness no dia-a-dia. Eu não posso culpar ninguém que faz isso porque eu também já fiz a mesma coisa muitas vezes.

É claro, eu nunca gostei tanto de Star Wars. Sendo um fã de Star Trek, eu sempre considerei Star Wars como algo que você superava quando crescia–bom para crianças, mas não para muito além disso (por favor, sem ameaças de morte, estou brincando–bem, nem tanto assim). Star Wars é fantasia e Star Trek é ciência. Claro, os Jedi são muito mais legais e eu preferiria andar com um sabre de luz do que com um phaser mas me dê um torpedo quântico qualquer dia ao invés de qualquer arma do Império ou da República.

E há sempre os samurais–aquela velha escola, valorosa, sempre envolvida em negócios por conta de honra, muitas vezes sem qualquer esperança de sucesso. De Seven Samurai a The Last Samurai–e não dá para esquecer os livros do Eiji Yoshikawa–nós ocidentais sempre admiramos a forma como esses guerreiros japoneses se conduziam, considerando o seu Caminho do Guerreiro como algo a aspirar.

Finalmente, há também os ninjas ou shinobi. Não muito populares hoje em dia, mas houve um tempo em que eram a febre entre a população mais jovem. Como os samurais, a arte deles também era baseada em princípios de honra e dever–embora, no seu auge, eles fosse mais equivalentes a guerrilhas ou equipes Black Ops do que o modelo mais Special Forces dos samurais.

Mas uma coisa que todas ordens tem em comum é que elas eram bem monásticas, baseadas em códigos estritos sobre como proceder, treinamentos estritos ao longo dos anos e especialmente, disciplina–em muitos casos, com o peso da honra coibindo qualquer relação além da com os companheiros de armas.

Como geeks geralmente gostamos de nos comparar essas ordens porque elas são, bem, fascinantes, e sempre estavam fazendo coisas além no normal, com seus procedimentos arcanos para lidar com situações acima do que uma pessoa normal poderia encontrar.

Mas há algo que é sempre esquecido sobre essas ordens–como mencionado acima, elas eram primariamente e acima de tudo sobre disciplina; sobre um modo de vida ordenado que permitia com que a pessoa se concentrasse no que realmente importava. Tanto o treinamento histórico e real dos samurais e shinobi quanto o imaginado, inspirado pelos anteriores, dos Jedi exigia um compromisso com a disciplina que supera qualquer outra coisa que a pessoa precisaria fazer no curso de sua existência como membro dessas ordens. E, acima de tudo, requeria compromissos entre o possível e desejado e o necessário.

O que me traz ao meu ponto.

Nos últimos quatro ou cinco anos, eu fui parte de quase dez times diferentes. Já vi equipes sucederem a falharam, se recuperaram e continuarem, se unirem e se tornaram grandes, acabarem e seguir com suas vidas. Em resumo, fui parte de um número enorme de situações em que pude participar ou observar como times interagem e fazem as coisas acontecerem.

E em todos esses anos, uma das coisas mais importantes que separou os times ruins ou medianos dos grandes times foi a disciplina, que geralmente a parte mais desprezada nos exemplos que os fãs desses grupos tentam emular quando escolhem seus heróis.

É um tanto irônico que pessoas professem gostar tanto de metodologias ágeis porque estas criam ordem do caos através de times auto-gerenciáveis–times que não precisam de muita direção para fazer e acontecer, times que não precisam ser monitorados continuamente para garantir que estão indo na direção certa–esqueçam de que gerar ordem do caos exige disciplina.

A verdade é que agilidade em times só acontecem naqueles que são disciplinados e que entendem o que se ganha e o que se perde quando um projeto tem que ser cumprido. Sim, agilidade tem tudo a ver com encarar mudanças mas isso só significa que você tem que conseguir trabalhar muito bem com seus pares e com a organização como tudo–entendendo o que está mudando e quais são os meio-termos a serem alcançados–para realizar seus objetivos. Mudança sem contexto, sem disciplina, só gera caos. E isso é que muitos parecem esquecer quando se encantam com o Scrum e suas disciplinas irmãs.

Eu estava falando com um amigo outro dia e estávamos discutindo o fato de que muitos programadores usam a desculpa do ADD para procrastinarem ou para justificar distrações. Geeks, ele estava dizendo, são notórios pela sua baixa capacidade de atenção.

Eu acho–e disse para ele–que o contrário é o correto. Os verdadeiros geeks são disciplinados o suficiente para manter o seu foco e continuar no que estão fazendo a despeito das distrações. Você precisa ser muito focado se quer depurar aquele heisenbug que está mantendo você acordado nas últimas 40 horas, fazendo com que seu servidor capote a cada hora e meia. Você precisa de disciplina para continuar afundando na documentação, indo e voltando para encontrar aquela informação elusiva de permitirá que você otimize a sua rotina para que ela rode em massas de dados enormes. E você precisa de um senso forte de direção para participar de um time sem controle gerencial direto em um ambiente que está mudando continuamente.

Em resumo, disciplina é o que separa os diletantes dos artesãos. É que faz as coisas acontecerem e que realmente cria grandes times. Não quer dizer que você tenha que ser um mala sobre horários, procedimentos ou qualquer coisa assim. Não significa que você não possa se divertir ou que tenha que seguir passos ordenados toda vez que vai fazer alguma coisa. Mas significa que você tem que praticar e pensar e se focar até que isso se torna uma segunda natureza, até que você se torne um mestre no que está fazendo.

E isso é o que ninjas e samurais e Jedi fazem. Eles não param, não correm quando a proverbial situação fica preta. Eles–você sabe–simplesmente vão lá e fazem, e fazem bem.

Fazendo aquilo com o Groupon

January 2nd, 2011 § 6 comments § permalink

Há uma grande discussão acontecendo agora sobre o modelo de negócios do Groupon. Depois que a empresa recusou a oferta de aquisição do Google, a pergunta que todo mundo está se fazendo é se os donos o Groupon são insanos ou brilhantes, tão confiantes no seu modelo de negócios e na habilidade do mesmo de ir além de qualquer oferta que o Google possa fazer–e isso depois da oferta ter sido dobrada duas vezes.

John Battelle é um dos que pensam que o Groupon fez a escolha certa. Ele escreve:

Good sources have told me that Groupon is growing at 50 percent a month, with a revenue run rate of nearly $2 billion a year (based on last month’s revenues). By next month, that run rate may well hit $2.7 billion. The month after that, should the growth continue, the run rate would clear $4 billion.

Battelle atribui isso a uma combinação de fatores: relacionamentos, localização e timing–veja o artigo para uma explicação maisprofundo do que torna o Groupon quase que irresistível para pequenos negócios. E como ele nota em seu artigo, a run-rate demonstrada até agora pelo Groupon é o triplo do que o próprio Google experimentou em seus anos iniciais.

Eu estava conversando com um amigo outro dia sobre compras coletivas e ele disse que o maior problema que afetaria e eventualmente mataria o modelo de negócios dessas empresas seria o churn, isto é, o fato de que muitas dessas ofertas estão criando problemas para os pequenos negócios usando a plataforma. De fato, há dezenas de histórias sobre pessoas sendo maltratadas porque chegaram com um cupom do Groupon ou equivalente local e o negócio em questão já estava irritado por estar perdendo dinheiro com esses clientes. Eu escutei várias dessas histórias em primeira mão e em muitos casos, os donos tinham calculado incorretamente o que podiam ou deveria oferecer e ficaram descontendes com a experiência com um todo, consequentemente se tornando menos e menos interessados em trabalhar novamente com compra coletiva.

Eu acredito que o churn que estamos vendo é somente uma conseqüência da forma como novos mercados funcionam. Se o Battelle está correto–e eu acredito que sim–o churn se tornará cada vez menor à medida que os negócios encontrem seus sweet spots no ecossistema. Eu não vejo porque, por exemplo, o Groupon não possa oferecer uma ferramenta que permita que os negócios entrem com alguns parâmetros e depois deduza o preço relativamente ideal para uma certa oferta. De fato, isso nunca vai ser exatamente precisa mas dará aos negócios usando a plataforma uma maneira de evitar os problemas mais extremos.

Em última instância, porém, eu acredito que o Groupon será bem sucedido porque está mudando a forma como as pessoas se relacionam com os negócios locais. Recentemente, falando com dois outros amigos, eles me contaram como os clones locais estão tendo um impacto em seus padrões de compra.

Um deles, divorciado, nos seus quarenta, disse que não janta fora mais a menos que tenha um cupom. Esses cupons o estão ajudando a aumentar o price point dos seus gastos e, consequentemente, melhorar os locais que ele pode freqüentar. Com a ajuda dos cupons, ele está indo para locais mais caros mais vezes por semana. Essa é uma mudança grande que está beneficiando o meu amigo e os pontos que ele gosta. Como os negócios estão se tornando mais cuidados e aumentando os gastos colaterais, como bebidas e outros–algo perfeitamente aceitável–isso faz com que o resultado seja proveitoso para todos envolvidos.

O outro amigo, com seus trinta anos, disse que que compras coletivas estavam na verdade ajudando que ele transasse mais. Ele é solteiro e está usando uma variedade de cupons–restaurantes, spas, roupas, pequenos itens–para impressionar e interessar mulheres. Ele ainda está usando uma quantidade considerável de dinheiro mas o Groupon e seus similares estão fazendo com que ele gaste esse dinheiro de forma mais eficiente em direção ao seu objetivo–que, sejamos sinceros, incluem no momento transar tantas vezes quanto possível no menor período de tempo. E é quase auto-evidente pela forma que mercados funcionam que qualquer coisa que ajude pessoas a conseguirem mais sexo–ou encontram qualquer medida de satisfação sexual–está em condições muito melhores de ser bem sucedido.

E aqui você tem o resumo final: pessoas estão fazendo mais sexo com o Groupon. E isso torna a sua posição mais forte ainda. Battelle está correto–do ponto de vista dos pequenos negócios–e meu amigo também está correto–do ponto de visto do consumido.

E dos dois modos, o Groupon vence.

2078

January 26th, 2010 § 7 comments § permalink

Hoje é 13 de junho de 2078. Quase esqueci do dia em particular, mas já se vão cem anos desde que meu avô paterno nasceu. Faz um certo tempo desde que ele morreu e ainda eu sinto muita saudade dele. Sempre vou sentir.

Meu avô paterno era um otimista tecnológico nato. Para alguém que considerava ficção científica seu gênero favorito de leitura isso não é de se espantar. Ele ainda viveu para ver muitos dos sonhos da ficção científica realizado e tenho certeza de que teria adorado as mudanças que ainda estão acontecendo.

Meu avô não era um cara que gostava de ficar contando histórias sobre o passado sentado com os netos. Ele gostava de contar histórias sobre o futuro, sobre o que já existia e sobre o que aquilo poderia virar. Eu me lembro de ficar horas sentado no chão da sala enquanto ele falava sobre autores e mais autores, séries e filmes de ficção e como aquilo que esperamos é ao mesmo tempo tão pouco e tão excessivo.

Um das coisas em que meu avô não acreditava era na Singularidade Tecnológica–o momento em que a tecnologia se expandiria além do que a humanidade como um todo fosse capaz de entender e manipular. Não porque era um homem religioso–ele era–mas porque acreditava que alguma coisa aconteceria antes que permitiria ao próprio homem o controle próprio da tecnologia em qualquer escala necessária. Em outras palavras, a tecnologia cresceria junto com a próprio humanidade. Até o momento, isso é o que parece estar acontecendo. Eu ainda não me decidi sobre a Singularidade, mas gosto da visão do meu avô.

Se ele estivesse aqui, ele provavelmente entenderia a maioria da tecnologia que é usada no dia-a-dia, mesmo que o uso pleno do que vem natualmente para nós lhe escapasse. Tecnologia, afinal de contas, é uma habilidade adquirida e cada geração enfrenta seus problemas de adaptação. Não duvido nada que um filho ou um neto poderão escrever a mesma coisa de mim um dia.

É claro que toda tecnologia tem seu preço e isso continua válido. Ainda estamos bem longe de uma solução para o clima, por exemplo, mesmo com toda a parafernália de seqüestro de carbono que já foi desenvolvida. As tempestades e disfunções climáticas ainda estão piorando e eu fico pensando nas obras de Kim Stanley Robinson e Peter Hamilton. De onde estamos hoje para a corrente do Golfo parar ou algo com as tempestades armada se tornarem reais não é uma distância muito grande. Acho que vamos conseguir escapar do pior, mas vai ser pouco.

Por outro lado, com ambientes consensuais de trabalho, dois grandes problemas já se foram e seus resultados já estão se fazendo notar. O trânsito agora existe quase que exclusivamente por conta de lazer e de mão de obra que precisa de local. Mas o efeito de bilhões de pessoas que não precisam mais ir para o trabalho todo o dia pode dobrar alguns balanços em nosso favor. Depois que provaram que P=NP, não foi muito difícil desenvolver um sistema automatizado emergente para cuidar de tudo. A mesma coisa para a quantidade enorme de prédios que existiam somente para servirem de um ponto comum de trabalho. Seria difícil para a maioria das pessoas nascidas há cem anos atrás imaginar isso, é claro.

Se meu avô estivesse aqui, talvez a mudança que mais lhe teria interessado seria convergência final de dispositivos. Ele não viveu para ver o fim do celular, televisão, rádio, computadores, notebooks, tablets, coisas que eram tão comuns quando ele estava no auge de sua carreira mas provavelmente teria se sentido relativamente confortável com um implante inscape e com os primeiros protótipos de HUDs. Tudo sobre o que um de seus autores favoritos, Charles Stross, falava e escrevia nos idos dos anos 20.

É, eu sinto falta de meu avô. Gostaria que ele estivesse aqui para compartilhar as próximas grandes mudanças. Mas não importa: eu sei que a imaginação foi suficiente. Espero que a minha seja também.

Balanço cultural de dezembro

January 22nd, 2010 § 0 comments § permalink

Dezembro foi mês de final de trabalho e começo de férias e confesso que fiquei com preguiça depois de alguns dias na moleza. Enfim, isso deveria ter sido postado no ano passado, mas para não deixar passar batido. O resultado do mês foi o seguinte:

  • 4 livros
  • 12 filmes

Nos livros, comecei o mês com Managing Humans, de Michael Lopps. Lopps é muito conhecido pelo seu blog Rands in Repose e o livro é um compilação de textos publicados no mesmo durante alguns anos. Eu leio o blog há algum tempo já e considero Lopps um dos melhores escritores no estilo. Além da clareza e atualidade do temas, Lopps consegue destilar seu conhecimento com humor e maestria, deixando o leitor sempre querendo um pouco mais.

Managing Humans é, em primeira instância um livro sobre gerência, mas não gerência no sentido de “mandar” em outras pessoas–antes, é uma visão de relacionamento, habilidades e construção de carreira baseados em quinze anos de experiência do autor. Apesar de voltado especialmente para engenheiros de software, os conselhos servem para qualquer pessoa, seja gerido ou gestor (o que é, de um ponto de vista bem prático, o caso de praticamente todos nós). Como Lopps diz na introdução, a mensagem primária do livro é: “Don’t be a prick”. Recomendado em todos os sentidos.

O livro seguinte do mês foi The Silmarillion, o conhecido épico mitológico de J. R. R. Tolkien. Eu já lera o livro algumas vezes antes, emprestado, e, depois de comprá-lo finalmente, decidi por mais uma leitura. Ainda permanece o meu preferido entre os trabalhos do Professor. O senso de mito, de estória se desenrolando ao longo dos milênios e de perda é tão forte que é impossível não se impressionar.

Para terminar o mês, li os dois primeiros livros da trilogia The Night’s Dawn Trilogy, do Peter Hamilton (The Reality Dysfunction e The Neutronium Alchemist). Hamilton é um dos que eu inclui em minhas leituras essenciais de ficção científica no ano passado e essa trilogia é um dos seus primeiros trabalhos.

Os livros contam da humanidade do século vinte e sete, divididos em duas grandes correntes: edenistas, com sua tecnologia biológica e baseada em inteligências artificiais com cultura unificada e, até certo ponto, utópica; e os adamistas, os humanos “normais”, usuários de tecnologia não-orgânica baseada em nanotecnologia.

As duas culturas convivem em paz, habitando os cerca de 900 planetas colonizados pela humanidade em uma organização conhecida com a Confederação, com algum contato alienígena no meio, até que uma ruptura no tecido da realidade libera algo desconhecido que ameaça não só a Confederação mas a própria definição do que é ser humano e do que representam a vida e a morte.

Como nos livros de Hamilton que já li, a estória é enorme e envolve dezenas de personagens primários, secundários e terciários com múltiplos temas permeando a narrativa. O autor cria um mundo verossímil e complexo tanto em termos da descrição das múltiplas facções e divisões da humanidade como na tecnologia descrita. Fiquei especialmente encantado com os voidhawks, naves estelares orgânicas sencientes unidas a seus capitães via uma tecnologia orgânica chamada de afinidade e capazes de navegação FTL.

Os livros–três calhamaços, por sinal–exploram, como é comum nos trabalhos de Hamilton, o fato de que, apesar de toda tecnologia, ainda permanecemos essencialmente a mesma espécie, com suas falhas, aspirações e forças. Essa exploração não é isenta de falhas–o final é um enorme, embora preparado, deus ex machina–e o estilo é deficitário em relação aos seus trabalhos posteriores. Mesmo assim, ainda vale a pena a leitura.

Nos filmes, comecei o mês vendo The Jane Austen Book Club. Alguém me recomendou o filme como sendo um comédia romântica decente envolvendo ficção científica e Jane Austen–dois temas que eu gosto. Com a esposa, me anime a ver e gostei. Não é muito diferente do usual em comédias românticas mas é divertido o suficiente. Depois descobri que é baseado em um livro do mesmo nome por um autor que, entre outras coisas, escreve ficção científica. Destaque especial para as obras de Ursula Le Guin que são um plot point.

Depois disso foi a vez de Okuriburo (lançado do Brasil como A Partida). O filme conta a estória de um recém-desempregado músico japonês que decide volta à sua pequena cidade natal em busca de um novo começo. Ao chegar à cidade, responde um classificado para um emprego que acredita ser em uma agência de viagens e descobre que, na verdade, é para ser um profissional que prepara pessoas para o enterro (para a partida). À medida em que ele começa encontrar sentido em seu trabalho e sua vida, começa a perder seus amigos e mesmo sua esposa que desprezam o trabalho. O filme é belíssimo, profundo e cômico ao mesmo tempo, explorando a vida, suas alegrias e tristezas. Confesso que ri e chorei durante quase o filme todo. Recomendo completamente.

Na seqüência, assisti Pandorum. Descobri quase por acaso durante minhas tradicionais andanças por listas de discussão de ficção científica. O filme conta a estória de dois membros da tripulação de uma nave generacional humana em meio à sua viagem para colonizar um planeta distante. Os dois tripulantes acordam para o seu turno de trabalho encontrando uma nave abandonada e às beiras de um colapso sistêmico. Tentando descobrir o que está acontecendo, encontram algo aterrorizador. A estória é clássica e contada em inúmeros filmes e foi um fracasso de público mas tem suas boas qualidades. Gostei das variações sobre o tema, focando mais nos personagens do que na situação em si e nas conseqüências dos problemas da nave. A fotografia também é muito boa e o final foi bastante satisfatório. Vale a pena para fãs do gênero.

Depois disso foi a vez de Avatar. Como todo mundo já deve ter visto a essa altura do campeonato, vou me limitar a algumas impressões básicas. Sim, a estória é batida e já contada milhares de vezes, mas não são todas elas? Já se disse que só existem algumas estórias básicas e o mérito está em como se conta. Isso é algo que acredito que Cameron consegui, contando a mesma estória de uma forma feita nova pela tecnologia e pela beleza da arte do filme. Gostei especialmente do cuidado dado aos detalhes científicos do filme e, se Cameron escorrega em alguns pontos, acerta mais ainda. Fica uma sensação de que o roteiro original era bem melhor, mas isso é algo que também pode ser corrigido em parte com uma versão do diretor. Se Lucas pode, Cameron também.

Depois foi a vez de Crank 2 e Gamer. Os dois filmes são escritos e dirigidos pela mesma dupla e são essencialmente a mesma estória fraca recheada de ação contínua e sem sentido mesclada entre cenas de sexo e violência gratuitos. Eu gosto tanto de Gerard Butler quanto de Jason Statham, muito em parte pela capacidade que os dois possuem de auto-ironia mas os filmes são definitivamente descartáveis.

New Moon, 17 Again, Push e Thick as Thieves foram programas de pré-Natal–suportáveis mas algumas poucas horas perdidas. No caso do último, nem a presença de Antonio Banderas e Morgan Freeman consegue ajudar. Aliás, Banderas parece que se especializou no papel agente da lei genérico infiltrado no últimos anos. Haja paciência.

No próximo mês, mais livros, filmes e passeios.

End of Year Blues

January 21st, 2010 § 2 comments § permalink

O céu está daquela cor outra vez. Cor de céu de fim de ano, um vermelho pálido como a cor das coisas que se vão. E não é de se admirar: dez anos já, dez anos desde o início de um milênio que prometia muito mas só trouxe mais do mesmo.

Você vê: neste ano, perdemos pouco mais perdemos o suficiente para enxergar que não há tanta coisa assim à nossa frente. Meu Deus, Brittany Murphy morreu domingo passado. Ela só tinha trinta dois anos–eu tenho trinta e um. E morreu também Michael Jackson. Eu não gostava de sua música. Eu tinha, sim, pena de sua conturbada e desperdiçada vida. Tão desperdiçada que seus olhos contavam, cantavam toda uma não-história para quem quisesse escutar. E nós o considerávamos imortal, mesmo assim.

Mas é fim de ano outra vez. Fim de um ano de muito pouco para lembrar além do massacrante mover dos nefastos mecanismos do dia-a-dia. Zeus do alto do Olimpo olhando para os pobres mortais, seus irmãos sorrindo diante do plano que traçaram para aqueles que nada conhecem. Maldito sejam os deuses.

E, sim, é fim de ano mais uma vez. Que finde em paz. Em jazz e em blues. Notas em uma guitarra fosca, quase desafinada. Blind Lemon Jefferson cantando “Backwater rising”, an end of year blues.

Balanço cultural de novembro

December 28th, 2009 § 3 comments § permalink

Estou de férias, depois de um mês final intenso de trabalho, o que significa que o blog está meio abandonado nesses últimos dias do ano. Mesmo assim, decidi manter pelo menos a tradição dos balanços culturais mensais para terminar o ano e começar 2010 com novos textos que estou escrevendo entre um passeio e outro.

Novembro foi um mês regular, com o seguinte resultado:

  • 3 livros
  • 6 filmes

Nos livros, comecei o mês com The Accidental Time Machine, do Joe Haldeman. Embora Haldeman seja bem famoso por seus trabalhos anteriores, esse é apenas o segundo dos seus livros que leio–ambos sendo produções mais recentes. Como eu tinha escrito anteriormente, também, The Accidental Time Machine é um homenagem cheia de humor e bem embasada cientificamente de todas estórias de viagem do tempo que já foram escritas. Quando um assistente de pesquisa do MIT chamado Matthew Fuller inventa sem querer uma máquina de viajar no tempo e descobre que ela somente vai para o futuro, ele se vê jogado para longe de sua época e envolvido cada vez mais em situações que não pode controlar. A leitura é rápida–o livro é quase uma noveleta–mas demonstra o talento de Haldeman em criar situações críveis com pouco esforço.

Segui o mês lendo Numerati, do Stephen Baker. O objetivo do livro é falar sobre como a matemática está sendo empregada para processar quantidades enormes de dados, modificando como vários campos e áreas de atuação humana funcionam, incluindo medicina, compras, segurança, saúde e mesmo relacionamentos. Um dos focos primários do livro é a Internet, é claro, e como os traços que deixamos na mesma são parte desses dados e como isso pode ajudar ou, em alguns casos, piorar a forma como vivemos e vemos o mundo.

A premissa do livro é interessante mas ele cai no mesmo problema de muitos outros livros sobre assuntos similares publicados nos últimos dois ou três anos: essencialmente, o livro é um artigo longo que foi transformado em uma obra impressa pelo expediente de clonar e adaptar o mesmo tópico vez após vez. Todos os capítulos do livro possuem exatamente a mesma estrutura: um, o campo X está produzindo quantidade enormes de dados; dois, nesse campo X, matemáticos estão usando os dados para tentar entender melhor o mesmo; três, no campo X, a matemática ainda não é suficiente para fazer o que esses pesquisadores querem; quatro, um dia a matemática vai ser; e assim por diante. Funciona para o primeiro capítulo, mas deixa os demais bem tediosos.

Fechei o mês lendo Saturn’s Children, do Charles Stross. Como já mencionei aqui várias vezes, Stross é um dos meus autores favoritos e seus livros raramente decepcionam. Saturn’s Children é sua space opera mais recente, contando sobre um futuro em que a espécie humana se tornou extinta e o Sistema Solar foi colonizado pelos andróides que serviam a humanidade antes de sua saída do palco cósmico. O livro segue Freya Nakamichi-47, uma bishōjo ginóide, que acaba se indispondo com a aristocracia cibernética e é forçada a se envolver com uma corporação de couriers para conseguir escapar se seus perseguidores, descobrindo no processo uma conspiração para controlar a sociedade andróide.

Como todo Stross, o livro é recheado de conceitos exuberantemente futuristas e possui uma estória interessante. Entretanto, ao contrário de seus trabalhos anteriores, senti uma certa necessidade de exagerar na exploração da sociedade andróide–que, obviamente, é fundamentalmente diferente da nossa sociedade e, como em todo trabalho de ficção científica, difícil de precisar–e também uma certa dificuldade em manter o balanço entre explicar e esconder a conspiração para não deixar a estória vazia. Stross sucede em contar a estória bem, mas acaba tendo que correr no final e explicar mais do que o necessário. Bom, mas não seu melhor trabalho.

Nos filmes, comecei o mês com Battlestar Galactica: The Plan, um filme feito após o fim de série que se propõe a contar um pouco mais sobre os motivos dos cylons em exterminar a humanidade. O filme superpõe cenas retiradas da série, para contextualização, com material novo exclusivamente do ponto de vista dos vários modelos dos cylons. O material novo é focado bastante nas especulações e motivações de dois Number Ones (Cavil) que se vêem em espectros opostos do pensamento cylon. Interessante, e com algumas boas cenas, mas dificilmente acrescenta algo ao que a série tinha mostrado.

Depois disso, foi a vez de 2012. Previsivelmente, o filme é bem descerebrado e só conta pelos efeitos especiais que dominam 90% das cenas. Vale a pena ser visto como um filme de desastre para acabar com todos filmes de desastre–e diverte nesse aspecto–mas só por isso mesmo.

Na seqüência, vi Law Abiding Citizen. Esse era um dos filmes do ano que eu estava esperando com bastante expectativa pela possibilidade de ser um novo Se7en, ou seja, perturbador mas sublime em contar uma estória violenta em que todas as pontas de encontram. Infelizmente, após um começo bom mostra-se incapaz de manter qualquer coerência e termina em um final ridículo e sem sentido, contrariando o resto do filme. Desapontou.

Os três filmes restantes foram Ghosts of Girlfriends Past (um tentativa de parodiar Dickens romanticamente), He’s Just Not That Into You e The Accidental Husband, parte da cota mensal de filmes românticos escolhidos pela esposa. Como ela mesmo comentou após um deles: não valem o DVD em que estão sendo distribuídos.

Balanço cultural de outubro

December 3rd, 2009 § 1 comment § permalink

Outubro foi um mês um pouco mais produtivo do que setembro para minhas leituras. O resultado do mês foi o seguinte:

  • 4 livros
  • 5 filmes

Comecei o mês lendo The Anubis Gates, por Tim Powers. Powers é um autor que consegue pegar idéias incrivelmente díspares e transformar em uma obra de arte. Eu não vou me alongar muito já que fiz uma resenha mais detalhada no mês retrasado, mas deixo a minha recomendação de leitura para fãs de fantasia e ficção histórica.

Continuei o mês lendo o volume oito da série Caballo de Troya do J. J. Benítez. Apesar do pesares e da fama ou infâmia dos livros, eu gostei muito dos quatro primeiros volumes, e acho que o Benítez conta uma boa estória quando quer. Infelizmente, os volumes mais recentes não estão à altura dos anteriores e representa mais uma tentativa à la Paulo Coelho de recolher o máximo de uma série que já deu o que tinha que dar. Benítez, inclusive, adotou a estratégia bizarra de terminar os livros em um cliffhanger sem sentido bem no meio de uma cena que continua no próximo livro. O resultado é frustrante para qualquer leitor, é claro. Como sou insistente, é bem possível que eu continue a ler a série pelo menos para ver até onde a coisa vai dar. Mas, se você não começou, evite.

Na seqüência, li Permanence, do Karl Schroeder. Já tinha lido dois de seus livros anteriores–Ventus e Lady of Mazes–que se passam dentro de universos com características bem similares e gostei muito da sua mistura de space opera com o pós-humanismo. Permanence é a estória de um jovem que encontra um artefato alienígena–uma grande nave generacional desabitada, capaz de abrigar múltiplas espécies–que promete respostas transformadoras para a sua civilização e precisa lidar com as conseqüências disso ao mesmo tempo que se liberta do seu passado. Em uma galáxia dividida entre mundos halo e mundos iluminados–estes últimos locais onde viagens em velocidade maior do que a luz é possível e governados por uma economia tirânica–o artefato promete uma resposta para a continuidade da humanidade.

Finalmente, li To Your Scattered Bodies Go, de Philip José Farmer. O livro é o primeiro de uma série chamada Riverworld que descreve um planeta distante tanto no espaço quanto do tempo da Terra consistindo basicamente de um rio incrivelmente longo nas margens do qual toda a humanidade que já existiu desde os primórdios da Neolítico até o século vinte é ressuscitada simultaneamente e misturada. Neste primeiro livro, essencialmente seguimos um grupo centrado em Sir Richard Francis Burton, explorando os eventos logo após a ressurreição e a tentativa por parte desse grupo de entender o que está acontecendo. O livro é bastante divertido–especialmente pelo caráter cômico de diferentes culturas interagindo em um ambiente novo e hostil onde convenções sociais são derrubada a toda instante–mas termina de forma mais abrupta sem revelar muito sobre o mundo e sobre os motivos por trás da relocação da humanidade. Gostei o suficiente para querer ler os demais livros.

Nos filmes, comecei o mês vendo o incrível District 9, sobre o qual falei um pouco anteriormente. Não vou me alongar mais a não ser para me repetir ao dizer que este foi o melhor filme do ano e tem tudo para se transformar em um clássico do gênero de ficção científica.

Na seqüência, assisti novamente Watchmen. Vi a primeira vez em condições menos do que ideais e foi bom assistir novamente e perceber que continuei gostando tanto quanto da primeira vez. A adaptação realmente ficou muito boa e se há algum infidelidade à estória original isso não detrai da qualidade da obra.

Continuei vendo State of Play, um thriller policial bem fraco com Russell Crowe e Ben Affleck, lidando com a morte da amante de um congressista americano e a investigação da mesma por parte da polícia e um jornalista. O filme é um remake de uma série da BBC que, pelas indicações do IMDB, é bem melhor do que sua revisão.

O penúltimo filme do mês foi Surrogates, uma adaptação com Bruce Willis e Radha Mitchell de quadrinhos do mesmo nome contando sobre um mundo em que todos humanos usam corpos artificiais para interagirem com o mundo real. Esses corpos, perfeitos e robóticos, conseguem passar todas as sensações para o seu usuário e são uma forma perfeita de proteção, inviolável e seguros. Quando alguém começa a exterminar esses substitutos, o personagem policial de Willis pega o caso e descobre que há algo maior em progresso. O filme é bem interessante em seus questionamentos e o final, se relativamente fraco, termina o filme de maneira decente. Recomendado.

Para terminar o mês, asssisti Duplicity, uma divertida comédia com Clive Owen e Julia Roberts sobre dois agentes secretos que decidem agir em conjunto para dar um golpe em seus clientes. A dinâmica dos dois atores principais–que eu já tinha admirado em Closer–é muito boa e funciona muito bem ao longo de todo o filme. O final é diferente do usual e foi bem satisfatório.

No próximo mês, bons livros e filmes ruins. :)

LazyWeb: Escolhendo um framework

November 11th, 2009 § 7 comments § permalink

Um amigo de Belo Horizonte me consultou esses dias sobre uma questão fundamental para a aplicação que ele está planejando começar a escrever nos próximos dias: framework de programação usar (e por extensão, qual linguagem)?

Como minha experiência nos últimos tempos tem sido confessadamente restrita a Rails e alguns experimentos em outros, resolvi apelar para a caridade dos meus leitores. Qual framework você usaria para seu próximo projeto?

Esse meu amigo não tem problemas com linguagens de programação em si. De fato, a não ser que seja algo tão esotérico quando Haskell ou Erlang, ele é capaz de se familiarizar com uma linguagem ou framework em alguns dias.

Obviamente, não posso dar muitos detalhes sobre a aplicação, mas dá para dizer que o objetivo é escalar gradualmente. Ela não precisar começar escalando para o mundo inteiro, mas um caminho seria bom. Um outro detalhe nesse aspecto é que a aplicação é comparativamente particionada: um usuário terá acesso a alguns itens e compartilhará esse acesso com algumas dezenas ou centenas de pessoas. Esses itens possuem moldes variáveis e seriam bom ter flexibilidade na criação do mesmos.

Finalmente, hospedagem é uma questão também. Não necessariamente preço, mas facilidade. Linode é uma opção mas preferivelmente algo que possa ser colocado em alguma coisa pequena e ir escalando conforme a necessidade, no estilo do Heroku (o que limitaria a Rails, claro). Python parece uma boa opção, mas ele precisa de evidências.

E aí, alguém anima a ajudar um pobre compadre em armas? 😀

A contagem até agora…

November 6th, 2009 § 0 comments § permalink

Algumas curiosidades sobre este blog:

  • Total de textos até o momento: 1104
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Meio inútil, mas divertido. :)

Leituras essenciais de fantasia

November 6th, 2009 § 2 comments § permalink

Continuando no tema de ontem, meu caminho com fantasia foi bem diferente do de ficção científica já que esta era um material muito mais complicado de se encontrar, principalmente para alguém que não tinha acesso ao mercado americano e europeu e estava limitado ao que conseguia achar em bibliotecas públicas.

O primeiro livro de fantasia que me lembro de ter lido foi As Reinações de Narizinho de Monteiro Lobato. Deliciado com a temática, procurei tudo o que poderia encontrar do mesmo gênero e acabei lendo essencialmente toda a obra de autor por meio de uma amiga que tinha uma coleção completa. Além de Lobato, entretanto, o máximo que consegui encontrar foi uma ou outra obra baseada em lendas árabes ou européias. Versões de As Mil e uma Noites e da Canção dos Nibelungos eram o máximo que eu consegui ler até chegar à adolescência.

Um dia, procurando ao acaso na biblioteca pública, encontrei um pequeno volume chamado O Hobbit de um autor que eu não conhecia. Devorei o livro de uma sentada só, impressionado com o escopo do mundo que o autor criara. Fui pesquisar e descobri que Tolkien não só era considerado um dos maiores escritores de fantasia de todos os tempos como também tinha sido responsável por ressuscitar a fantasia moderna. Seu O Senhor dos Anéis era um clássico universal com vendas que superavam basicamente qualquer outro livro já publicado. Demorou algum tempo, mas consegui encontrar os livros em uma biblioteca–como adolescente sem trabalho em não tinha dinheiro nem para consegui-los em um sebo–e li o livro duas vezes em um curto espaço de tempo. E finalmente, quando encontrei O Silmarillion, entendi que aquele seria um dos meus gêneros preferidos.

Apesar disso, meu contato com a fantasia ainda foi bem menor do que o contato com ficção científica até o começo da minha vida adulta. Comecei a ver estilo diferentes e acompanhar novos autores somente quando um amigo americano, que recebia livros de fantasia de sua avó nos Estados Unidos, começou a me emprestá-los ao descobrir que eu compartilhava o mesmo gosto pelas estórias.

Foi então que conheci os grandes nomes que estavam fazendo fantasia na atualidade, com séries épicas e volumosas contando estórias brilhantes sobre mundos onde a mágica era uma constante e uma metáfora tão válida para a capacidade humana quanto a tecnologia. Stephen R. Donaldson, Terry Brooks, Robert Jordan, Terry Goodkind, David Eddings, Ursula K Le Guin (novamente), Anne McCaffrey, Piers Anthony e outros se tornaram companheiros constantes.

Com o tempo, percebi que Tolkien, embora fosse um clássico, não era minha real preferência em fantasia. Eu não sou tradicional e prefiro o tipo de fantasia que realmente estica os limites do gênero. Tolkien, sim, teve o mérito de trazer esse tipo de literatura para o palco com seus livros mas outros também contribuíram tanto quando ele desde então.

Como no texto anterior sobre ficção científica, o que segue abaixo é uma pequena lista do que considero leituras essenciais da área hoje. Novamente, não é uma lista compreensiva e também reflete meu bias em fantasia e o que já li.

Critérios similares aos usados anteriormente se aplicam:

  1. Em sua maioria, os livros foram escritos no máximo há vinte anos, preferencialmente nos últimos dez para trazer à tona o que está sendo feito de bom ultimamente.
  2. Quase nenhum é de autores considerados grandes mestres tradicionais da fantasia. Primeiro, porque a maioria deles escrevia em uma vertente mais clássica. Segundo, porque procurei evitar a produção recente dos que continuam na ativa.
  3. Procurei balancear os grandes sub-gêneros atuais da fantasia, evitando, entretanto um tema que gosto mas que está bem batido: vampiros. Procurei também evitar as séries mais vendidas da atualidade para apresentar material mais interessante.
  4. A maior parte dos trabalhos aqui ganharam os grandes prêmios do gênero mas eu não referencio nenhum dos mesmos.
  5. Como já havia prometido para algumas pessoas também uma lista do que acho interessante no gênero, a lista também indica fortes preferências pessoais.

Como anteriormente, as descrições dos livros evitam ao máximo spoilers mas possuem um pouco da minha visão do que faz o livro é interessante e essencial e por isso podem relevar mais do que devem às vezes. Sinta-se à vontade, portanto, para ignorar as descrições e simplesmente procurar pelos mesmos na Internet.

Mordant’s Need & The Chronicles of Thomas Covenant, the Unbeliever — Stephen R. Donaldson

Stephen R. Donaldson é de longe, em minha opinião, o autor mais poderoso a agraciar a fantasia com seu trabalho. Seu nome é uma exceção às regras acima nessa lista porque o considero não só o maior nome atual em fantasia como o responsável por praticamente tudo o que aconteceu de bom no gênero nos últimos 20 anos. Donaldson fez pela fantasia o que Iain M. Banks fez pela space opera, mostrando que era possível fugir do estereótipo de anões e elfos e criar algo surpreendente, poético e belo. Na época em que Donaldson escreveu seus livros, o mercado era essencialmente dominado pelos livros de Terry Brooks que eram–e ainda são–uma cópia deliberada de Tolkien capitalizando sobre os mesmos temas para atrair leitores. Donaldson mostrou que isso não era necessário e abriu as portas para incontáveis outros autores.

Conheci Donaldson pela primeira vez através do amigo sobre o qual contei acima, e confesso que quase destruí o primeiro livro de sua série sobre Thomas Covenant. Lembro com um nitidez incrível o choque que senti ao ler o sétimo capítulo desse primeiro livro e, quase sem pensar no que estava fazendo, atirar o livro contra a parede, quase quebrando o mesmo em duas partes. Esse é o impacto que o que Donaldson escreve causa em seus leitores–não por ser grotesco ou por apelar para literatura barata, mas por conseguir apertar os botões da nossa humanidade. Ironicamente, Donaldson é pouco conhecido atualmente. Embora seus livros tenha vendido muito bem, ele é tão forte que acabou sendo superado em vendas por literatura mais popular e mais rasa posterior.

The Chronicles of Thomas Covenant, the Unbeliever é uma série originalmente em três volumes que ele escreveu no começo nos anos oitenta. Para não me alongar mais sobre o livro e estragar minimamente as surpresas que ele reserva, basta dizer que o personagem principal, Thomas Covenant, é um anti-herói, literalmente leproso, que se vê as voltas com uma situação que não consegue suportar e que vai além de qualquer coisa pedida a um ser humano. O resultado é brilhante, com um impacto que vai durar anos no leitor, falando profundamente sobre a dignidade do ser humano. A série continuou anos depois com mais três volumes igualmente profundos e Donaldson agora está no meio de uma tetralogia final que completará a estória. Desnecessário dizer, estou esperando cada volume ansiosamente.

Mordant’s Need é outra mostra do talento de Donaldson. São dois volumes que contam estória de uma mulher chamada Terisa que é levada a um mundo em que espelhos são a forma de mágica dominante e onde ela é jogado em meio a intrigas políticas e militares por ser confundida com alguém que pode trazer balanço a esse mundo. Donaldson mais uma vez subverte os clichês tradicionais de fantasia lidando com temas como realidade, poder, inação, identidade e amor de uma maneira adulta e poderosa.

Da mesma forma que com Iain M. Banks, para usar o proverbial exemplo, se eu tivesse que escolher uma série de fantasia para levar para um ilha deserta, os livros de Donaldson seriam a escolha óbvia.

A Song of Ice and Fire — George R. R. Martin

George R. R. Martin é um autor bastante conhecido e seus livros já são numerados nas dezenas. A Song of Ice and Fire é sua maior obra–e ainda incompleta–e uma das melhores coisas de fantasia que eu já li. Embora usando o tradicional cenário medieval como base, Martin dá um ar de frescor aos seus escritos por essencialmente não usar mágica além do mínimo necessário. Como exceção de um ou outro objeto e uma ou outra raça mágica, os livros poderiam ser considerados quase como que história alternativa.

A grande diferença do que Martin escreve está no modo impiedoso e realista com o qual ele trata a estória e seus personagens. Como o título do primeiro livro da série, A Game of Thrones, dá a entender, a estória é sobre a disputa pelo controle de uma nação após a morte de um grande rei. Várias casas, cada um com um propósito diferente, algumas suportado os herdeiros originais do trono, outros suportando anteriores inimigos, se posicionam para batalhas épicas tanto nos campos quanto em salas de espera em castelos. Ao mesmo tempo, dois antigos poderes ressurgem e convergem para o coração desse reino dividido.

Se Robert Jordan é conhecido por quase nunca matar um dos seus personagens–e por geralmente ressuscitar os que matou–Martin é conhecido por não ter o menor dó em eliminar personagens pelo bem da trama. Ao fim do primeiro livro, vários dos personagens principais estão mortos e, pelo quarto livro atualmente publicado, dezenas já não integram mais o rol de caracteres, e vários outros estão em fuga ou desaparecidos.

A única ressalva que eu tenho contra a série é que o quinto volume já está sendo produzido há cinco anos sem sinal de aparecer. Como a série deve chegar aos sete livros, há uma distinta probabilidade que Martin não termine de escrevê-la dado sua idade e seus outros interesses. Mesmo assim, o que foi escrito até agora já é excepcional em todos aspectos.

Perdido Street Station, Scar & Iron Council — China Miéville

China Miéville é um dos primeiros escritores e um dos maiores expoentes do movimento conhecido como New Weird, que combina fantasia urbana, modernista com horror e surrealismo, resultando em livros que geralmente possuem tramas e finais bem diferentes do que se espera na fantasia tradicional.

Definir Perdido Street Station, por conseqüência, é uma tarefa complicada. Mas, seja lá qual for a categoria em que Perdido Street Station se encaixe, o livro leva essa estranheza ao extremo e apresenta o leitor com um dos melhores mundos fantásticos já criados, povoados de criaturas ímpares e complexas cujas vidas e desventuras compelem o leitor, o atraindo e repelindo ao mesmo tempo. Falando em personagens, o título de livro se refere à principal estação de trens da Cidade Estado de New Crobuzon. A cidade, por si só, é uma das figuras importantes do livro, exibindo em uma incrível complexidade e diversidade. A estação é onde o clímax da estória acontece, embora cada pedaço da enorme e decadente metrópole retratada por Miéville tenha seu próprio encanto, por mais esquisita e degradada que pareça.

O enredo do livro é razoavelmente complexo e eu não quero entregar muito para os que pretendem lê-lo. Resumindo, a história é centrada em Isaac Dan der Grimnebulin, um cientista da cidade que é fascinado pelas mais esotéricas questões seja elas da própria ciência, taumatúrgicas ou ocultas. Isaac, enquanto trabalhando em seu laboratório, recebe a visita de uma garuda (uma espécie humanóide com características de aves e capazes de vôo). A garuda faz uma proposição para Isaac, que aceita o projeto com grande interesse. No meio do projeto, alguns fatos inesperados acontecem, resultado da curiosidade insaciável de Isaac, jogando a cidade nas garras de um terror intolerável. Isaac toma então sobre si a responsabilidade de corrigir os seus erros. No meio dessa busca, amigos e inimigos de Isaac se envolvem, cada um com seus alvos e problemas, em uma trama complexa e extremamente satisfatória.

Estilisticamente falando, Miéville consegue literalmente mudar de marcha na narrativa nitidamente a cada momento em que essa necessidade se faz presente. De sombrio e rápido a lento e melífluo, com um vocabulário próprio e agressivo quando necessário, o livro consegue expressa desespero, esperança e uma boa dose de ennui vitoriano que o tornam uma peça de arte.

Scar e Iron Council se passam no mesmo mundo e repetem com bastante sucesso a fórmula original de Perdido Street Station, apresentando outras facetas do universo criado por Miéville e deixando o leitor sempre com a sensação de que mais obras poderiam vir e que nenhuma delas seria um desperdício de tempo.

The Wizard Knight — Gene Wolfe

Gene Wolfe é uma outra exceção às regras acima por ser antigo no gênero (embora mais conhecido por sua ficção científica do que fantasia). The Wizard Knight é um de seus trabalhos mais recentes e uma obra surreal e única em muitos aspectos.

Em The Wizard Knight, Wolfe conta a estória de Able of High Heart, originalmente um adolescente americano que, ao escolher um caminho errado por uma floresta, é transportado a um reino mágico e transformado quase que instantaneamente em um homem adulto de proporções épicas. Able–que é o nome dado a ele por aqueles que o transformaram–torna-se um Cavaleiro e recebe a missão de trazer balanço ao mundo em que ele se vê lançado. Esse mundo, composto de sete camadas, cada uma deles visível da inferior como se fosse o seu próprio firmamento e tendo os habitantes da camada superior como deuses, é uma versão convoluta e espetacular de Faerie recriada por Wolfe para servir seus propósitos. Dragões, aelfs, reis, rainhas, cavaleiros, deuses e deusas, feiticeiros e magos, ogros e gigantes aparecem em igual medida na estória. No meio disso, se encontra também a estória de amor de Able por Disiri, uma rainha Aelf que ajudou em sua transformação por motivos que são vagamente vistos ao longo dos livros.

Contada largamente em primeira pessoa por Able, na forma de cartas, a narrativa é completamente duvidosa e inconstante. Able, que embora tornado adulto, é no fundo um adolescente, conta sua estória da maneira como ela lhe vêm na cabeça, misturando locais, tempos e fatos. Embora a narrativa seja na maioria do seu ponto de vista, algumas vezes Able narra fatos a que não teve acesso a não ser por terceiros e as pessoas e visões da estória se tornam ainda mais estranhas. Em alguns pontos, a própria construção das frases apresenta falhas como se Able estivesse tentando encontrar as palavras apropriadas e se distraísse, criando um efeito vívido e impressionante de estranheza. Mais curiosas ainda são as menções que ele faz de eventos que aconteceram ou vão acontecer, para simplesmente abadoná-los na narrativa–algumas vezes não sendo mais mencionados ou resolvidos em qualquer ponto do livro.

Essas características podem espantar alguns leitores mas são justamente o que tornam o livro tão belo e envolvente. Gene Wolfe consegue quebrar as convenções do gênero e–de fato, da maior parte do que consideramos literatura fantástica–e produzir uma obra excepcional e valiosa.

The Last Light of the Sun & The Lions of Al-Rassan — Guy Gavriel Kay

Guy Gavriel Kay é provavelmente mais conhecido por sua fantasia bem tradicional. Seus primeiros livros podem ser considerados como tendo bebido diretamente na fonte encontrada por Tolkien. Inclusive, ele foi responsável pela edição de O Silmarillion quando esse foi publicado postumamente pelo filho de Tolkien. Apesar disso, incluo Kay na lista por seu trabalho como fantasia histórica. Muitos dos seus trabalhos se passam em reinos ficcionais que lembram lugares e épocas reais de nossa história, tal como a Espanha de El Cid ou a Constantinopla de Justiniano I.

The Last Light of the Sun é talvez o melhor exemplo disse, se passando durante o período em que os Vikings invadiram a Inglaterra saxônica e trata da estória de um jovem Erling (similares aos Vikings) que deseja se provar como guerreiro, da tentativa de seu pai de corrigir os erros de seu passado, da busca de vingança por um jovem príncipe e da necessidade de um rei de tornar o seu país mais civilizado e mais resistente aos ataques que sofre por parte dos bárbaros. O resultado é uma estória de redenção e amor, profundamente evocativa e que mostra de forma convincente a passagem de uma era. Com quase nenhum elemento de mágica, o livro consegue mesmo assim captar o tom fantástico e nostálgico das obras do gênero.

Em The Lions of Al-Rassan (que se passa no mesmo mundo de The Last Light of the Sun mas séculos antes), a narrativa é igualmente evocativa e doce-amarga. Kay consegue mostrar um mundo inteiramente real e povoado por pessoas que você quase consegue acreditar terem existido como figuras históricas. Neste livro, a inspiração vem dos Mouros, no fim de sua época de dominação árabe sobre a península ibérica, e a subseqüente Reconquista. A estória segue a vida de dois homens cujos destinos os colocam primeiro em favor um do outro e depois contra o outro a serviço de seus respectivos monarcas e povos. No meio disso, o destino das mulheres que amam, filhos e aliados tornam a estória inteiramente crível e marcante.

American Gods & Neverwhere — Neil Gaiman

Gaiman é uma unanimidade recente na fantasia principalmente pelo seu trabalho com quadrinhos–especialmente no épico The Sandman. Sua fantasia é poderosa, mítica e expansiva, sendo quase impossível de classificar por essencialmente usar quase tudo o que já foi escrito no gênero, subvertendo e adaptando influências quando necessário para criar estórias convincentes, profundamente mágicas e transformadoras. Eu poderia citar essencialmente qualquer obra do autor para demonstrar esse ponto, mas acho que as duas que escolhi representam, provavelmente, seus melhores trabalhos.

Eu não vou estragar a surpresa de ninguém, contando muito sobre o livro, mas basta dizer que, em American Gods, o protagonista se vê envolvido em uma luta entre os deus antigos da humanidade (nórdicos, russos, irlandeses, egípcios, praticamente todo o panteão do velho mundo faz uma aparição ou outra) e os novos deuses da era moderna (mídia, dinheiro, tecnologia e a misteriosa Agência –que deve existir porque todo mundo acredita que ela existe). Tudo, entretanto, é mais do que parece e Gaiman leva o leitor a uma exploração fascinante da cultura americana vista através dos olhos de um europeu. O resultado é muito interessante, ainda mais quando visto pelos olhos de uma terceira parte. Para qualquer amante de mitologia, o livro é um prato cheio. As referências internas e surpresas se multiplicam em todas as páginas, incluindo sensacionais jogos de palavras que são um prazer de decifrar. O livro é um dos poucos em que eu fiquei impressionado com o cuidado que o autor teve de resolver toda e qualquer trama aberta no livro, por menor que a mesma fosse.

Em Neverwhere, por outro lado, nós temos a estória de Richard Mayhew, um inglês to interior que se mudou para Londres procurando um trabalho melhor e cuja vida pacata e comum parece estar se encaminhando na direção ideal. Seu trabalho é bom, sua noiva é perfeita e tudo está dando certa para ele. Até que, em uma noite, ele topa com uma jovem caída no passeio perto de sua casa. Ele ajuda a jovem, que está ferida e amedrontada, e sua vida se transforma completamente. De repente, ninguém mais o conhece e ele parece não mais existir, exceto para os misteriosos habitantes de uma outra Londres, a Londres Abaixo. Recrutado para uma causa em que ele não acredita, Richard Mayhew precisa aprender a lidar com o perigoso mundo em que se encontra se espera sobreviver por mais do que algumas horas.

É quase impossível não gostar de um trabalho de Gaiman e a única ressalva que eu tenho para com seus livros está nos de fantasia juvenil que sempre me pareceram um pouco mais fracos e faltando o balanço que dá aos seus outros trabalhos o vigor e força fantástica que possuem. Mesmo assim, é impossível não querer ler mais do que Gaiman oferece.

Mistborn — Brandon Sanderson

Brandon Sanderson era um autor relativamente desconhecido–apesar de seus excelentes livros–até que o estado do falecido Robert Jordan o selecionou para continuar a épica série The Wheel of Time. Mas, mesmo sem a fama advinda dessa mudança, Sanderson cedo ou tarde aparecia com força no cenário de fantasia pela originalidade de seus trabalhos. De fato, foi justamente essa originalidade que levou à sua escolhe para continuar a obra de Jordan, mesmo quando o mercado geral ainda não tinha percebido o que tinha em mãos.

Mistborn é o trabalho mais conhecido de Sanderson embora ele seja bem prolífico. O livro não é só bem escrito, com um prosa fluida e bem estruturada, como também lida muita bem com o tema de profecia e o papel do herói. A maioria dos livros de fantasia são sobre como pequenas coisas mudam o destino de mundos inteiros por pré-determinação. Mistborn não cai nessa armadilha e oferece uma boa variação com mudança planejada sobre uma misteriosa falha anterior–um herói que deveria ter salvo o mundo mas o condenou.

Eu também gostei muito do sistema de magia, baseado na capacidade de “queimar” metais para conseguir certos poderes. Uma pessoa dotada dessa habilidade pode ingerir pequenas quantidades de certos metais–doze deles para ser exato–e queimá-los aos poucos dentro do corpo. Queimar aço, por exemplo, permite encontrar outros metais enquanto queimar cobre permite acalmar as pessoas. A parte em que um dos personagens demonstra as suas várias habilidades é muito bem escrita e lembra algo com as artes marciais de The Matrix. E, ao final do livro, o leitor ainda descobre que presenciou, na verdade, três sistemas de magia, todos necessários para a conclusão da estória.

Aliás, esse é um dos pontos fortes da originalidade de Sanderson, criar sistemas críveis e metafóricos de magia que quebram as convenções tradicionais do gênero. Mas, mais do que isso, suas estórias são tranqüilas, bem arquitetadas, divertidas e com uma fluidez que conquistam o leitor imediatamente.

Não li ainda seu primeiro volume de conclusão de The Wheel of Time, lançado há apenas alguns dias mas tenho certeza de que ele trará uma conclusão digna e bem pensada à série.

Vellum & Ink — Hal Duncan

Hal Duncan é um autor pouco conhecido e seus dois primeiros livros, que foram uma única estória provavelmente é para poucos. Demorei um mês para ler e a pancada intelectual foi a mesma relatada pela maioria dos leitores. Duncan está sendo aclamado como um dos líderes de uma nova geração de escritores de ficção fantástica e o livro prova isso. Vellum não é para os fracos de coração. É um livro sem começo, nem fim, em que cada página se desdobra em múltiplas estórias dentro de um multiverso onde Céu e Inferno batalham pela própria realidade. Não dá nem para começar a falar sobre o livro aqui porque ele é complexo demais para ser absorvido em uma única leitura, quanto mais destilado em uma entrada de um blog. O que eu posso recomendar é: pesquisem um pouco do Google e leiam.

Malazan Book of the Fallen — Steven Erikson

Eu fui atraído por essa série, cujo décimo e último volume deve ser publicado no próximo ano, quando vi uma indicação do próprio Stephen R. Donaldson em uma entrevista. E de fato, a série é considerada por muitos o trabalho mais significativo de fantasia desde que Donaldson escreveu seus livros. Como é quase impossível descrever uma série de dez volumes em alguns parágrafos, vou dizer apenas que a estória de passa no Império Malazan e tem uma complexidade e escopo que rivalizam uma enciclopédia sobre o assunto. Embora muitos dos livros da série sejam auto-contidos, os eventos são complicados, aninhados e interligados de tal forma que acompanhar a série é um esforço–delicioso, sim, mas um esforço. Poucos trabalhos atuais conseguem ter a quantidade de intriga, batalhas, personagens, deuses e tudo o mais que uma boa fantasia deve ter. Enfim, vale a pena. Estou nos primeiros volumes ainda e gostando de cada palavra.

The Name of the Wind — Patrick Rothfuss

Patrick Rothfuss é outro autor recém-chegado ao gênero. The Name of the Wind é seu primeiro livro, parte de uma trilogia cujo segundo volume está para ser publicado no começo do próximo ano. Atualmente, é muito raro que eu comece uma série antes que todos os livros tenha sido escritos–motivado, em grande parte, pela quantidade de séries que estou esperando que acabem algum dia–mas essa vale a pena. A estória é fascinante e eu devorei o livro. Só para dar o gosto, um pequeno trecho do mesmo:

I have stolen princesses back from sleeping barrow kings. I burned down the town of Trebon. I have spent the night with Felurian and left with both my sanity and my life. I was expelled from the University at a younger age than most people are allowed in. I tread paths by moonlight that others fear to speak of during day. I have talked to Gods, loved women, and written songs that make the minstrels weep.

You may have heard of me.

Novamente, os livros acima, representam, é claro, apenas uma mínima fração do que está sendo produzido atualmente. Eu poderia continuar citando várias menções honrosas que completam a lista como:

  • The Wheel of Time — Robert Jordan (com ressalvas)
  • The Sword of Truth — Terry Goodkind (com ressalvas)
  • Memory, Sorrow, and Thorn — Tad_Williams
  • Age of Misrule — Mark Chadbourn
  • The Earthsea series — Ursula K. Le Guin
  • The Arjun Chronicles — Felix Gilman
  • The Chronicles of Amber — Robert Zelaszny
  • The Great Game — Dave Duncan
  • The Merchant Princes — Charles Stross
  • E centenas de outros…

Espero que a lista tenha sido de utilidade para alguém. Sintam-se, claro, à vontade para acrescentar outros nomes nos comentários.

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